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Capítulo 2:
     A INTEGRAÇÃO NO CONTEXTO EUROPEU


Os diversos Estados-Membros da UE implementam políticas e práticas diferentes no que se refere aos refugiados, não só em termos da variada duração dos processos de determinação do asilo, mas também no que se refere aos direitos sócio-económicos que são concedidos em níveis muito diferentes durante o período inicial e quando lhes é concedido o estatuto e a autorização de residência. Nesses direitos, que têm um impacto directo na sua sobrevivência diária e na qualidade de vida no país de acolhimento, incluem-se o direito ao trabalho, bem como o acesso a habitação adequada, à educação, formação profissional e serviços de saúde. Em alguns Estados-Membros da UE, os refugiados são objecto específico de políticas de integração e há programas patrocinados pelos governos, enquanto noutros prevalece uma atitude mais "laissez faire". Os refugiados também chegam a sociedades que possuem histórias e atitudes muito diferentes em relação à imigração e ao acolhimento. Certos países, até há pouco tempo, eram importantes fontes de emigração e não estavam habituados a receber imigrantes e refugiados. Alguns países defendem firmemente a sua singularidade cultural e histórica, se bem que a história do colonialismo e da imigração na Europa tenha contribuído para o desenvolvimento de uma nova perspectiva em relação aos estrangeiros nalguns sectores da sociedade europeia - uma perspectiva multicultural, aceitando a diversidade cultural como factor adicional de enriquecimento e de desenvolvimento da Europa.

É neste contexto, formado por diversos factores, que os refugiados têm de procurar adaptar-se à nova sociedade de acolhimento e que, obviamente, têm uma influência significativa na forma como perspectivam a sua integração, o que está patente nas entrevistas. Os parágrafos seguintes pretendem transmitir ao leitor uma sensação geral sobre essas diferenças que caracterizam os contextos em que ocorre a integração. Serão também explicadas alterações recentes nas políticas e nas práticas de alguns Estados-Membros que têm relevância directa no modo como alguns dos refugiados relataram a sua experiência. No entanto, para informações mais pormenorizadas e abrangentes acerca do contexto sócio-cultural da integração e a organização de programas e serviços específicos nos diferentes Estados-Membros, o leitor deve consultar o documento de trabalho do ECRE: "The State of Refugee Integration in the European Union", (Outubro de 1998); e a pesquisa efectuada pelos parceiros da task force sobre temas específicos (educação, emprego, formação profissional, habitação, saúde, integração sócio-cultural) disponível no website www.refugeenet.org.

Há diferenças significativas entre os países da UE com uma longa tradição de acolhimento de refugiados e os que têm uma experiência relativamente recente e com a memória ainda bem presente da emigração ou fuga dos seus próprios cidadãos. Os sistemas de protecção social também variam entre os bem desenvolvidos e baseados num extenso sector público e os que oferecem um apoio mínimo como suplemento do apoio tradicionalmente proporcionado pela família. O desenvolvimento de políticas coerentes e programas de integração governamentais apoiados por um estado providência nalguns países contrasta com outros, onde vigora uma abordagem mais ad hoc e um apoio financeiro mínimo visando suprir as necessidades dos refugiados. Por exemplo, nos países escandinavos e na Holanda, os refugiados reconhecidos são obrigados a participar nos programas de integração de duração fixa financiados pelo governo e administrados quer através dos municípios (que recebem compensações financeiras do governo central de acordo com o número de refugiados que recebem), quer através das ONGs. Esses programas baseiam-se, frequentemente, num princípio de dispersão dos refugiados pelo país através de um sistema de quotas em que os municípios cedem habitação social e oferecem acções de integração que incidem, em primeiro lugar, na aprendizagem da língua do país de acolhimento e, depois, no prosseguimento dos estudos e na formação profissional com vista ao acesso ao mercado de trabalho. Nos países do sul da Europa, as acções e serviços de integração são fornecidos muitas vezes pelas ONGs; mesmo quando recebem algum subsídio estatal, a maior parte das ONGs está a trabalhar com limitações derivadas de recursos insuficientes e na ausência de uma política patrocinada pelo Estado especificamente dirigida à integração dos refugiados. A não distinção entre refugiados e outros grupos socialmente excluídos ou o agrupar dos imigrantes e refugiados na prestação dos serviços, com efeitos na percepção pública, é uma característica dos países do sul da Europa que contrasta com as intervenções específicas existentes nos outros países da UE.

Na prática, todos estes factores emergem nas vivências dos refugiados entrevistados. Frequentemente, irão determinar a sua percepção de integração: para os refugiados no sul da Europa, na resposta à pergunta aberta, são as necessidades materiais que surgem como principal preocupação; ao passo que nos países onde essas necessidades estão satisfeitas e existem programas alargados, é a frustração e a desilusão em relação à qualidade do ensino da língua ou a adequabilidade e localização da habitação social que figuram como reacção inicial à pergunta acerca da integração. Muitos refugiados estão cientes das diferenças existentes entre os países da UE em termos da extensão e organização dos serviços que lhes estão destinados e estabelecem comparações entre a sua experiência e a dos seus amigos ou familiares que vivem noutros pontos da Europa. É interessante constatar que os seus problemas e frustrações decorrem, ambos, da falta de reconhecimento das suas necessidades específicas enquanto refugiados que, ou "os deixam e eles que se desenvencilhem", ou o extremo oposto, em que estão sujeitos a disposições e serviços específicos altamente organizados.

