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Secção 3:
    Melhorar a ligação entre a formação profissional e o emprego


Introdução

Dada a actual situação do mercado de trabalho, a formação profissional não é garantia de acesso ao emprego. Lamentavelmente, não existe uma relação directa entre formação e emprego, continuando muitos refugiados desempregados apesar de terem recebido formação profissional.

A situação crítica do mercado de trabalho está longe de ser a única explicação para a elevada taxa de desemprego entre a população refugiada. A discriminação, o racismo e o medo das diferenças culturais são elementos importantes para explicarem o desemprego dos refugiados. Mesmo com legislação anti-discriminatória não se consegue, muitas vezes, evitar que tais fenómenos surjam.

A questão é, portanto, saber como é que a formação profissional pode contribuir para se ultrapassarem as diversas barreiras que impedem o acesso dos refugiados ao mercado de trabalho e dar um verdadeiro passo no sentido da integração profissional.

Já sublinhámos a importância do estágio durante a formação profissional como forma de aumentar as hipóteses de integração profissional.

Um outro elemento importante é o envolvimento das entidades empregadoras e dos sindicatos na formação profissional dos refugiados com vista a melhorar a eficiência da formação em termos de emprego efectivo.

A criação de empresas próprias pode também ser encarada como um meio de ultrapassar a discriminação e os obstáculos no acesso ao mercado de trabalho, mas isso significa a aquisição de conhecimentos e competências necessárias. Os programas de formação de apoio à criação de empresas têm de ser encarados como uma boa prática.

Uma outra forma é promover programas de formação profissional concebidos para valorizar ao máximo as competências específicas dos refugiados e que os reconheçam como um factor enriquecedor da sociedade de acolhimento.

Uma abordagem criativa na definição das áreas de formação pode contribuir para a integração dos refugiados em esferas alternativas da economia ou, até, mesmo contribuir para a sua autonomização.

 

A. Aumentar o envolvimento das entidades empregadoras e dos sindicatos na formação profissional

Os centros de formação e as ONGs envolvidas na formação profissional dirigida aos refugiados deveriam fazer o possível para melhorar o envolvimento das entidades empregadoras e dos sindicatos.

Esse envolvimento deveria começar imediatamente na primeira etapa, aquando da elaboração dos programas de formação. A falta de correlação entre formação e necessidades reais do mercado de trabalho é tida como uma das razões-chave da ineficácia em termos de emprego de muitos programas de formação profissional.

Assim, é importante envolver as entidades empregadoras no desenvolvimento dos programas de formação. Elas sabem melhor que ninguém quais as exigências do mercado de trabalho. Alguns centros de formação profissional trabalham em colaboração estreita com federações profissionais e algumas ONGs envolvidas em acções de formação mantêm-se em contacto com empresas.

Em França, como se menciona no Guia sobre o Emprego, com o exemplo das "Chartes d’insertion", a France Terre d’Asile empenhou-se no desenvolvimento de relações com empresas, potenciais empregadoras. Realizou-se um projecto piloto de formação em cooperação com uma das principais empresas de catering, a CFR (Centre Français de Restauration). Durante três meses, um grupo de refugiados recebeu formação prática da companhia em diversas funções. Isto permitiu-lhes adquirir experiência e uma carta de recomendação de uma empresa francesa. Este tipo de acção vai continuar a ser desenvolvido pela organização e combinado com programas de formação ministrados em centros de formação certificados. Estabelecer ligações específicas com as entidades empregadoras tem obviamente grande impacto em termos da sua sensibilização quanto aos problemas com que os refugiados se confrontam.

Da mesma maneira, os formadores dos programas de formação deveriam ser profissionais enviados pelas empresas. Na Grécia, a OAED (Agência Nacional de Emprego) tem um grupo de pessoas especialmente treinadas para as necessidades específicas dos refugiados. Eles dão o seu melhor, procurando satisfazer as expectativas dos refugiados.

