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Secção 2:
    Organização dos programas de formação profissional


O modo como os programas de formação profissional deveriam ser organizados dá azo a numerosos debates. Primeiro, a formação profissional aparece organizada segundo diferentes formas, parecendo que a abordagem integrada constitui a solução mais eficaz. Segundo, a especificidade dos problemas com que os refugiados se confrontam justifica a existência de programas específicos de formação profissional, mas esse aspecto não deveria contribuir para aumentar a sua marginalização, devendo ser envidados todos os esforços para, pouco a pouco, integrar os refugiados nos programas gerais de formação. Com esse fim, os programas específicos deveriam ser concebidos como pontes para o sistema geral.

No entanto, a população refugiada não é obviamente homogénea e alguns grupos específicos apresentam necessidades específicas e têm grandes dificuldades em integrar a formação geral.

 

A. Para uma abordagem global dos programas de formação profissional

A aprendizagem da língua do país de acolhimento é um aspecto primordial do processo de formação. O facto de não se falar fluentemente a língua do país representa, muitas vezes, o maior obstáculo para arranjar emprego ou frequentar um curso de formação profissional. Na maioria dos países europeus existem disposições específicas para o ensino da língua a refugiados, mas é preciso reduzir as longas listas de espera para admissão nas escolas de línguas e proporcionar aos refugiados os meios necessários para conseguirem estudar. A ausência de diferenciação nos métodos pedagógicos é frequentemente causadora da fraca motivação dos alunos. Desde o início, os cursos deveriam ser adaptados ao nível linguístico do aluno (critério de diferenciação); conforme o curso prossegue, a experiência profissional e os interesses pessoais do aluno deveriam ser tidos em conta (vocabulário técnico) de forma a que o aluno possa aprender rapidamente uma língua que também esteja adequada às exigências do mercado de trabalho.

Os cursos de língua técnica tendem a desenvolver-se cada vez mais por toda a Europa, o que dá aos refugiados mais hipóteses de seguirem programas de formação profissional.

Projecto Transnacional INTO,
Serviço Social para Estrangeiros, Ostende, Bélgica

No quadro do projecto transnacional INTO, esta ONG belga organiza cursos de holandês de cariz profissional.

Como muitos refugiados não poderiam seguir cursos técnicos devido a insuficiências linguísticas, a organização decidiu pôr em prática o ensino da língua holandesa virado para a área profissional.

Este curso tem como objectivo fazer uma introdução da terminologia profissional em seis sectores da economia: assistência em meio hospitalar e residências para idosos, limpeza industrial, trabalho dos metais, electricidade, soldadura e construção civil.



 

No final da acção, os participantes estão munidos de um conhecimento razoável da terminologia básica para ingressarem na formação profissional que previamente escolheram.

 

Programas integrados combinando formação técnica e formação linguística

Os programas integrados de formação são programas que vêem a pessoa numa perspectiva global e não isolam os aspectos linguísticos dos aspectos técnicos. Nesta perspectiva, um dos objectivos da organização irlandesa Interact Ireland é "demonstrar que o ensino do inglês em ligação com os aspectos profissionais é o modo mais rápido e eficaz de dar uma formação linguística de qualidade aos refugiados".

Esta abordagem integrada está patente em diversos projectos e tende a desenvolver-se na Europa. Constatámos que existem dois modelos diferentes de formação. O primeiro baseia-se na combinação do ensino da língua e formação profissional de um modo progressivo, ao passo que o segundo é um modelo baseado numa pedagogia alternativa.

Interact Ireland (ex- Refugee Language and Training Project) – Irlanda

O Interact Ireland desenvolveu um conceito que combina de forma progressiva a aprendizagem da língua e a aprendizagem profissional.

A integração toca diversas áreas que não podem ser tratadas separadamente. Neste sentido, o projecto Interact Ireland compreende uma estratégia de integração coerente.