O direito ao trabalho e o acesso à educação e à formação profissional também variam consideravelmente nos diferentes Estados-Membros, assim como a disponibilidade de emprego e de cursos de formação. Os direitos diferentes concedidos aos requerentes de asilo e aos refugiados reconhecidos são importantes neste contexto, por negarem o direito ao trabalho aos requerentes de asilo (que é o que acontece em muitos países da UE, ainda que não em todos), e que as entrevistas revelam como tendo consequências significativas na integração. A opção pelo trabalho ilegal ou a luta pela sobrevivência nos países do sul da Europa não é uma opção necessária ou que pode ser tomada, por exemplo, na Dinamarca, Suécia, Holanda, Alemanha, porque nestes países o sistema de segurança social existe e não há mercado negro de trabalho. A passividade forçada durante o período de determinação do asilo, por não terem direito a trabalhar, surge em muitas entrevistas como uma frustração, em particular quando não existe um qualquer tipo de meio alternativo de ganhar a vida. O desemprego ou o sub-emprego também figuram nas narrativas de alguns entrevistados, mesmo se as condições e as oportunidades variam de país para país.

Os direitos e acesso a acções de integração, em particular a oportunidade de aprender a língua durante o período de determinação do estatuto, também são factores que variam de país para país. Relacionado com isto, e digno de ser tido em consideração, é o facto de muitos países da UE terem introduzido medidas de emergência ou temporárias para a recepção de refugiados da ex-Jugoslávia (e mais recentemente do Kosovo) que implicavam a suspensão do processo normal de determinação do asilo. Em muitos países, a não concessão de direitos aos beneficiários destes regimes de protecção temporária surge nas entrevistas como tendo um impacto duradouro e extremamente negativo no processo de integração daqueles a quem foi concedida autorização de permanência. É o caso da Dinamarca, em particular, com um grupo de 1700 bósnios a quem foi concedida protecção temporária. Durante os três anos que se seguiram não tiveram acesso aos procedimentos de asilo, nem tinham direito a trabalhar ou a aprender a língua dinamarquesa.

As limitações nos direitos e serviços também se aplicam a outras formas subsidiárias de protecção por toda a Europa: por exemplo, na Alemanha, os refugiados reconhecidos ao abrigo do artigo 16º da Constituição têm direito a medidas de integração disponíveis para migrantes e financiadas pelo governo federal, ao passo que as pessoas com formas subsidiárias de protecção ficam fora deste sistema e só podem frequentar aulas de alemão financiadas pelo governo em circunstâncias excepcionais. Se bem que as diferentes formas de estatuto de refugiados não conste como um dos critérios de amostragem (ver Capítulo 3), evidentemente que nem todos os refugiados entrevistados têm estatuto da Convenção e as suas experiências reflectem estas variações.

Os diferentes critérios para adquirir a nacionalidade e a cidadania também são uma questão que se reflecte nas entrevistas realizadas nos diferentes países. O período de residência exigido para que os refugiados possam pedir a cidadania varia, por exemplo, de 3 anos na Bélgica para se candidatarem a "naturalização ordinária" (direito ao voto sem direito a serem elegíveis) a 7 anos na Áustria. Também para a prova de uma determinada duração de residência contínua no país de acolhimento, os refugiados têm ainda de demonstrar uma integração bem sucedida, se bem que, mais uma vez, a ênfase e a qualidade da prova variem segundo o país de acolhimento. Em França, recomenda-se que os recém-chegados solicitem a nacionalidade francesa com vista a uma melhor integração, no entanto, isto não significa que, na prática, a nacionalidade seja fácil de obter: alguns dos entrevistados explicaram que não conseguiram demonstrar um domínio adequado do francês. Na Dinamarca, o preenchimento do programa obrigatório de integração está directamente relacionado com a concessão de autorização permanente de residência e, na Alemanha, também é exigida "prova" de integração. Na Holanda, é critério essencial um adequado domínio da língua. Tanto em Itália, onde o governo avalia as condições sócio-económicas da vida do requerente, como na Grécia, onde as decisões são tomadas pelo Ministro do Interior, após uma investigação sobre o carácter e a personalidade do estrangeiro, é extremamente rara a concessão efectiva da cidadania aos refugiados. O país de origem pode também ser um factor que funciona a favor dos refugiados, dependendo dos laços coloniais e históricos existentes com o país europeu onde se foi parar. Por exemplo, em Espanha, os refugiados da Convenção podem solicitar a cidadania após 5 anos, mas esse período reduz-se a 2 anos se forem originários da América do Sul ou da Guiné Equatorial. Muitos dos refugiados entrevistados, independentemente do país onde vivem, encaram a cidadania como uma pré-condição para a integração e a aspiração a poder votar e a ser membro da sociedade de pleno direito foi expressa com mais vigor nos países mais rigorosos e resistentes a políticas de concessão da cidadania. O período de tempo vivido no país antes de lhe ser reconhecido o estatuto de refugiado é aqui, também, um factor relevante, já que o período de residência começa a contar a partir do reconhecimento do estatuto e não do momento da chegada. Há que ter em mente estes factores variáveis para entender o pessimismo evidenciado pelos refugiados em certos países e, noutros, uma atitude mais optimista em relação às hipóteses de aquisição da cidadania.

