| Introdução: A integração dos refugiados através da educação |
Enquadramento do tema – definir serviços educativos para refugiados na Europa
"A educação é a chave para a integração" – afirmação proferida no Painel de Refugiados sobre a Educação, realizada em Dalfsen, em Julho de 1999. Este princípio não se aplica só a refugiados e a requerentes de asilo. A educação favorece a integração em qualquer sociedade e ajuda o ser humano a tornar-se um membro da sociedade mais construtivo e mais activo. Para viabilizar a educação, torna-se necessário, em primeiro lugar, satisfazer as necessidades básicas de habitação, saúde e alimentação. Com serviços adequados de educação e formação, as oportunidades de inserção no mercado de trabalho e do emprego de longa duração aumentarão consideravelmente.
A educação não deve ser um processo unilateral de ensino de competências e de regras a uma pessoa "desconhecedora", tendo como objectivo último a adaptação, mas antes um processo bilateral ao longo do qual os dois lados - o professor e o aluno, a sociedade de acolhimento e a comunidade refugiada – podem aprender reciprocamente. O conhecimento trazido pelos refugiados deveria ser usado para ampliar a diversidade da sociedade de acolhimento.
Durante o primeiro ano de pesquisa (1998), o RETAS procurou identificar o maior número possível de organizações com serviços de educação destinados a refugiados e requerentes de asilo nos 15 Estados-Membros da União Europeia. Foi utilizado um questionário para recolher a informação inicial. Esta pesquisa foi seguida de uma série de visitas de estudo com o fim de obter informação mais aprofundada e em primeira mão. Ao mesmo tempo, deu-se início a um processo extensivo de consultas a especialistas envolvidos na formação. Este processo de consultas incidiu sobre três questões: cursos de línguas para refugiados adultos, crianças refugiadas e interculturalismo e o acesso dos refugiados ao ensino superior (nomeadamente, o reconhecimento das qualificações estrangeiras). Estes tópicos foram tratados numa reunião de especialistas em Londres (Junho de 1998) e numa conferência realizada em Antuérpia (Novembro de 1998) onde se debateu a educação para refugiados. Como resultado desses debates, foi decidido seleccionar duas questões: os cursos de línguas para adultos e a integração das crianças e dos jovens nas escolas. Propusemo-nos, ainda, efectuar uma investigação detalhada sobre o trabalho realizado pela UNESCO e pelo Conselho da Europa sobre o reconhecimento de diplomas com vista ao prosseguimento dos estudos.
A informação e as recomendações contidas neste guia foram recolhidas através de encontros com especialistas e com refugiados dos Estados-Membros da UE. Da experiência adquirida no último ano, decidimos organizar grupos de trabalho mais pequenos, dado que estes se revelarem mais eficazes e mais fáceis de gerir. Neste sentido, os participantes puderam analisar as questões numa perspectiva regional. O primeiro encontro teve lugar em Madrid (Abril de 1999) com especialistas vindos de França, Itália, Grécia, Portugal e Espanha; o segundo realizou-se em Amsterdão (Maio de 1999) para a Bélgica, Dinamarca, Holanda, Finlândia e Suécia; e o terceiro foi em Berlim (Junho de 1999) com a participação da Áustria, Alemanha, Irlanda, Luxemburgo e Reino Unido. Para estas reuniões, o RETAS contou com o apoio organizativo do CEAR em Madrid, de Vluchtelingen Werk em Amsterdão e da Cruz Vermelha em Berlim.
As reuniões foram estruturadas em pequenos grupos de especialistas dos sectores público, privado e de organizações sem fins lucrativos. Os grupos analisaram a questão da integração das crianças e dos jovens na escola, os aspectos relacionados com os cursos de línguas para adultos e o problema do prosseguimento de estudos. O objectivo destes grupos era ouvir as diversas opiniões sobre o que é considerado uma boa prática ao nível nacional; em que medida essa boa prática é transferível para outros Estados; e procurar identificar um potencial padrão regional visando investigação futura e definição de estratégias.
Na última reunião consultiva, foi organizado um painel de refugiados em Dalfsen, na Holanda (1-2 de Julho de 1999). O painel da educação contava com 18 refugiados representando os 15 Estados-Membros. Este painel tinha como objectivo facilitar o intercâmbio de experiências e de opiniões sobre as questões educativas e recolher comentários acerca do trabalho efectuado nos encontros regionais de especialistas. Esta última fase de consultas garantiu que a voz dos refugiados fosse ouvida, com as suas experiências genuínas e anseios, que procuramos reflectir neste guia. No painel sobre a educação, os refugiados fizeram os seus comentários sobre as recomendações esboçadas, realçando as áreas que, segundo eles, é preciso melhorar, adicionando os seus pontos de vista, experiências e aspirações.