O projecto inclui três níveis de formação:

  • Módulo 1: Módulo de introdução linguística.
  • Módulo 2: Curso intensivo de inglês (incluindo vocabulário técnico) e formação prática no sector de hotelaria. Alguns refugiados podem também iniciar o estágio profissional num nível mais elevado conforme a sua experiência profissional e as suas habilitações académicas.

  • Módulo 3: Os refugiados são integrados no sistema geral de formação profissional aberto a qualquer participante e, na melhor das hipóteses, arranjam um emprego.

A transição rumo à integração na cultura nacional baseia-se num processo evolutivo e construtivo conduzindo à integração plena.



 

Este modelo combinado, flexível e evolutivo, transmite-nos esperança e é muito promissor. Pode ser transferido para os outros países da Europa.

 

O estágio numa empresa faz parte integrante do programa.


Curso de língua e formação profissional, Oldenzaal - Holanda

Este programa teórico e prático é financiado pelo Fundo Social Europeu, Iniciativa Emprego. O grupo alvo (desempregados de longa duração, novos imigrantes e recém-chegados) recebe formação para melhorar o seu domínio da língua, em particular, a língua falada no trabalho, que lhe é muito necessária. Um outro objectivo é aumentar os conhecimentos sobre as exigências do mercado de trabalho holandês. Os participantes são cuidadosamente seleccionados, assim como as empresas e os tutores que os enquadram. Os conhecimentos adquiridos anteriormente, bem como as necessidades actuais e as possibilidades futuras de emprego são da maior importância para a escolha de um curso de formação.

Ao longo de três meses, os formandos alternam um dia de escola e um mínimo de 3 dias de estágio numa companhia.



 

Este projecto permite aos sectores mais excluídos da sociedade ter um contacto com as empresas e é transferível para toda a Europa.

 

Este tipo de prática contribui para sensibilizar as entidades empregadoras acerca das capacidades profissionais dos refugiados, o que representa um importante factor de integração.


Plataformas linguísticas e técnicas, Direcção Departamental do Trabalho, do Emprego e da Formação Profissional, Ministério do Emprego e da Solidariedade, Paris – França

Esta iniciativa, recente (com menos de dois anos) e inovadora, é dirigida a um público com baixo nível de qualificação. Os participantes são sobretudo migrantes e refugiados. O principal objectivo é, após a elaboração de um projecto profissional, a aquisição de um bom domínio da língua e, ao mesmo tempo, de competências técnicas para ingressarem no mercado de trabalho.



 

A principal inovação reside em alternar o ensino da língua com a formação técnica. Os alunos alternam a formação linguística e a formação técnica com o estágio numa empresa. Esta pedagogia alternativa é considerada como altamente motivadora pelos próprios participantes.

 

O apoio social é prestado por trabalhadores da área social que ajudam na resolução dos problemas periféricos que podem entravar o sucesso da formação.

 

É dada uma atenção especial à fase da orientação profissional com vista a definir cuidadosamente um projecto profissional viável para o indivíduo, sendo a agência nacional de emprego (ANPE) responsável por esta fase.


Serviço de Assistência Social do Município de Neuss- Alemanha

Este serviço governamental coordena um projecto de integração denominado "Integration Irakischer Flüchtling" a favor dos refugiados iraquianos (uma população que enfrentava uma elevada taxa de desemprego nesta região). Este projecto visa ajudar esta população a inserir-se no mercado de trabalho local. Num ano receberam formação dois grupos de refugiados iraquianos. Em cooperação com as instituições locais de ensino para adultos, o serviço de assistência social deu formação durante seis meses, a que se seguiram seis meses de estágio numa empresa local, provando ser uma boa maneira de melhorar as competências linguísticas dos estagiários. Ao longo do ano, os participantes puderam beneficiar de apoios à integração com serviços de aconselhamento e orientação.



 

O projecto prevê uma combinação de serviços de orientação, ensino da língua e formação prática numa empresa, preparando os participantes para prosseguirem a formação profissional ou para começarem a procurar emprego.

