FERNANDO DE LA VIETER NOBRE
ASILO EM PORTUGAL:
uma imperiosa necessidade ética e humana


Como médico humanista que teve a fortuna de percorrer os quatro cantos do nosso martirizado mundo, e como assumido membro da comunidade portuguesa no Zaire, clamo a absoluta necessidade, por razões humanísticas e éticas, de que Portugal seja uma terra de asilo para todos aqueles que, escorraçados e famintos, nos batem à porta.

É útil relembrar que a História dos povos, incluindo a nossa, é a resultante de migrações de populações que, por razões várias mas sempre imperiosas, decidiram procurar asilo e refúgio sob melhores auspícios. Assim sempre foi, assim sempre será.

Portugal, país que encontra nas suas epopeias marítima e migratória, de contacto e descoberta de outros povos e outras culturas, as suas mais brilhantes páginas históricas, não obstante os eventuais excessos que daí adviram, não pode ter outra postura que não seja a de ser uma terra de Asilo. Para um país como o nosso, que viu milhões dos seus filhos emigrarem por razões políticas e económicas e serem acolhidos e aceites nos quatro cantos do mundo, seria absurdo, anti-ético e imoral erguer-se hoje em fortaleza retrógrada, abjecta e inútil. Hoje temos, provavelmente, se somarmos os portugueses e os seus descendentes em todo o mundo, um outro Portugal, de aproximadamente 10 milhões de habitantes fora do país. Por ter convivido de perto com as comunidades lusas no Zaire, Bélgica, França e Estados Unidos da América, sei como foi benéfico para esses nossos compatriotas terem encontrado uma terra de asilo que lhes permitiu o acesso à estabilidade pessoal, familiar, profissional e económica. Como recusar a outros o que tantas vezes já nos foi oferecido? Se nos faltar humanismo, tenhamos no mínimo vergonha...

Não há nenhum acordo, seja ele de Schengen ou de outra qualquer denominação, que impedirá que os martirizados povos do Sul e do Leste europeu cheguem a Portugal; já cá estão e vão chegar muitos mais... a menos que se instalem metralhadoras, com ordem de atirar a matar, ao longo das fronteiras!!! Ainda assim, seria inútil!

Cabe-nos a nós, Portugueses e Europeus, duas atitudes claras, urgentes e simultâneas, perante o drama dos imigrantes:

Como medida, associando ética e desenvolvimento, sou de opinião que se perdoe, por exemplo, a dívida externa desses países (verdadeiro estrangulamento ao desenvolvimento) mas que sejam congeladas as fabulosas contas bancárias dos seus dirigentes, muitas vezes superiores às próprias dívidas, a fim de serem investidas e aplicadas em verdadeiros projectos de desenvolvimento nesses países exangues.

Perante os formidáveis desafios que se avizinham para o mundo e perante a nossa confortável e cega pacatez, se não se tiver a coragem de enfrentar e resolver as verdadeiras razões que levam milhões e milhões de seres humanos a fugirem dos seus países em chamas, onde se instalaram a fome e o caos económico e político, assistiremos cada vez mais, pela Europa e em Portugal também, às reacções racistas e xenófobas, encapotadas ou violentas, de triste memória e que tanto desprezam e envergonham a raça dita humana.

Com o fim do "Estado Providência", a avidez na obtenção do bem estar económico, o abandono da noção de solidariedade activa, a indiferença, a intolerância, a falta de vontade e determinação políticas, só nos resta pugnar para que Portugal esteja na vanguarda, como país de Asilo, fazendo ouvir a sua voz no que, para mim é hoje essencial: a adopção de medidas ético-morais que permitam a integração digna daqueles que o solicitem (com exclusão para os ditadores, responsáveis de genocídios, de corrupção criminosa de Estado, de comércio de droga...) e que levem a nível internacional ao afastamento de reconhecidos criminosos que se comportam como se fossem donos dos seus povos.

Sou contra uma "Fortaleza Europeia". Sou sim a favor de uma sociedade solidária que lute contra a exclusão social cá e lá fora. Eis a voz que os Povos devem fazer ouvir e respeitar. Eis a razão de ser da Fundação AMI, da sua operação Porta Amiga em Portugal e da minha própria vida. Não vejo outra saída para a nossa Aldeia Global.



DR FERNANDO DE LA VIETER NOBRE

Cirurgião Geral e Urologista
Fundador e Presidente da Fundação AMI-Assistência Médica Internacional