O papel das ONGs e das organizações comunitárias de refugiados é um factor mais presente na vivência de certos refugiados do que na de outros, perspectivando-o de maneira positiva ou negativa. Em geral, existem conceitos diferentes do papel da sociedade civil e das ONGs nos diferentes Estados-Membros: as ONGs podem ser pouco mais do que uma extensão do aparelho de estado, servindo as suas actividades, sobretudo para preencher as lacunas dos serviços estatais, ou podem desenvolver um trabalho de pressão das autoridades. Para a integração, estas variantes do papel e tradição da sociedade civil têm diversas consequências. Nalguns países, as ONGs são os principais fornecedores e organizadores dos serviços de acolhimento e integração. Noutros, estão presentes, mas com uma capacidade limitada e são solicitadas a priorizar aqueles a quem podem dar assistência. Na Dinamarca, por exemplo, até 1999, o Conselho Dinamarquês para os Refugiados era responsável pela organização efectiva e pela prestação dos serviços de integração, com todas as despesas daí decorrentes cobertas pelo Ministério dos Assuntos Sociais, enquanto a Cruz Vermelha Dinamarquesa era financiada para prestar acolhimento e assistência durante o período de determinação do asilo. Num contexto como este, os refugiados deparam-se com ONGs a implementar as políticas governamentais e a prestar-lhes serviços no quadro dos programas de recepção e integração patrocinados pelo Estado. Isto pode afectar a forma como as percepcionam, bem como as suas expectativas em relação ao papel que elas desempenham e sobre o que é que deveriam estar a fazer. Noutros países, as ONGs não estão tão presentes na prestação de serviços de integração, constituindo para os refugiados apenas mais um dos muitos prestadores de serviços ou então, indirectamente, são conhecidas pelas suas acções de sensibilização e de pressão junto dos serviços públicos. Em Portugal, Itália e Grécia, na ausência de direito a assistência específica por parte do Estado, os refugiados contam quase exclusivamente com a assistência e as acções desenvolvidas pelas ONGs (financiadas parcialmente pelo ACNUR) e por outras organizações de beneficência. Os refugiados têm contacto directo e imediato com as ONGs, mas num contexto nem sempre favorável, devido à falta de recursos e à extrema necessidade das pessoas em causa que apenas a elas podem recorrer.

Uma outra variante refere-se ao grau em que os próprios refugiados são admitidos ou trabalham como voluntários nas ONGs e a existência de outras formas de participação e de representação dos refugiados na sociedade em geral. As Organizações Comunitárias de Refugiados não existem em todos os países da UE e, nalguns contextos europeus, são activamente desencorajadas. É o Reino Unido que tem uma tradição mais forte, incrementando e promovendo a prestação de serviços pelas organizações comunitárias a outros refugiados e o envolvimento dos refugiados na sua própria integração. Na Suécia, a integração dos refugiados baseia-se no pressuposto de que os refugiados se integram melhor através da criação das suas próprias associações. Estas são formadas tipicamente em termos étnicos e espera-se que os refugiados adquiram reconhecimento público, mais a partir destes grupos gerais do que de organizações específicas de refugiados. Em França, a formação de organizações de minorias étnicas, quer sejam de migrantes ou de refugiados, tem sido encarada como uma falência da integração. No entanto, reconhece-se cada vez mais as necessidades culturais ou religiosas específicas das comunidades estrangeiras e o papel de autonomização que as organizações comunitárias podem desempenhar na integração. Os refugiados nos países do sul da Europa estão geralmente menos organizados e têm pouco ou nenhum apoio ou acesso a financiamentos para formação das suas próprias associações. À parte das políticas e práticas governamentais e associadas a circunstâncias históricas e pessoais, a presença, em primeiro lugar, dos membros da família do refugiado ou da comunidade mais vasta proporciona muito do apoio e solidariedade necessários e pode revelar-se uma influência decisiva na integração, sendo isto, evidentemente, diferente de pessoa para pessoa e de país para país.


 

Capítulo 3:
     METODOLOGIA


Como já foi mencionado, a pesquisa efectuada sobre a perspectiva dos refugiados baseia-se em métodos qualitativos; isto implica que a pessoa entrevistada tenha a possibilidade de exprimir à sua maneira as suas opiniões e vivências. Na pesquisa social, é válida a utilização de métodos qualitativos porque fornecem muita informação e a análise não se baseia em números, mas sim em casos ilustrativos que revelam experiências, opiniões, atitudes, crenças e perspectivas particulares num contexto comum. Neste caso, o contexto comum é "ser refugiado na União Europeia".

O método qualitativo usado incluía entrevistas semi-estruturadas, envolvendo um guião de pesquisa (ver Anexo 2) estruturado por cientistas da área social encarregados da pesquisa, cobrindo vários aspectos relacionados com a integração. As questões giravam à volta dos temas da task force no que se refere à integração dos refugiados. No entanto, desde o início, a intenção era encorajar os refugiados a falarem acerca da integração e priorizarem os seus próprios sentimentos e experiências sem qualquer intervenção do entrevistador ou do guião. Assim, era colocada uma pergunta aberta inicial a todos os entrevistados como se usa no Método Interpretativo Biográfico (Rosenthal 1993, Breckner 1998). Segundo este método, o entrevistador interroga o entrevistado dando início à narrativa sobre o tema seleccionado, neste caso, a integração dos refugiados, da forma que lhe agradar, exprimindo pensamentos e sentimentos, assim como experiências como quiserem e sem qualquer intervenção ou incitamento por parte do entrevistador. Isto será gravado e, subsequentemente, transcrito. Neste estudo, em muitos casos, o material também teve que ser traduzido para inglês ou francês. Consequentemente, a análise tem em consideração os principais temas julgados importantes pelo entrevistado no seu depoimento, a linguagem utilizada (descrição, argumentação, avaliação, relatório), o tempo de duração dedicado a cada assunto, as emoções expressas, se as houver. Deste modo, a informação decorre da pessoa entrevistada de uma forma que o entrevistado talvez não pretendesse explicitamente (Rosenthal 1993, Chamberlayne, Rustin 1999). Como esta informação não podia ser inteiramente utilizada e aplicada neste estudo, a análise efectuada forneceu dados e informação útil sobre a forma como os refugiados vivem a integração. A pergunta não define ou questiona quais os aspectos positivos ou negativos da integração, o que iria orientá-los num determinado sentido, mas permite-lhes antes uma definição da questão da integração da maneira que quiserem. Alguns começaram a falar do tempo, outros a agradecer ao país de acolhimento por os terem recebido, outros a relatar os seus problemas imediatos. A este respeito, é importante registar que as pessoas constróem uma resposta, neste caso acerca da integração, em relação :