 

Este projecto de formação também envolve aspectos comunitários e culturais: os participantes e as suas famílias tomam parte em actividades regulares de lazer denominadas "intercâmbios culturais". As diferenças culturais entre o país de origem e o país de acolhimento são objecto de debate, podendo os participantes exprimir as suas dificuldades de adaptação a esse novo ambiente.

Recomendações

Os métodos de ensino da língua deveriam ser diferenciados, tendo em conta os interesses, a experiência e os projectos profissionais do formando, de forma a que possa aprender rapidamente um vocabulário que lhe seja útil no mercado de trabalho.

Os cursos de formação não deveriam tratar isoladamente os aspectos linguísticos e os aspectos técnicos; deveriam ser promovidos cursos de língua técnica.

Deveriam fomentar-se cursos integrados de formação, alternando ensino da língua, formação profissional, estágio numa empresa e apoio à procura de emprego.

É possível, até, ir mais além, combinando a formação técnica e linguística com um esforço mais global que vise a integração. Cursos práticos e teóricos, estágios nas empresas e ensino da língua, tudo tem de estar interligado. Esta abordagem integrada proporciona aos refugiados uma motivação renovada, reforçada pela combinação do trabalho com o estudo.

"Quando se entra numa empresa pode-se praticar a língua e conhecer pessoas, as mentalidades, é melhor do que ficar só sentado numa sala de aula. As duas coisas são úteis e é bom fazê-las as duas" (Painel de Refugiados sobre Formação Profissional)

Uma pedagogia de alternância, combinando estágios e instrução escolar, é tida como a forma mais eficaz de formação. Dá a possibilidade de se habituar ao sistema e de ter contacto com a população local.

Além disso, o objectivo da formação profissional não é em si mesmo a aquisição de conhecimentos, mas a preparação do formando para o mercado de trabalho. Após a conclusão do curso de formação profissional deve organizar-se o acompanhamento com o fim de ajudar o formando a fazer uso dos seus novos conhecimentos no mercado de trabalho.

O projecto a seguir é um bom exemplo de uma abordagem integrada e cuja eficácia foi comprovada em termos de inserção dos participantes no mercado de trabalho.

Verein Projekt INTEGRATIONSHAUS, Viena – Áustria

De Janeiro de 1996 a Junho de 1998 este projecto deu (da parte do Serviço Público de Emprego) a oportunidade a pessoas que falam alemão como uma segunda língua de participarem em cursos de orientação e formação profissional e de aprendizagem de técnicas de procura de emprego. No total, frequentaram estes cursos 138 pessoas de 28 países diferentes, possuindo os mais diversos antecedentes profissionais e académicos.

O programa foi concebido para satisfazer as necessidades dos participantes, de acordo com o seu nível. Existiam dois modelos:

  • Para os casos em que era necessária mais orientação no mercado de trabalho e de conhecimentos profissionais eram oferecidos cursos de orientação e formação profissional (Berufsorientierungskurse) com a duração de 18 semanas.
  • Nos casos dos que procuravam trabalho em áreas em que já tinham formação ou experiência, mas necessitavam de apoio para procurar emprego, frequentavam um curso de 12 semanas (Berufsfindungskurse).

O objectivo comum a estes dois modelos era levar os participantes a dar um passo decisivo no sentido da integração no mercado de trabalho, quer fosse através de mais formação profissional ou procurando emprego logo após o curso.

As aulas de língua alemã de 9 horas por semana coexistiam com o curso, excepto durante o período de estágio. O ensino da língua incidia sobre o vocabulário do quotidiano e, além do ensino básico da gramática, foi incorporada terminologia técnica para os grupos profissionais em causa.

Um outro aspecto positivo consistia no estágio de 6 semanas que permitia aos participantes reflectirem sobre a sua carreira futura e decidirem se a qualificação adquirida já era ou não suficiente. Havia ainda a vantagem de os familiarizar com a realidade do ambiente de trabalho.