Uma segunda etapa na cooperação com as entidades empregadoras consiste nos estágios integrados no esquema da formação. Se bem que todos concordem com a importância da experiência prática numa empresa como parte integrante da formação profissional, o problema é que nem sempre é fácil encontrar estágios para os refugiados, sendo-se muitas vezes confrontado com comportamentos racistas e discriminatórios.

"Mesmo encontrar um local para estágio pode ser por vezes muito difícil se o seu nome soar estranho" (Um refugiado que vive na Suécia, Painel de Refugiados sobre Formação Profissional)

"Eles aceitaram receber-me para estágio porque trabalham com o centro de formação onde eu estudava mas, quando a gerente da loja viu que eu era negro, disse que, se soubesse isso antes, nunca teria aceitado"(uma mulher refugiada entrevistada em França)

Como mostra a citação acima, os contactos e as redes com as entidades empregadoras desenvolvidas pelos centros de emprego e pelas ONGs de apoio aos refugiados são uma boa maneira de ultrapassar este problema.

No Reino Unido, a colocação em estágio nas empresas é considerada um elemento crucial da formação: combate o problema dos refugiados não possuírem referências e dá-lhes também a hipótese de provar as suas capacidades e de aumentar a sua confiança. Em geral, existe a necessidade de promover as potencialidades dos refugiados para aumentar a consciencialização pública.

A Secção de Emprego e Formação (TES) do Conselho Britânico para os Refugiados dá formação para adultos em diversos sectores, sendo financiada pelo governo e apoiada pelo Fundo Social Europeu. Todos os programas de formação prevêem a experiência prática de trabalho numa empresa.

Recomendações

Para que a formação conduza efectivamente ao emprego, é necessário reforçar o envolvimento das empresas privadas e concentrar esforços na identificação dos sectores da economia que correspondem às necessidades reais do mercado de trabalho.

O desenvolvimento de parcerias com as empresas deve ser encorajado pelo contributo prestado na avaliação das necessidades presentes e futuras do mercado de trabalho. As empresas devem ser envolvidas desde o momento da concepção dos programas de formação e devem proporcionar aos refugiados a oportunidade de efectuarem estágios.

Além disso, os próprios formadores têm um papel chave a desempenhar na defesa dos interesses refugiados e deveriam considerar-se como mediadores em termos de emprego.

 

Projecto SAM-SAM, CLP, Paris – França

O SAM-SAM é um projecto transnacional e é financiado pelo INTEGRA. Tem como propósito acções de mediação para o emprego. O projecto é coordenado pela organização francesa CLP (Comité de Liaison pour la Promotion des Migrants et Publics en Difficultés d’Insertion). Estão também envolvidos no projecto parceiros holandeses, espanhóis e irlandeses.

O objectivo deste projecto é levar os formadores a adoptarem uma abordagem diferente com as empresas e a desenvolverem uma acção de mediadores junto das entidades empregadoras.

Este papel de mediação do formador não se coloca só especificamente para o caso dos refugiados, mas quando se trabalha com pessoas com baixo nível de qualificação. No entanto, a discriminação latente em relação aos refugiados acentua a necessidade de promover este tipo de acção a favor dos mesmos.

Uma abordagem tradicional da formação considera os formandos sem ter em linha de conta a possibilidade de influenciar o ambiente à sua volta e, em especial, as entidades empregadoras. Trata-se de uma visão tradicional de formação que considera o simples facto de se dar formação a alguém como um resultado automático de acesso a emprego. Isso só acontece em teoria porque, na realidade, as coisas são bem diferentes. Há que exercer uma acção concreta sobre a oferta de trabalho.

O momento certo para exercer essa acção é quando os formandos se encontram no posto de trabalho. Ora, normalmente, o papel do formador é acompanhar o estagiário através de um controlo técnico, verificando a sua progressão e capacidade de integração. O conceito de mediação com o empregador implica ir para além deste papel tradicional.