  • às suas características pessoais, antecedentes sociais, p.ex: personalidade, sexo, idade, educação, família, religião, cultura,
  • ao seu passado no país, p.ex: período de tempo, recepção inicial,
  • ao que as preocupa no momento da entrevista, p.ex: divórcio, desemprego, doença, habitação,
  • às condições que enfrentam no país que lhes ofereceu asilo

As grandes variações quanto aos antecedentes dos refugiados e aos diferentes contextos em que estão inseridos tornam difícil alcançar resultados estritamente comparáveis. Por esta razão, não é feita uma análise comparativa entre países, ou entre casos, constituindo a pergunta aberta de cada entrevista um caso ilustrativo das experiências que podem existir em muitos países europeus. Tal como foi definido na secção anterior, a política geral e os sistemas de segurança social dos 15 Estados-Membros, bem como os contextos históricos e sócio-económicos variam tão substancialmente que seria muito difícil qualquer tentativa de comparação. Apesar destas limitações, a narrativa inicial dos refugiados e a exposição sobre as suas vidas possuem muitos elementos comuns, permitindo que os investigadores detectem alguns temas e questões principais que surgem recorrentemente. Deste modo, o relatório vai para além de um simples relatar de histórias individuais sobre a integração e a adaptação dos refugiados nas sociedades de acolhimento da Europa, contemplando até um entendimento sobre os mecanismos de adaptação (Rustin 1998). Não houve tempo, nem este relatório seria o contexto correcto, para desenvolver uma análise teoricamente mais fundamentada ou elaborada sobre o valioso material recolhido com as entrevistas aos refugiados e, especificamente, com as respostas à pergunta aberta.

O uso de uma combinação de metodologias (Interpretativa Biográfica e semi-estruturada, mais tradicional) foi concebido para assegurar que fossem obtidas respostas adequadas para cada um dos sectores da task force para a Integração. Assim, após uma pergunta aberta inicial, os entrevistadores continuavam com perguntas abertas relativas à experiência do refugiado sobre os vários temas relacionados com a integração (emprego, educação, saúde, formação profissional, habitação, relações sócio-comunitárias), e ainda algumas perguntas adicionais relativas à sua experiência com ONGs, se isso não tivesse sido abordado, bem como sobre os projectos para o futuro.

Características dos entrevistadores

Entre os 16 entrevistadores estavam representadas 13 nacionalidades, metade homens e metade mulheres, tendo isto acontecido por acaso, de diferentes idades (predominantemente entre os 30 e os 40), religiões e origens. Entre os entrevistadores falavam-se 28 línguas diferentes. Cada entrevistador falava pelo menos 3 línguas e alguns conseguiam comunicar convenientemente em mais de 7. Todos dominavam o inglês ou francês e a língua do país de acolhimento, sendo estas habilitações linguísticas um critério significativo para a sua selecção original. Como já foi mencionado, os entrevistadores têm antecedentes completamente diferentes, mas todos possuem habilitações superiores, pelo menos, uma licenciatura no seu país de origem ou num outro país de estudo. Três dos entrevistadores não refugiados trabalham actualmente em ONGs de apoio aos refugiados e têm formação no domínio das ciências sociais e políticas. As áreas profissionais em que os 12 refugiados se formaram incluem desde a arquitectura, engenharia civil, medicina, jornalismo, sociologia, economia e contabilidade. As suas biografias mostram claramente as dificuldades que muitos refugiados enfrentam para conseguirem manter ou desenvolver a sua carreira profissional no país de acolhimento: apenas um dos refugiados estava a trabalhar na sua profissão original e havia o caso de um casal que conseguiu continuar a trabalhar numa base voluntária ou não oficial. As experiências de emprego no país de acolhimento dos restantes entrevistadores iam desde a construção civil e hotelaria (frequentemente em termos voluntários e/ou não qualificados), trabalho em ONGs de apoio aos refugiados, ensino da língua do país de acolhimento a outros refugiados, trabalhando como intérpretes/orientadores para os requerentes de asilo recém-chegados ou criando o seu próprio emprego através da gestão de organizações comunitárias de refugiados.