O acompanhamento pós-formação também fazia parte do programa. Duas vezes por semana, os antigos formandos poderiam participar em acções de formação, tendo a oportunidade de aperfeiçoar as suas técnicas de procurar emprego. Além disso, os formadores prestavam aconselhamento individualizado.

(Para outros aspectos deste projecto, ver também o Guia sobre a Educação, Secção 1,B; o Guia sobre a Habitação, Secção 2, B e o Guia sobre o Emprego, Secção 2, C).



 

A avaliação mostra uma elevada taxa de integração laboral após a frequência dos cursos (71% dos participantes arranjaram emprego)

 

Este projecto é um programa de formação completo com uma abordagem global integrando as necessidades linguísticas, a formação profissional, aprendizagem de técnicas de procura de emprego e apoio pós-formação.

 

57% dos participantes eram mulheres, tendo sido dada atenção especial às suas necessidades específicas.

Recomendações

A combinação trabalho-estudo deveria ser um princípio de base na organização de toda a formação visando a integração económica dos refugiados.

Cursos práticos, teóricos e períodos de estágio em empresas, bem como os cursos de aprendizagem da língua, tudo deveria estar interligado.

Os programas de formação profissional deveriam incluir módulos de técnicas de procura de emprego, sobre como concorrer a um emprego e técnicas de entrevista. Concluído o curso, deveria ser sempre prestado apoio pós-formação, transformando a formação em inserção profissional.


 

B. Pontes entre medidas específicas e programas gerais de formação profissional

Continua em aberto a questão central de saber se os programas de formação profissional devem ser programas específicos ou se os refugiados devem ser integrados nos programas gerais. No debate havido durante o Painel de Refugiados sobre Formação Profissional em Dalfsen foram os próprios refugiados que exprimiram o desejo de "serem tratados como toda a gente e serem considerados, em primeiro lugar, como indivíduos e, em segundo lugar, como refugiados" (Uma mulher refugiada que vive em Londres)

Se bem que a especificidade das suas necessidades solicite programas de formação específicos (p.ex. cursos de língua técnica), tudo deve ser feito para que sejam integrados o mais cedo possível nos programas gerais.

Essas necessidades específicas estão particularmente presentes no início do processo de integração, durante o que se pode designar por um período de adaptação. É justamente durante esse período que devem ser criadas pontes que permitam aos refugiados passarem com êxito para os programas gerais.

"O nosso objectivo é permitir que os refugiados integrem os programas gerais de formação, respondendo às suas necessidades específicas desde o início do processo de integração, sem negar, no entanto, os seus problemas especiais, a sua experiência anterior e as suas necessidades de aprendizagem, de acordo com os seus antecedentes e as suas necessidades actuais. Ainda que a maioria dos refugiados não goste de ser individualizada enquanto grupo e rejeite os estigmas inerentes ao facto de pertencer a uma população refugiada, há necessidade de um período de adaptação". (Um representante da organização Interact Ireland).

As acções de formação específicas para refugiados serão portanto criadas/mantidas como pontes de acesso aos programas gerais nacionais e europeus. Essas pontes devem ser construídas através de programas de pré-formação profissional. O principal objectivo desta formação prévia é proporcionar aos formandos a aquisição de competências que lhes permita prosseguirem a formação, procurarem emprego e/ou relacionarem-se no local de trabalho.

A Interact Ireland tem também cursos de pré-formação profissional (Pre-vocational training) em parceria com a agência para os refugiados (Refugee Agency), o FAS (The Irish Training and Employment Authority), o centro de estudos de línguas e comunicação (Trinity College, Dublim), o projecto bósnio de desenvolvimento comunitário e o Conselho Irlandês para os Refugiados.