Seguem-se duas formas de o fazer:

1. "A defesa perante o empregador" consiste em apoiar directamente o formando, influenciando positivamente o empregador. Esta defesa individual é de uma importância vital para ultrapassar certas barreiras relacionadas com a discriminação. No entanto, como nem sempre há lugares disponíveis nas empresas, o papel do formador poderia ser o de convencer o tutor a tornar-se conselheiro do formando, mesmo após o período de estágio. Assim, essa pessoa poderia usar a sua influência em benefício do estagiário.

A mediação junto das entidades empregadoras vai muito para além disto, traduzindo-se por uma evolução considerável na definição da profissão de formador.

2. Um papel de prospecção e de negociação junto do empregador. Além da sua presença na empresa em apoio ao estagiário, o objectivo aqui é que o formador actue tirando partido da sua visita. O papel do formador transforma-se no papel de negociador.

O formador procurará informações de natureza económica (p.ex.: acerca do sector de actividade da empresa), avaliará as perspectivas de emprego a fim de as explorar, antes que seja contactada a Agência Nacional de Emprego. Discutirá com a empresa a organização do trabalho e a descrição de funções. O objectivo é interceder a favor das pessoas com menos qualificação e lutar contra a tendência de sobreavaliar os requisitos para certos trabalhos.

Esta forma de actuação pode ser descrita como uma função inquiridora e comercial destinada a antecipar as necessidades. Os parceiros holandeses do projecto chamam ao mediador "JOBHUNTER" (caçador de empregos), designação bem ilustrativa do aspecto um tanto comercial deste papel.

Por outras palavras, o Mediador terá que ser capaz de pertencer a dois mundos, por um lado, ao mundo da formação e, por outro, ao mundo das empresas. (ver Guia sobre o Emprego, Secção 3A)



 

Uma abordagem inovadora da função do formador

 

Poderia ser implementada nos centros de formação de toda a Europa

Recomendações

Os centros de formação que trabalham com refugiados têm um papel a desempenhar no trabalho de sensibilização das entidades empregadoras. Deveriam ser activamente envolvidos na colocação em estágio dos refugiados.

Os formadores deveriam receber formação para que possam actuar como mediadores com vista ao emprego.

 

Quanto ao papel dos Sindicatos

Muito poucos sindicatos estão envolvidos em projectos de integração dos refugiados e isto é ainda mais verdade quando se tratam de programas de formação profissional. O envolvimento dos sindicatos neste domínio depende do contexto nacional e está relacionado com a organização do mercado de trabalho.

Em Itália e em Espanha, contudo, os sindicatos são particularmente activos na defesa dos interesses dos refugiados. O Conselho Britânico para os Refugiados dá-nos, no Guia de Boas Práticas sobre o Emprego, um panorama da situação nestes dois países e do envolvimento dos sindicatos nos programas de acção social. Por isso, iremos aqui centrar-nos no envolvimento dos sindicatos desses países no domínio específico da formação profissional para os refugiados.

UGT – Union General de Trabajadores, Departamento de Migrações – Espanha

O Departamento de Migrações deste sindicato espanhol conduz acções a favor da integração laboral dos migrantes e refugiados. De Dezembro de 1997 a Novembro de 1998, através do programa intitulado "Integração Sócio-profissional dos Refugiados Residentes na Região Autónoma de Aragão", este sindicato organizou acções de formação ocupacional e pré-laboral.

O projecto compreendia cursos de formação profissional de acordo com as necessidades do mercado de trabalho, assim como formação em técnicas de procura de emprego e, quando necessário, formação complementar centrada no ensino da língua e da cultura espanholas.

Após avaliação e orientação, alguns dos candidatos foram encaminhados para centros de formação mais especializada.



 

Este sindicato trabalha em colaboração com outras Organizações Não Governamentais que também actuam na área dos refugiados e com uma rede de centros de formação certificados.

 

Uma abordagem integrada combinando a aprendizagem da língua, a formação profissional e outros aspectos da integração, tais como habitação, saúde e questões jurídicas.