Formação

A pesquisa teve início com uma acção de formação dirigida pela Dra. Elizabeth Mestheneos e a Dra. Elisabeth Ioannidi em Bruxelas, de 30 de Abril a 2 de Maio de 1999. Quinze entrevistadores dos 14 Estados-Membros (a Suécia só aderiu ao projecto em Julho) estiveram presentes nessa acção de formação e trabalharam intensamente durante dois dias e meio, aprendendo a partir do zero o método de entrevista aberta. Nisso incluía-se saber como seleccionar os refugiados para a entrevista, como se apresentar como entrevistador, como conduzir a entrevista, como transcrever e resumir os resultados. Foi dada ênfase à metodologia usada, especialmente no que se refere à pergunta aberta, em que o entrevistador é solicitado a não comentar, concordar ou rejeitar ou a exprimir de qualquer outro modo os seus sentimentos perante as respostas que ouve. Isto era particularmente importante pois os refugiados possuem antecedentes políticos e religiosos muito diferentes, têm valores diferentes e era essencial que os entrevistadores reduzissem a sua influência ao mínimo. Evidentemente que isso não pode ser controlado, porém, o conteúdo das entrevistas efectuadas por vários entrevistadores mostra que a interferência destes últimos nas respostas foi mínima.

Uma outra questão realçada na sessão inicial foi a importância do anonimato. Os refugiados podem preocupar-se, e com razão, com a sua exposição junto das autoridades públicas, quer do país de acolhimento quer do seu país de origem. Foi-lhes dada a possibilidade de usarem um pseudónimo e recorreu-se a isso durante as entrevistas. Pediu-se aos entrevistadores que escrevessem as entrevistas, já que teriam de ser posteriormente transcritas para assegurar o rigor e detalhe completo do depoimento. Dado que os refugiados e entrevistadores iriam trabalhar em várias línguas que, subsequentemente, teriam de ser traduzidas parcial ou completamente, era sabido que a informação não estaria disponível na sua forma original. Os investigadores não poderiam ter acesso pleno às emoções expressas, ao ambiente da entrevista, aos comentários e reacções quando se desliga o gravador, etc.. Por isso, foi pedido aos entrevistadores que comentassem tudo isto para debate na sessão de encerramento.

A acção de formação foi conduzida principalmente em inglês, que todos percebiam, com alguma tradução em francês, quando necessário, para maior clareza. Foi solicitado aos entrevistadores que fizessem as entrevistas na língua em que eles e os entrevistados se sentissem mais à vontade. Contudo, a transcrição final tinha de ser traduzida para inglês ou francês com vista à sua análise.

Sessão de encerramento

De 30 de Junho a 1 de Julho de 1999, realizou-se uma sessão em Dalfsen na Holanda onde os entrevistadores puderam relatar as suas experiências na condução das entrevistas, realçar as dificuldades com que se depararam, explicar as circunstâncias em que entrevistaram as pessoas e fornecer outras informações complementares às gravações e transcrições que tinham enviado para análise. Esta informação foi gravada pelos cientistas da área social que deram a formação. Um entrevistador refugiado, com experiência como sociólogo, recrutado na Suécia participou nesta sessão como parte da sua formação.

As dificuldades enfrentadas pelos entrevistadores passaram sobretudo por encontrar refugiados que quisessem ser entrevistados. Exigiu muito tempo e paciência identificar e persuadir eventuais entrevistados a falar, especialmente devido à necessidade de gravar as entrevistas. Mesmo com a garantia do anonimato, muitos refugiados mostravam relutância, como é compreensível, em serem entrevistados com gravação; alguns ainda temiam as consequências da perseguição no seu país de origem e outros tinham relutância em exprimir pensamentos negativos acerca da sociedade de acolhimento com receio de serem vistos como estando a criticar quem lhes deu refúgio. Alguns grupos nacionais, como os somalis, mostraram-se particularmente relutantes em serem entrevistados e, dessa forma, correrem o risco de assumir uma imagem pública que, nos últimos meses, lhes vinha sendo atribuída como grupo pela imprensa de má qualidade nos seus países de acolhimento(em particular na Dinamarca e na Alemanha). Alguns entrevistadores também tiveram dificuldades em contactar mulheres, em particular mulheres domésticas com pouca instrução. Na acção de formação inicial, as entrevistadoras foram encorajadas a entrevistar mais pessoas do sexo feminino por se achar que isso iria contribuir para a devida representação das vozes das mulheres refugiadas.

Entre os comentários efectuados pelos entrevistadores regista-se:

  • foi muito difícil encontrar ou entrevistar mulheres refugiadas com pouca instrução. Mesmo quando aceitaram, os maridos estiveram presentes, por vezes, durante algum tempo na entrevista. Às vezes, as mulheres casadas pediam para que os maridos não tivessem conhecimento da entrevista.
  • os homens tendiam mais a generalizar, enquanto as mulheres pendiam mais para contar a sua história pessoal
  • os refugiados com menos instrução nem sempre estavam dispostos a falar com os entrevistadores mais instruídos e, além disso, não entendiam o objectivo ou o valor da pesquisa.
  • Havia a tendência para que os refugiados com mais habilitações respondessem globalmente em vez de falarem na sua experiência pessoal.
  • alguns refugiados aproveitaram a oportunidade da entrevista para criticar, pois sentem que esse é um meio de fazer chegar a sua voz às autoridades, embora no final da entrevista já parecessem muito mais positivos. Alguns pensavam claramente que esta era uma oportunidade para que as suas opiniões fossem ouvidas ao nível europeu.
  • outros refugiados eram muito bem-educados e responderam de modo muito formal e sem se envolverem.
  • os refugiados nem sempre tinham telefone, sendo, por isso, frequentemente muito difíceis de contactar.
  • alguns refugiados gostavam de conversar e faziam comentários interessantes, mas recusavam a sua gravação. Nestes poucos casos tomaram-se notas.
  • para alguns o gravador era inibidor e diziam coisas importantes quando estava desligado. Estas informações foram anotadas. O gravador também era muito difícil de usar quando a entrevista se fazia num contexto barulhento, por exemplo, com crianças, no café ...
  • por vezes, também foi difícil encontrar o local adequado para efectuar a entrevista, por exemplo, um quarto partilhado por muita gente.
  • outros refugiados estavam dispostos a fornecer pormenores identificativos do seu país de origem.
  • muitos refugiados mantinham-se duvidosos ou irónicos acerca da utilidade da pesquisa (um ponto que pode ser pertinente!)
  • a maioria dos refugiados entrevistados fizeram com que o entrevistador se sentisse confortável, exprimindo a sua satisfação pelo facto de terem uma oportunidade de falar com alguém acerca das suas experiências.
  • alguns ficavam ofendidos quando no fim da entrevista se oferecia um pequeno montante para as despesas, se bem que uma mulher refugiada ficasse contentíssima, pois era o primeiro dinheiro "ganho" inteiramente por ela. E, imediatamente, convidou o entrevistador, insistindo, para tomar um café numa pastelaria.
  • os entrevistadores comentaram o facto de terem sentido que houve um enriquecimento das suas próprias vidas com a reunião e por terem ouvido realmente pessoas de outras culturas e com outros antecedentes.
  • alguns refugiados rejeitaram o termo integração porque para eles significa assimilação.
  • os entrevistadores ficaram impressionados com a diferença de comportamentos de refugiados de culturas particulares; uma mulher entrevistadora africana viu o seu aperto de mão recusado por um outro homem africano, afirmando "os homens não apertam as mãos às mulheres".
  • por vezes, os entrevistadores tiveram de lidar com emoções fortes; uma entrevistadora disse que tinha chorado sempre nas entrevistas com mulheres refugiadas que também estavam a chorar. Um entrevistador relatou que se viu perante situações estranhas quando uma mulher chorou sempre toda a entrevista, enquanto noutra o refugiado ria.

Inevitavelmente, em certos contextos, a profissão do refugiado entrevistador levava a que pessoa entrevistada respondesse de uma determinada maneira; assim, um médico a entrevistar sobre a saúde recebia respostas mais elaboradas, p.ex.: acerca dos serviços e pessoal de saúde, ao passo que se não fosse médico, as respostas sobre a saúde eram construídas muitas vezes em relação à situação clínica pessoal. O modo como os entrevistados foram recrutados para as entrevistas também afectou as respostas; por vezes, os entrevistadores eram conhecidos como pertencendo a uma organização específica. Em resultado disso, em certos países há respostas mais elaboradas para uns assuntos do que para outros, por exemplo, sobre a educação no Reino Unido, sobre as ONGs e o envolvimento dos refugiados na Holanda, embora isto seja encarado mais como um contributo positivo do que um contributo nacional . No relatório, algumas questões inerentes à integração são fortemente exemplificadas a partir da ilustração de um país, ainda que possam generalizar-se em relação a outros.

Amostragem dos entrevistados

Foi solicitado aos entrevistadores para que assegurassem que na selecção da amostragem de 10 refugiados tivessem em consideração que deveriam incluir refugiados com as seguintes características:

  1. Sexo: masculino e feminino, embora não necessariamente 5 de cada
  2. Nacionalidade: a selecção devia ter em consideração a percentagem de refugiados originários dos diferentes países em cada Estado-Membro, devendo ser entrevistados mais refugiados do maior grupo nacional no país, se bem que os refugiados de outras nacionalidades também deveriam estar representados.
  3. Idades: 18-65
  4. Estatuto: situação jurídica que permita a permanência no país de acolhimento. Os termos variam entre os países da UE, mas incluem o estatuto da Convenção, estatuto humanitário, autorização extraordinária de residência, etc.
  5. Período de estadia no país de acolhimento: normalmente entre 2 a 10 anos após o reconhecimento do estatuto de refugiado.
  6. Educação: variável, do ensino superior até pessoas que possuem muito pouca ou nenhuma instrução
  7. Estado Civil: variável, nomeadamente solteiros, casados com ou sem crianças.
  8. Emprego: variável, nomeadamente empregados, desempregados, estudantes, reformados, etc.

Os entrevistadores tiveram dois meses para identificar os refugiados a entrevistar, marcar as entrevistas e entrevistar 10 pessoas, transcrever 2 entrevistas e resumir as 8 restantes no âmbito dos vários títulos relacionados com a integração, incluindo o material da pergunta aberta. Foi-lhes também pedido para destacarem nestes resumos citações dos entrevistados que achassem particularmente ilustrativas ou típicas das opiniões do indivíduo ou da situação, ou da situação dos refugiados em termos gerais num determinado Estado-Membro. Também isto teria que ser traduzido.

O trabalho no terreno foi levado a cabo entre Maio e o princípio de Julho, quando se realizou a sessão em Dalfsen, na Holanda. O caso da Suécia foi uma excepção, em que o entrevistador começou em Julho e terminou em Setembro, a tempo de se proceder à respectiva análise. Praticamente todas as entrevistas foram concluídas; mais de 140 entrevistas foram enviadas para serem analisadas pela equipa de pesquisa. Nem todas as entrevistas enviadas tinham a mesma qualidade, pois nalguns casos reproduziam o mesmo tipo de material e comentários, enquanto noutros casos a qualidade dependia da capacidade dos entrevistadores ou da disponibilidade do refugiado de falar livremente na entrevista. Não obstante, existe um grande número de entrevistas que permitiu uma análise extensiva e substantiva no quadro do método qualitativo utilizado.