O objectivo deste projecto é promover a integração dos refugiados na sociedade irlandesa, dando aos participantes um apoio linguístico para admissão e conclusão dos cursos de pré-formação que lhes permite o acesso aos cursos gerais de formação e ao emprego num ambiente de expressão inglesa.

"Para a aprendizagem da língua são, geralmente, organizados cursos específicos para refugiados existindo, depois, cursos de pré-formação profissional para preparação para o ingresso nos cursos gerais. Graças a estes cursos preparatórios podemos adquirir os conhecimentos básicos em diferentes domínios e, depois, entrar num programa geral. Quando estava a fazer o curso de informática éramos apenas dois estrangeiros em 24 participantes." (Refugiado a viver na Irlanda que frequentou um curso pré-formação do Interact Ireland, Painel dos Refugiados sobre Formação Profissional)

O projecto foi concebido como um meio de planificação e de ministrar o ensino da língua claramente centrado na formação profissional e no acesso ao mercado de trabalho. Criou-se um módulo de 6 meses de pré-formação no Centro de Formação do FAS sob a orientação do Centro de Estudos de Línguas e Comunicação do Trinity College, Dublim. Este curso consiste numa introdução à informática integrando o ensino da língua inglesa e um estágio numa empresa. Estão também previstos módulos sobre técnicas de procurar emprego, tais como a redacção do Curriculum Vitae, técnicas de entrevista e apresentação de candidaturas.

Ao terminarem este curso preparatório, os participantes beneficiam de um apoio para identificarem a sua própria trajectória profissional e se candidatarem a cursos gerais de formação do FAS. 87% dos participantes na formação entre Março de 1997 e Março de 1998 estão agora empregados a tempo inteiro, frequentam cursos gerais ou aguardam a sua colocação em estágio.



 

Baseia-se numa abordagem global integrando formação linguística técnica, cursos básicos em diferentes matérias, orientação profissional e estágio em empresas.

 

Cada participante é encorajado a desenvolver as ferramentas de aprendizagem que lhe irão assegurar uma maior autonomia e aproveitamento em futuras aprendizagens.

 

Este modelo é transferível e não se limita um a determinado contexto nacional.


Construir uma ponte para imigrantes e refugiados adultos - Escola Real Dinamarquesa de Formação em cooperação com o Instituto Dinamarquês para Formação e Formadores, Dinamarca

Este projecto consiste na implementação de um curso que constitua uma ponte de ligação entre as escolas de línguas especificamente para estrangeiros e as escolas técnicas gerais. De facto, constitui uma grande mudança a passagem de uma escola de línguas de adultos para os institutos de formação técnica frequentados pelos jovens dinamarqueses.

Para preparar esta mudança, o projecto combina aconselhamento e ensino. O principal objectivo do curso é permitir que os participantes:

  1. se familiarizem com o ambiente das escolas de formação profissional e com várias possibilidades de formação.
  2. adquiram as competências profissionais básicas que lhes permitam integrar a formação profissional

Nesta fase de transição os alunos precisam não só de aprender um vocabulário técnico, mas também a língua falada no dia-a-dia, o que significa um trabalho bastante intensivo. Para isso, os professores das escolas de línguas e os professores das escolas profissionais têm de trabalhar em estreita colaboração.



 

Ao juntar pessoas com diferentes antecedentes e qualificações, é importante diferenciar o modo de ensino. Diferenciação dos métodos de ensino significa que as técnicas são individualizadas e que o aluno tem de aprender a trabalhar de modo mais independente. Isto é uma boa preparação para o etapa seguinte: a formação profissional propriamente dita.

 

Este tipo de cursos podiam ser integrados nos programas das escolas de línguas e baseiam-se numa colaboração estreita com os centros de formação profissional. Estas iniciativas representam um bom meio de evitar que se desperdice tempo e competências devido à falta de coerência e de coordenação entre as estruturas de formação.


Recomendações

Os programas de formação profissional específicos para refugiados deveriam ser encarados como meio de preparação para a sua integração nos programas gerais de formação.