Este processo alargado de consultas enriqueceu o trabalho efectuado no terreno e permitiu-nos descobrir mais acerca dos sistemas nacionais, quais as estratégias que funcionam melhor para os refugiados nos diversos ambientes e quais os elementos de boa prática que podem ser transferidos entre os Estados-Membros. Isto também motivou redes de comunicação, troca de experiências e intercâmbio de boas práticas entre sectores ao nível europeu. Esperamos que este guia proporcione informação útil aos profissionais e aos decisores políticos e que venha a inspirar e a originar o desenvolvimento de políticas e de projectos futuros dedicados à educação para refugiados.
Este guia é composto por três partes. A primeira parte incide sobre a educação destinada a crianças e jovens refugiados nas escolas. A segunda parte centra-se nos cursos de línguas para adultos e no prosseguimento dos estudos. Ambas descrevem os serviços existentes nos diversos países da UE e os elementos de boas práticas referidos pelos especialistas. Por cada elemento de boa prática, foram seleccionados e descritos um ou mais projectos que possuem esse elemento. Por falta de espaço, estas descrições são breves e só é dado mais do que um exemplo caso se trate de um projecto de nível qualitativo particularmente elevado. Os dados acerca dos elementos de contacto de todos os projectos encontram-se no final do guia. Os comentários dos refugiados foram incluídos para realçar a necessidade de se tomarem determinadas medidas e para pôr em evidência certas vantagens ou desvantagens dos projectos. Os comentários foram seleccionados a partir das minutas dos grupos de trabalho do Painel de Refugiados sobre a Educação em Dalfsen e de uma série de entrevistas a refugiados no Reino Unido sobre a sua experiência de integração (efectuadas pelo RETAS durante a Primavera de 1999 para uma recolha das perspectivas dos refugiados). A terceira parte descreve os processos e procedimentos requeridos para reconhecimento das habilitações estrangeiras com vista ao prosseguimentos dos estudos e ao emprego. Esta secção concentra-se no trabalho desenvolvido pela UNESCO e pelo Conselho da Europa.
| SECÇÃO 1: Serviços Educativos para Crianças e Jovens |
Na maioria dos países europeus, as crianças refugiadas e as crianças requerentes de asilo têm o direito de frequentar o sistema geral de ensino. São excepções a Dinamarca e Portugal, onde as crianças requerentes de asilo não estão autorizadas a frequentar o sistema geral. Os jovens refugiados e os requerentes de asilo constituem um grupo diverso com uma vasta gama de necessidades educativas e sociais, referindo-se seguidamente alguns pontos comuns:
Não há dúvida que estas experiências exigem medidas especiais. Presentemente, existem diferentes abordagens das autoridades nacionais ou locais, das escolas ou outras entidades relacionadas com a educação nos países europeus. Uma característica que é semelhante em toda a Europa reside nas entidades "fornecedoras" – principalmente, escolas oficiais geridas pelas autoridades locais e nacionais dos serviços de educação. Presentemente, muito pouco está explorado por organizações não governamentais e pelo sector privado.
A título comparativo e devido ao seu sistema particular e único, alguns países requerem um enfoque especial. Na Alemanha, por exemplo, a educação é da responsabilidade do governo local de cada estado federal. Logo, os serviços educativos são diferentes de estado para estado, tornando-se difícil uma comparação, ao nível europeu, da Alemanha. Em termos gerais, há como uma larga linha divisória separando o nível da educação actualmente praticado para os refugiados. No Sul da Europa (Grécia, Itália, Espanha e Portugal) as condições são muito deficientes. Por consequência, nestes Estados, a grande prioridade vai mais para a consciencialização sobre estas questões do que para uma estratégia de comparação ou aproximação. No entanto, apesar destas discrepâncias, os especialistas de toda a Europa trabalharam conjuntamente, procurando definir os cinco tópicos mais significativos neste domínio e, para cada um desses tópicos, identificaram os elementos de boas práticas que são transferíveis.
A. Avaliação do Nível Educativo
O acolhimento e a orientação das crianças refugiadas e dos jovens é uma das etapas mais importantes do processo de integração nas actividades educativas. É essencial, não só para o aluno, mas também para a sua família ou tutores, que os docentes estejam munidos de uma informação inicial exacta sobre o aluno. Tanto o aluno como o tutor precisam de compreender o novo sistema educativo, bem como o que lhes será exigido ou se espera deles. O serviço educativo precisa de obter o máximo de informação possível acerca do aluno – a sua origem, língua(s), antecedentes educativos, saúde, estatuto de imigração e projectos futuros – a fim de que a sua colocação esteja em consonância com as suas necessidades e aptidões.