Análise dos dados

Cada entrevistador era responsável pela transcrição de duas entrevistas. A primeira entrevista foi enviada à equipa de pesquisa para assegurar que os entrevistadores tinham compreendido os procedimentos e as técnicas de entrevista. Isso permitia que se fizesse observações de forma a que as 9 restantes seguissem o protocolo. Consequentemente, foi pedido ao entrevistador que transcrevesse a "melhor" entrevista de acordo com a descrição efectuada pela equipa de pesquisa. Os critérios para o fazer passavam pela sensação do entrevistador de que a entrevista proporcionava um descrição completa das vivências dos refugiados no país de acolhimento, que a pergunta aberta era rica em material e cobria muitos dos temas principais relacionados com a integração.

A transcrição envolvia a redacção da entrevista na língua original em que tinha sido efectuada, a tradução tão fiel quanto possível para inglês ou francês, garantindo que o significado das palavras fosse transmitido tão rigorosamente quanto possível. Nos casos em que o entrevistador fora ajudado por um tradutor era importante que trabalhassem em estreita colaboração para que houvesse a menor perda possível de significado. Todas as gravações foram enviadas para a equipa de pesquisa em Atenas. As transcrições foram usadas exaustivamente e, tanto quanto possível, sem intervenção no inglês usado, salvo quando isso ajudava a clarificar. Assim, apesar de algumas terem sido duplamente traduzidas a partir da língua usada na entrevista, p.ex: do árabe para italiano e depois para inglês, ainda se mantém as características e o estilo do discurso de cada indivíduo.

A análise dos dados e a redacção do relatório foram efectuadas pela Dra. Elizabeth Mestheneos e Dra. Elisabeth Ioannidi em Atenas, com a significativa ajuda e colaboração de Sara Gaunt da OCIV em Atenas e Bruxelas.


 

Capítulo 4:
    UMA HISTÓRIA DE INTEGRAÇÃO


Tal como já se explicou na secção anterior sobre a metodologia, a análise da pergunta aberta era importante para a pesquisa desde que os respondentes pudessem falar de forma não estruturada, sem qualquer intervenção sobre a sua experiência de integração no novo país de acolhimento. A única sugestão inicial na pergunta de abertura (ver Anexo) era lembrar ao entrevistado os assuntos inerentes à integração, nomeadamente habitação, emprego, formação profissional, educação, saúde e relações sociais. O formato aberto da pergunta permitia que o indivíduo arquitectasse a sua resposta da maneira que quisesse e, mais importante ainda, seleccionasse as áreas que julgue de especial interesse ou relevância. Na construção das respostas a esta pergunta tiveram influência cinco dimensões principais:

  • Primeira, a dimensão pessoal; as questões que importam ao indivíduo no momento da entrevista. Assim, uma pessoa que não consegue arranjar casa para viver ou que não consegue encontrar emprego, ou que recentemente fora sujeita a discriminação directa, pode decidir encetar a sua resposta no domínio do que mais recente e relevante lhe aconteceu.
  • Segunda, o indivíduo responde em função do contexto nacional; as políticas destinadas à integração dos refugiados, a dimensão e o apoio dos sistemas de segurança social, o número de refugiados e as instituições existentes para lhes dar assistência são significativamente diferentes entre os vários Estados-Membros.
  • Terceira, as dimensões nacional, cultural e educativa do país de origem do respondente também influenciam, o modo como constróem a resposta para esta pergunta. Assim, por exemplo, os refugiados com mais habilitações têm uma percepção diferente dos refugiados com menos instrução quanto à sua situação pessoal no que respeita a integração.
  • Quarta, as respostas são construídas em consonância com o modo como o indivíduo refugiado percepciona e deseja apresentar as características culturais e nacionais do país de acolhimento.
  • Quinta, mas de modo nenhum a última, as características e traços pessoais de cada indivíduo parecem ser muito importantes nas estratégias adoptadas por cada refugiado para lidar com a sua situação.

O leitor deve ter em conta que as dimensões acima mencionadas afectam a construção das respostas. Além disso, nestas entrevistas, a idade e o sexo também afectam as respostas dos indivíduos, como sempre acontece.

Neste capítulo apresenta-se uma "história" detalhada sobre integração tal como foi contada por um refugiado na Europa. Esta história não é representativa de todos os refugiados, mas é bastante característica por ser interessante e indicativa dos problemas que enfrentam e das estratégias que utilizam para procurar viver a contento na sociedade de acolhimento. Após o relato deste caso individual, são apresentadas de forma mais sucinta as questões e apresentações resultantes das respostas iniciais à pergunta aberta de todos os outros refugiados. No meio das respostas à pergunta inicial fazem-se muitas referências aos principais temas de integração, sendo estas apresentadas pormenorizadamente nos capítulos seguintes respectivos.

A análise da pergunta inicial oferece ao investigador descrições profundas sobre as experiências de integração. Respondendo à pergunta inicial, os refugiados definem as suas prioridades, seleccionando os tópicos e as experiências sobre os quais desejam falar. Nesta secção recorre-se a muitas citações para permitir que o leitor fique com algumas ideias nítidas sobre as reacções e experiências dos refugiados que vivem na União Europeia.

Como já anteriormente sugerido, alguns dos problemas que os refugiados enfrentam ao procurarem integrar-se nas sociedades de acolhimento, têm a ver com as razões iniciais da fuga, com o seu carácter, as suas expectativas e reacção ao país de acolhimento. Ora existem bastantes pontos comuns em algumas dessas experiências para que os países de acolhimento repensem as suas atitudes, conhecimentos e práticas no que respeita aos refugiados.