Os refugiados deveriam ter acesso à formação geral logo que atinjam um nível de competência linguística suficiente na língua do país de acolhimento.

Deveria ser dada uma atenção especial a cursos de pré-formação destinados a fornecer as competências necessárias para prosseguir uma formação mais aprofundada, para procurar emprego e para se relacionar no local de trabalho.

 

C. Programas específicos para necessidades específicas

Para certos grupos mais específicos de pessoas com grandes dificuldades de integração, podem ser preferíveis programas específicos. Trata-se em particular das mulheres refugiadas para quem os constrangimentos tradicionais e/ou religiosos têm de ser tidos em consideração. As pessoas traumatizadas também se encontram numa situação em que podem necessitar de apoio específico, dado que se torna difícil a sua imediata integração em programas gerais. Infelizmente, há muitos exemplos ilustrativos em como as políticas gerais raramente beneficiam os sectores vulneráveis da população refugiada.

Acerca das necessidades específicas das mulheres refugiadas

Decidimos centrar a nossa atenção em acções dirigidas às mulheres refugiadas porque estas acumulam diversos factores de exclusão: como mulheres, já pertencem a um grupo socialmente mais vulnerável e, como mulheres refugiadas, transportam o peso de certos factores tradicionais e culturais, confrontando-se muitas vezes com discriminação e racismo no país de acolhimento. A educação e a formação profissional são pontos centrais das necessidades das mulheres refugiadas com importantes implicações no seu bem-estar pessoal e social no país de acolhimento. Por outro lado, as barreiras que conduzem à exclusão social das mulheres refugiadas são tão grandes que só podem ser ultrapassadas com uma vontade e determinação sólidas, a todos os níveis, para criar uma sociedade inclusiva e não exclusiva.

O World University Service (WUS), em Londres, presta especial atenção à formação das mulheres refugiadas e identifica as principais barreiras que enfrentam no acesso à formação. Entre as principais contam-se o não domínio da língua e o não reconhecimento das qualificações anteriores, mas sobretudo a falta de apoios adequados e acessíveis para guarda das crianças, bem como o isolamento e os problemas culturais relacionados como o papel da mulher na comunidade.

A falta de disposições quanto à guarda das crianças é um dos maiores obstáculos no acesso das mulheres refugiadas aos programas de formação. "É muito difícil para uma mulher com crianças estudar. Em Espanha é muito difícil conseguir quem fique com as crianças. Assim, as mulheres refugiadas têm de enfrentar barreiras culturais e de ordem prática."(Painel de Refugiados sobre Formação Profissional).

Uma das conclusões do Painel em Dalfsen realçava a necessidade de intervenção a favor de disposições sobre guarda das crianças.

Algumas ONGs têm procurado encontrar soluções para este grande problema, mas faltam-lhes os meios.

Para a Associação de Mulheres Refugiadas (Refugee Women Association - RWA), também em Londres, a guarda das crianças é uma questão imperativa em qualquer projecto ou formação. Isto tem consequências orçamentais directas, pois têm de ser previstos estes espectos na concepção dos programas de formação.

"Trata-se de um ponto que raramente é tido em conta pelos financiadores. As mulheres refugiadas não têm o apoio da sua família. Esta necessidade não é tida em conta no nosso sistema; as coisas têm de mudar." (Consultor da RWA - Conferência na North London University, Fevereiro de 1999)

Acrescente-se que a situação de isolamento de algumas mulheres refugiadas devido ao papel que desempenham no seio das suas comunidades, restringindo a sua participação na vida pública, tornam o seu acesso à informação e ao aconselhamento ainda mais difícil do que para os refugiados em geral.

No que se refere ao conteúdo dos programas de formação para mulheres refugiadas, o objectivo deveria ser ajudar as mulheres na transição das suas actividades tradicionais em direcção ao mercado de trabalho, tendo em conta e valorizando os seus conhecimentos tradicionais. Isto não significa que as mulheres se dediquem apenas à cozinha, à costura ou a tomar conta de crianças, mas que as suas actividades tradicionais possam ser usadas como trampolim para a integração. Isto aplica-se especialmente às mulheres com pouca instrução.