"Uma avaliação cuidadosa do nível educativo é essencial para a vida escolar do aluno. Os traumas, a educação antecedente, as lacunas e interrupções no ensino e o envolvimento dos pais/tutores, tudo deveria ser tido em consideração. Na Dinamarca, as crianças são colocadas em aulas por idades e não por níveis, criando assim problemas para as crianças refugiadas. Essa avaliação deveria ser feita, como acontece na Suécia e na Finlândia, consoante o aproveitamento e as habilitações." (Painel de Refugiados sobre a Educação)
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Desenvolve instrumentos específicos com os quais se avalia o aproveitamento anterior do aluno e procura estabelecer uma comparação com as exigências curriculares do país de acolhimento. Pensamos que é uma iniciativa útil e transferível. |
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Atingir o nível de cooperação exigido, fazendo funcionar a rede local entre os diversos organismos envolvidos dos sectores público, privado e sem fins lucrativos (que é a chave para o sucesso de um projecto como este) pode revelar-se um factor limitativo. |
Sistemas padronizados de avaliação
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Um sistema normalizado, registando informação básica a partir da primeira avaliação, seria de utilidade para a escola e para os professores das crianças. Esta medida foi considerada como de fácil implementação na Áustria, Alemanha, Irlanda e no Reino Unido. |
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O sistema, porque tem de ser padronizado e funcionar a nível nacional, exige o apoio de retaguarda do Ministério da Educação. |
"Um documento como o passaporte para a escola é mais susceptível de levar à competição e a maior discriminação do que à integração. Concordo que é útil o registo do aproveitamento e das habilitações como garante de continuidade da vida escolar. Em alguns países (como o Reino Unido) as crianças refugiadas não são facilmente identificadas nas escolas. Isto pode ser uma desvantagem, dado que as escolas recebem financiamentos extra para apoiarem as crianças refugiadas. O passaporte poderia ser útil como forma de assegurar que as escolas tomem conhecimento, aquando da sua inscrição, de que a criança é refugiada." (Painel de Refugiados sobre a Educação)
Estabelecimento de indicadores de referência no processo de avaliação
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O estabelecimento de normas aprovadas a nível nacional é tido como muito importante por quase todos os especialistas. No Reino Unido, Dinamarca e Holanda existe já um sistema de indicadores de referência para o processo de avaliação. |
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Nalguns países isto pode ser difícil de implementar porque os sistemas nacionais de educação são bastante inflexíveis e falta experiência e vontade política a quem toma as decisões. |
Comunicação interagências, apoio e ligação
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Esta iniciativa proporciona um modelo útil, mostrando como as entidades oficiais e as organizações sem fins lucrativos podem cooperar na satisfação das complexas necessidades dos requerentes de asilo recém-chegados. |
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Graças à introdução de contactos a nível superior, o executivo local pode desenvolver políticas e dar formação a partir dos diversos departamentos a fim de melhorar a competência e a sensibilização do seu pessoal de primeira linha. |
Apesar de existir esta colaboração interagências em muitos países, é preciso suprir as necessidades dos refugiados, o que está longe de constituir uma prática comum; há necessidade urgente de que essas iniciativas se desenvolvam em todos os países europeus.
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Este é um bom exemplo de uma iniciativa de uma escola na ligação com diferentes organizações de apoio a fim de ir ao encontro das necessidades destes alunos refugiados. O seu trabalho baseia-se no conhecimento acerca das diferentes necessidades e pode conseguir estabelecer parcerias e colaborações de um modo muito eficaz. |
"Os professores devem reconhecer que as crianças refugiadas necessitam mais do que um simples apoio linguístico. As crianças refugiadas podem estar afectadas por lacunas na educação, fraco domínio da língua e falta de serviços educativos de apoio."
(Refugiado no Reino Unido, Entrevistas a Refugiados)|
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A avaliação dos níveis educativos deveria considerar todas as competências linguísticas para se obter um quadro completo das aptidões linguísticas e cognitivas |
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Deveriam ser desenvolvidos e implementados em todo o país sistemas normalizados de avaliação visando criar um procedimento consistente; dado que estes alunos são frequentemente realojados e, consequentemente, têm que mudar de escola, é especialmente importante que haja uma abordagem devidamente coordenada. |
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As autoridades nacionais de educação devem concentrar-se na questão dos indicadores de referência; para garantir que os padrões são alcançados, têm de ser desenvolvidos critérios para o processo de avaliação. |
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Os especialistas dos países do Sul da Europa acham que os seus Ministérios da Educação deveriam agir urgentemente no sentido de se estabelecer uma abordagem coordenada de avaliação; é uma intervenção necessária para que os governos assumam os seus compromissos perante as crianças e os jovens refugiados e lhes proporcionem a educação apropriada a que têm direito. |
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Tendo em vista as diversas necessidades especiais das crianças e dos jovens refugiados, é essencial que seja estabelecida e apoiada a comunicação entre as instituições e serviços (entre os serviços de saúde, de assistência à educação, de apoio aos jovens, de apoio linguístico, apoio a necessidades específicas educativas e orientação profissional); esta ligação deveria ser iniciada e mantida pelas autoridades locais, bem como pelas próprias escolas. |
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