Confederacion Sindical de Comisiones Obreras (C.S.CC.OO) – Espanha

Este sindicato está envolvido na formação dirigida a imigrantes e refugiados. Ainda que o grupo alvo não seja especificamente de refugiados, mas sim de migrantes económicos, os refugiados podem beneficiar desses serviços. Mais, algumas das práticas usadas com os imigrantes no sentido de promover a sua integração sócio-profissional poderiam ser transferidas sem dificuldade para os refugiados.

Este sindicato oferece um vasto leque de serviços de formação:

  • ensino da língua
  • formação profissional em diversos sectores de actividade
  • programa de bolsas permitindo que os participantes frequentem cursos mais específicos e dispendiosos.
  • orientação individual em função das expectativas profissionais dos candidatos e da realidade do mercado de trabalho (oferta de empregos, sectores em crescimento)
  • cursos de mediação social para voluntários que trabalhem nos centros de informação para trabalhadores imigrantes (Centros de Informacion para los trabajadores migrantes- CITE)


 

Uma abordagem integrada abrangendo o apoio social e jurídico e o apoio à formação e ao emprego.

 

Certos programas dão prioridade às mulheres.


ENFAP – ABRUZZO - Itália

O Sindicato italiano ENFAP-ABRUZZO tem acções de formação dirigidas às necessidades dos imigrantes e minorias étnicas com vista à sua integração laboral. Este sindicato combina acções de formação e serviços de saúde e coopera com parceiros alemães e franceses.

Convém também aqui mencionar que, na Holanda, foi graças à mediação dos sindicatos que foram reconhecidas as qualificações atribuídas a refugiados e requerentes de asilo pela Fundação Wereldwijd, após um curso de formação profissional com a duração de seis meses.



 

Recomendações

Os sindicatos deveriam ser encorajados (possivelmente por ONGs de apoio a refugiados) a serem mais activos na formação profissional dos refugiados, propondo programas de formação e possibilidades de estágio


B. Formação profissional de apoio à criação do próprio emprego


"Há que ter diplomas franceses para se conseguir um emprego e ainda é preciso ter um nível muito bom de francês. Para mim, por causa disso, é impossível arranjar um verdadeiro trabalho. Oito anos após a minha chegada a França, chego à conclusão que a única solução que tenho é criar a minha própria empresa e estou a pensar abrir um restaurante." (Um refugiado entrevistado em França)

Criar o seu próprio emprego é muitas vezes o único meio de ultrapassar as múltiplas barreiras que impedem o acesso dos refugiados ao mercado de trabalho na Europa. Mas, iniciar um negócio exige capacidade e conhecimentos específicos que irão, em parte, condicionar o sucesso da empresa.

Por conseguinte, a formação é útil tanto para ajudar os empreendedores a iniciar o seu negócio, como ao longo da vida da empresa, ajudando-os a melhorar as suas capacidades de gestão.

"O fracasso dos artesãos que receberam formação é frequentemente atribuído à sua falta de conhecimentos de gestão e de marketing. Deste modo, os programas de formação profissional integram módulos de gestão de empresas, de marketing e, ainda, de cálculo que proporcionarão aos refugiados os meios necessários para que se lancem num projecto viável gerador de rendimentos logo que termine a formação". (Manual de Formação Profissional, Conselho Norueguês para os Refugiados, 1995 – Prefácio do ACNUR)

Descrevem-se seguidamente dois tipos de formação virada para a criação do próprio emprego: 1. Formação destinada a ajudar os refugiados a darem início à sua actividade cobrindo os aspectos jurídico-financeiros. Várias organizações não governamentais na Europa dispõem destes programas de formação. 2. Formação aos empresários logo que a empresa tenha arrancado nas áreas de contabilidade, gestão e planeamento.

 

LIA – Etnisch Ondernemen projekt, Anvers – Bélgica

A organização LIA pôs em prática um programa de formação com o "Centro Flamengo para a Formação Profissional dos Trabalhadores Independentes".