 

ROAP (The Refugee Outreach Project), World University Service, Londres – Reino Unido

O ROAP pretende dar resposta às necessidades específicas em orientação e informação das mulheres refugiadas e dos refugiados incapacitados, proporcionando-lhes um serviço especializado de aconselhamento em matéria de formação, ensino, imigração e assistência social.

Um profissional de aconselhamento do RETAS desloca-se aos domicílios e/ou às organizações comunitárias de refugiados.



 

Graças a este projecto, o RETAS faz chegar os seus serviços aos refugiados que se encontram isolados ou que não têm acesso fácil à orientação e informação que necessitam.


Formação destinada a pessoal auxiliar de infância

Refugee Womens’ Association, em colaboração com o Colégio da Comunidade de Hackney, Londres - Reino Unido

Este projecto (financiado pelo FSE, Objectivo 2 e pelo London Borough) tem como objectivo permitir que as mulheres refugiadas residentes em Hackney tenham acesso ao mercado de trabalho relacionado com a assistência à infância. O projecto teve início em Setembro de 1998 e termina em Dezembro de 1999. Esta formação é reconhecida pela Pre-School Learning Alliance.



 

Os conteúdos do curso são bastante alargados, integrando apoio linguístico, apoio à criança, estágio em empresas (escolas, creches...), elaboração de portfolio e preparação para entrevistas. Concluída a formação, o aluno recebe um certificado reconhecido a nível nacional (qualificação NVQ2).

 

Um elemento importante consiste no subsídio às despesas de transporte e de guarda das crianças. Foi estabelecida uma rede de entidades empregadoras para o período de estágio.


Integração económica das mulheres refugiadas em cinco sectores de actividade, France Terre d’Asile - França

O principal objectivo deste projecto (financiado pela linha orçamental B3-4113 da UE) é promover a integração das mulheres refugiadas através de programas específicos de formação profissional e de orientação individual para os programas gerais de formação, sempre que possível. Procura ajudá-las a arranjar emprego na zona onde vivem para evitar a deslocação da família e assegurar a sua integração ao nível local.

Foram escolhidas cinco áreas de formação com base nas oportunidades de emprego que o mercado de trabalho francês oferecia. Foram seleccionadas cerca de 100 mulheres. Os critérios de selecção basearam-se no domínio da língua e na condição social (desempregadas de longo prazo e/ou beneficiárias do rendimento mínimo garantido (RMI)).

A formação escolar em conjunto com a prática em estágio foi possível em Serviços Sociais e de Saúde, Limpeza Industrial, Costura e Vendas. De acordo com as leis existentes que proíbem o acesso das mulheres requerentes à formação e ao emprego, o projecto envolveu refugiadas reconhecidas e não requerentes de asilo. O programa de formação foi desenvolvido em cooperação com centros de formação profissional onde as aulas eram dadas. A duração da formação variava de acordo com a política seguida pelas escolas ou pelos centros de formação.



 

Graças a este projecto deu-se início a uma colaboração estreita com os vários centros de formação.

 

O apoio social às mulheres estava previsto no programa, incluindo a guarda das crianças, transporte e problemas de alojamento.

 

A ONG francesa fez tudo para beneficiar dos vários apoios financeiros do sector geral a favor das pessoas socialmente excluídas. Este pesado trabalho administrativo foi facilitado pela boa colaboração da Agência Nacional de Emprego (ANPE). Graças ao co-financiamento, a organização triplicou o número de horas de formação e garantiu a remuneração do estágio (o que aumenta significativamente a motivação dos participantes versus programas sem remuneração).