Este programa não foi especificamente concebido para refugiados. No entanto, 20% dos participantes são refugiados, principalmente de origem turca, marroquina e africana). O projecto trabalha com empresários já estabelecidos, dando-lhes formação gratuita e personalizada. Contabilidade, gestão, legislação, marketing, são algumas das matérias abordadas. (Ver Guia sobre o Emprego, Secção 4)



Recomendações

A formação destinada a apoiar os refugiados nos seus projectos empresariais deveria efectuar-se antes e após o início da actividade da empresa.


 

C. Os refugiados como factor enriquecedor para a sociedade de acolhimento

Os refugiados são geralmente criticados por serem um fardo económico e social, que vêm para os "países ricos" para se aproveitarem do sistema, ainda que muitas vezes se encontrem no país de acolhimento em pior situação económica do que no seu país de origem. Uma vez no país de acolhimento, as dificuldades que enfrentam fazem com que se sintam como se não tivessem tido uma outra vida; a sua experiência anterior, as suas competências e conhecimentos tradicionais raramente são levados em conta, o que é frustrante e motivo para o exílio se tornar ainda mais difícil de suportar.

Isto é de facto um desperdício. Os refugiados são portadores de uma série de qualificações e de capacidades para o mercado de trabalho que só podem ser aproveitadas pelo país de acolhimento quando eles tiverem oportunidade de integrar o mercado de trabalho. Estas competências deviam ser encaradas como um factor enriquecedor. Esta abordagem de integração serve os interesses do indivíduo, bem como os da sociedade de acolhimento.

É por esse motivo que optámos por mencionar aqui projectos de formação profissional baseados na valorização dos conhecimentos e das competências dos refugiados. Tais projectos podem também influenciar a modificar a imagem dos refugiados, olhando-os como um recurso e não como um fardo. Isto tem de ser considerado como uma forma de boa prática. É também um meio de promover uma abordagem multicultural nas sociedades europeias.

O leque de possibilidades é vasto: os programas de formação profissional para intérpretes podem ser, por exemplo, uma forma de dar aos refugiados a oportunidade de pôr em prática as suas competências linguísticas. Um projecto de formação para criação do próprio emprego na área de import/export é um outro exemplo. Procura-se tirar proveito da experiência pessoal dos refugiados e pode-se aumentar a sua capacidade de integração.

Curso de intérprete, Indvandrerprojekter – Dinamarca

Esta ONG dinamarquesa tem mais de 11 anos de experiência no domínio de cursos de interpretariado para refugiados. Graças a esta formação, muitos refugiados puderam tirar proveito das suas competências linguísticas.

Esta organização que actua na área da formação para refugiados e migrantes vem mencionada no Guia sobre o Emprego, Secção 4,A.



Projecto Culturenet, Drivbänken/SIBCO – Suécia

Este projecto é uma iniciativa do sector privado. A SIBCO é uma sociedade que dá assistência às empresas suecas que querem exportar os seus produtos para mercados estrangeiros.

O principal objectivo deste projecto é formar refugiados e migrantes com vista a criar um grupo de consultores profissionais que, individualmente ou em grupo, sejam geradores de rendimentos através das suas próprias empresas. Para esse fim, seis consultores em comércio internacional (não suecos) transmitem os seus conhecimentos, a sua experiência, bem como contactos comerciais que possuem do seu país de origem, aliados ao conhecimento adquirido na Suécia.

Os candidatos são seleccionados a partir de um grupo de imigrantes com instrução que se encontram desempregados.



 

Os conhecimentos culturais e da língua são considerados um valor acrescentado

 

Através da criação de empresas, os participantes vão gerar rendimento e, deste modo, criar uma imagem positiva dos migrantes como criadores de recursos em benefício de todos.

 

Trata-se de um programa muito selectivo, direccionado apenas para pessoas muito qualificadas.


"A cultura como meio de fomentar a integração e o emprego", African Corporation, Bruges, Bélgica

O principal objectivo deste projecto é lutar contra a exclusão dos refugiados, criando redes e desenvolvendo uma metodologia em que os elementos culturais sejam integrados num projecto económico com vista a promover um sentimento de orgulho pela sua própria cultura e, ao mesmo tempo, criar uma imagem positiva dos refugiados e gerar empregos de longa duração.

Primeiro, o projecto dava um curso de formação na cozinha de uma grande empresa. Depois, criou-se um serviço de catering com um menu internacional (world food) denominado BAOBAB, o qual criou muitos empregos de longa duração. (Ver o Guia sobre a Integração Sócio-Cultural, Secção 3, A acerca deste e outros projectos semelhantes)



 

Este projecto baseava-se na colaboração entre quatro organizações que trabalham com refugiados e/ou migrantes e uma empresa que aceitar dar formação aos refugiados. Este tipo de relação com as empresas deveria ser incrementado.

 

Trata-se de um projecto facilmente transferível para outros países da Europa, já que a ideia de "menu do mundo" está cada vez mais em voga.

Na Suécia, o município de Botkyrka esteve envolvido num projecto semelhante denominado "EU Kitchen", visando munir os refugiados das competências necessárias para formarem uma firma de catering e produzirem menus multiculturais. Devido a problemas financeiros o projecto foi interrompido após um ano, mas a organização está a procurar dar-lhe continuidade.

Recomendações

A experiência e as competências dos refugiados deveriam ser encaradas como um factor enriquecedor para o país de acolhimento. Os programas de formação profissional que seguem esta linha deviam ser apoiados. Estes programas deveriam ser vistos como um meio de influenciar a sociedade de acolhimento a ver os refugiados como um recurso e não mais como um fardo.


 

D. Para uma abordagem alternativa dos programas de formação profissional

Como um número imenso de cidadãos europeus não tem emprego, a hipótese de integração profissional dos refugiados vai de mal a pior.

"A formação funciona apenas para que os refugiados tenham acesso a empregos mal pagos, em áreas em que não possuem formação. Assim, o tempo e os recursos investidos em anos de formação profissional não têm sentido" (Coordenador do Projecto de Solartech, Centro Comunal de Educação para Adultos de Järfälla, Suécia)

Esta visão pessimista demonstra que é necessário que os promotores dos projectos pensem em novas áreas de actividade para formação dos refugidos, visando aproveitar o desenvolvimento de sectores alternativos nem sempre cobertos pelo sector tradicional da economia. É o caso, por exemplo, do sector do ambiente ou do turismo rural. Isto aplica-se também no domínio da mediação intercultural.

Projecto Pro-Badolato, CRIC. Calábria, Itália

Este projecto de desenvolvimento coordenado pela organização de desenvolvimento CRIC (Centro Regionale d’Intervento per la Coperazione) na região da Calábria é um bom exemplo de uma abordagem inovadora que associa formação, emprego e desenvolvimento cultural e comunitário.

Um grupo de refugiados curdos recebeu formação em trabalhos em metal, cerâmica e outras profissões de reabilitação, a fim de fazer reviver uma aldeia Bardolata na Calábria ameaçada de abandono. Outra parte do grupo de refugiados foi treinada para guias turísticos. O objectivo era desenvolver o turismo rural e integrar os refugiados curdos na sociedade italiana. (ver Guia sobre a Integração Sócio-Cultural, Secção 2, E)



 

O turismo alternativo é uma fonte de criação de emprego, tanto para os refugiados, como para os nacionais em muitos pontos da Europa.

 

Um projecto como este ajuda a criar uma imagem mais positiva dos refugiados curdos


Empregos verdes, Centro Cultural e Regional de Courcelles - Bélgica

Este projecto, apoiado financeiramente pelo programa INTEGRA é coordenado pelo Centro Cultural e Regional de Courcelles e dirige-se a desempregados de longa duração, procurando dar-lhes formação sobre novas actividades ligadas ao ambiente, tais como turismo ecológico, protecção ambiental, actividades culturais afins, etc.