Projecto "Susret Encounter", Artistas e Refugiadas Bósnias – Áustria

Este projecto consistia numa formação de doze meses a mulheres refugiadas bósnias no sector têxtil. A descrição deste projecto, que integra de forma original e interessante a formação, a arte e o acesso ao emprego, é efectuada no Guia sobre a Saúde e no Guia sobre a Integração Sócio-Cultural. No entanto, gostaríamos de o mencionar como uma boa prática em formação profissional, pois combina os conhecimentos tradicionais das mulheres refugiados com os artísticos. Além disso, as formandas não tinham autorização de trabalho e, graças à firme intervenção do coordenador do projecto, junto das autoridades austríacas, receberam autorização de trabalho no final do projecto.



Integração sócio-económica dos refugiados com estatuto humanitário na Grécia, Conselho Grego para os Refugiados - Grécia

Parte deste projecto foi consagrado à formação de mulheres refugiadas na área da costura. Este sector foi seleccionado por se tratar de uma área com procura e que também pode ser atractiva para as mulheres que desejam trabalhar em casa. Por razões culturais ou devido a uma total falta de auto-confiança, as mulheres refugiadas exprimem, frequentemente, o desejo de terem uma actividade remunerada sem trabalhar fora de casa.



 

O projecto previa a possibilidade dos estagiários conseguirem uma bolsa para compra de material profissional de forma a iniciarem a sua própria actividade comercial (p.ex: a compra de uma máquina de costura).

 

Este tipo de iniciativa deveria basear-se numa avaliação individual e aprofundada e ser completada com uma formação para criação do próprio emprego.


Recomendações

Deveria ser dada uma atenção especial às necessidades de formação das mulheres refugiadas.

Toda a formação destinada a mulheres deveria prever as disposições necessárias para guarda das crianças.

 

 

Necessidades de formação específicas dos refugiados incapacitados

Os refugiados incapacitados sofrem de isolamento. Além das barreiras que se levantam à integração de qualquer refugiado e das dificuldades dos incapacitados no acesso aos serviços públicos, estes refugiados encontram-se num novo ambiente cultural com uma diferente sensibilidade cultural quanto à incapacidade. Muitas vezes já perderam o apoio das suas famílias e sentem-se mais do que nunca como um fardo para a sua comunidade que já luta pela sua aceitação no país de acolhimento. O acesso à informação e à orientação é um problema real. Parece que não se reconhece a necessidade de disposições específicas, já que muito poucos projectos de formação têm como alvo a população refugiada incapacitada.

No entanto, algumas organizações, conscientes das suas necessidades, procuram melhorar a formação a favor dos refugiados incapacitados. É o que acontece na Dinamarca


Integração de imigrantes e refugiados incapacitados,
Centro para o Desenvolvimento da Educação e da Formação de Migrantes e Refugiados (UVI) - Dinamarca

Nas escolas de línguas, os refugiados e imigrantes adultos aprendem a língua assim como aspectos sociais e culturais do sistema dinamarquês. Em ligação com as escolas de línguas, um conjunto de professores especialmente treinado dá orientação profissional e pedagógica aos participantes. Foram desenvolvidos materiais pedagógicos multimédia combinando texto, imagem e som que são usados como método de ensino interactivo. O aspecto inovador do projecto reside no uso de técnicas de ensino a incapacitados, trabalhando com eles no domínio da orientação e a sua combinação com técnicas de ensino a migrantes e refugiados.

Foram desenvolvidas linhas de orientação para colaboração entre os dois sistemas com vista a melhorar a qualidade dos serviços de formação e orientação para refugiados e imigrantes incapacitados. A UVI tem também cursos para professores e orientadores sobre como usar os métodos e os materiais no ensino a imigrantes e refugiados com diversas incapacidades. Além do financiamento nacional, o Centro para o Desenvolvimento da Educação para Adultos e Formação a Imigrantes e Refugiados é apoiado financeiramente por programas da UE - "Sócrates", "Leonardo da Vinci" e "Fundo Social Europeu".


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