Solartech, Formação da iniciativa do Centro Comunal de Educação para Adultos de Järfälla – Suécia

O objectivo deste projecto centra-se na criação de empresas próprias na área da energia solar, fotovoltaica e termal. A formação dirige-se a desempregados de longa duração de origem africana (não só refugiados, mas também migrantes). A essência desta abordagem no seu todo reside num programa de formação em tecnologias solares como base na aplicação dos conhecimentos adquiridos em iniciativas visando a auto-suficiência. (Ver o Guia sobre o Emprego, Secção 4, A)



 

Este projecto alia formação para criação de empresas a um programa de formação profissional fora das áreas tradicionais de actividade económica.

 

A área escolhida corresponde às necessidades existentes tanto para o país de acolhimento como para os países de origem

 

Fornece meios de integração na Suécia e de reintegração em África, no caso de regresso.

 

Este tipo de projecto é transferível para toda a Europa

 

Formação para mediação intercultural

É importante mencionar aqui o papel que a formação profissional pode desempenhar no que se refere à autonomização dos refugiados, desenvolvendo novas capacidades e habilitando-os para que, eles próprios, sejam mais activos na sua integração.

O desenvolvimento de cursos de serviços de mediação intercultural vai nesta direcção. A mediação intercultural é uma área nova e a formação contribui para elevar o estatuto profissional do mediador.

A formação a mediadores é essencial para que aprendam a trabalhar com profissionalismo, mas é também importante que essa formação seja oficialmente acreditada e reconhecida a nível nacional. As possibilidades de emprego têm vindo gradualmente a aumentar e a necessidade de mediação cultural tende a ser cada vez mais reconhecida.

Mas os mediadores são frequentemente confrontados com a falta de conhecimento dos serviços acerca do seu papel (hospitais, polícia, serviços sociais). Torna-se necessário, portanto, que os próprios fornecedores de serviços recebam formação ou sejam esclarecidos para melhor entenderem o papel do mediador.

 

Formação em mediação linguística e cultural – Centro de Formazione e Educazione allo Sviluppo (CIES), Roma – Itália

O projecto consiste na formação profissional para mediadores linguísticos e culturais, dirigida a um grupo de refugiados, destinados a serem intérpretes no domínio social, no seio das instituições públicas e nos centros de acolhimento. Isso contribui para facilitar o acesso e a utilização das instituições e das estruturas para refugiados, ajudando-os a ultrapassar as barreiras linguístico-culturais que normalmente sentem na comunicação com a administração e as instituições públicas.

A organização trabalhou durante 3 anos em estreita colaboração com as instituições na elaboração de um programa de formação provido de um profundo conhecimento das necessidades da população estrangeira no que se refere aos serviços administrativos.

O curso é bastante completo. Inclui uma parte teórica (100 horas) cobrindo os aspectos jurídicos (leis sobre a imigração e o asilo) e os aspectos sociais, bem como cursos de língua e interpretação.

Os mediadores trabalham em diversos sectores: serviços de saúde, segurança social, administração local e regional e estabelecimentos de ensino.



 

Os cursos são dados por representantes das administrações e instituições em causa (p.ex. polícia, autarquias)

 

Formar pessoas em mediação linguística e cultural tem um impacto positivo quer nos participantes, dando-lhes uma profissão, quer nos refugiados como um todo, favorecendo o seu acesso a certos serviços. Os mediadores, ao participarem na criação de uma imagem positiva dos refugiados, favorecem a integração dos refugiados. A necessidade desses serviços tende a ser cada vez mais reconhecida e esperamos que sejam treinados cada vez mais mediadores e que tenham emprego na Europa.

 

Muitos dos mediadores formadores têm contratos de curto prazo e trabalham cerca de 12 horas por semana, o que é insuficiente para viver.

 

Ainda há muito para fazer no sentido de convencer os serviços administrativos da necessidade de considerarem a mediação como uma verdadeira profissão.

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