Procedimentos na análise de uma entrevista

Neste relatório só é referido um exemplo do tipo de questões e materiais que se podem descobrir através de uma análise cuidadosa do caso. O principal objectivo deste relatório não é chegar a um conhecimento teórico sobre as experiências de integração dos refugiados, mas dar ênfase às respostas dos refugiados sobre aspectos específicos da integração, p.ex: educação, emprego, habitação, etc. que serão abordados nos capítulos seguintes. No entanto, a riqueza do material e as experiências dos refugiados tendem a perder-se se apresentadas e classificadas segundo um título específico. Por isso, nesta secção apresenta-se de imediato um história viva de um refugiado em Itália. O seu caso não é único.

No modo como o texto é analisado recorre-se à seguinte terminologia:

  • Dados biográficos - isto implica seguir os eventos cronológicos da vida do entrevistado, independentemente da forma como essa pessoa os apresenta. Neste estudo, os dados biográficos são analisados apenas no que respeita aos acontecimentos após a primeira chegada à sociedade de acolhimento. Isto é manifestamente diferente do modo como o método interpretativo biográfico é normalmente usado, em que a biografia da pessoa é analisada desde o seu nascimento. Neste contexto de pesquisa, cada refugiado traz consigo uma pasta com a sua história familiar, a sua educação e as suas origens. Ainda a outro nível, cada um deles chega a uma nova sociedade, que geralmente não conhecem; chegam como requerentes de asilo e, na realidade, o seu passado só é usado como justificação para receberem o estatuto de refugiado. Porém, nos outros aspectos, terão que começar de novo - descobrir uma nova sociedade como se fossem novamente crianças. Obviamente, os mesmos dados biográficos no seu próprio país teriam conduzido a um percurso de vida muito diferente. É verdade que os elementos do passado, p.ex: qualificações, estatuto, família, colidem constantemente com a vida presente, afectando as suas reacções a uma nova vida no país de acolhimento.
  • Análise Temática - implica a leitura do texto de abertura em resposta à primeira pergunta e o extrair das principais questões, bem como o chamado tipo de texto (discurso) usado pelo entrevistado. Os principais tipos de texto (estilos de discurso) usados numa entrevista são os seguintes:

  • narração
  • argumentação
  • descrição
  • avaliação
  • relato

Os investigadores têm em consideração o discurso usado na pergunta inicial e procuram dar uma explicação sobre o porquê desse discurso para o tema escolhido, p.ex: uma pessoa pode decidir falar acerca de algo penoso sob a forma de relato em que os pormenores não são ditos, ou pode preferir uma forma argumentativa para qualquer coisa que considera ter de justificar ou explicar de modo abstracto ou teórico. Uma pergunta aberta sob a forma de narrativa está cheia de informação e normalmente contém muitas descrições. As descrições são usadas para acontecimentos ou temas que os indivíduos consideram importantes na sua vida e que sentem que de algum modo não devem esconder. Finalmente, a avaliação é usada negativa ou positivamente como forma de justificação das suas próprias acções ou das acções dos outros e para ilustrar situações. (Breckner, 1998)

  • A Estrutura do Caso implica o estudo dos investigadores sobre a maneira como as pessoas se apresentam a si próprias (a vida contada) durante a entrevista em relação à vida que viveram (biografia real). Neste estudo, os dados biográficos dizem respeito à sua vida desde a chegada à sociedade de acolhimento. Os investigadores irão procurar explicar porque é que a pessoa escolheu um determinado tipo de texto para apresentar um acontecimento específico ao entrevistador.
  • O tipo de análise final que normalmente seria usada para testar as hipóteses retiradas da narrativa original, a micro-análise, que procura a partir de uma pequena parcela do discurso que se analisa palavra por palavra, levanta aqui grandes dificuldades. As entrevistas originais foram conduzidas em línguas muito diferentes e o texto teve de ser traduzido antes de chegar aos técnicos em francês ou inglês. Um problema adicional é que a linguagem usada era, frequentemente, muito simples em virtude do refugiado nem sempre possuir um bom ou perfeito domínio da língua. Mesmo com habilitações elevadas, o leque de sentimentos, palavras, expressões que conseguem usar é limitado e a pausa não significa necessariamente emoção, mas simplesmente a procura do termo na língua estrangeira. Estes obstáculos limitam a utilidade da micro-análise.

O Caso de Ahmed

Elementos dos seus dados biográficos:

O Ahmed é originário da Argélia, tem 30 e poucos anos e concluiu a universidade no seu país de origem. A entrevista é conduzida em árabe.

1996

Chega a Itália com um visto de entrada; tem algum dinheiro e aluga um quarto.

1996

Visita o Reino Unido e a Irlanda, mas sem autorização de permanência.

1996

Regressa a Itália e pede asilo político. O dinheiro acaba e fica num centro de acolhimento para requerentes de asilo durante 3 semanas, indo depois viver com uma rapariga amiga que é imigrante.

1996

Começa a aprender italiano, trabalha irregularmente, traduzindo documentos e desempenhando outras tarefas.

1997

Recebe formação como electricista. Não arranja trabalho. É admitido num curso para fabrico de pizzas. Continua com o italiano. Agora já fala bem.

1997

Casa e muda-se para uma pequena cidade fora de Roma.

1997

Estuda Direito italiano. Continua a trabalhar no mercado negro.

1998

A mulher tem um bebé

 

Análise temática

O Ahmed responde à pergunta aberta argumentando sobre a sua situação. Culpa-se por ter escolhido um país onde não conhece ninguém e não fala a língua. Faz uma avaliação deste primeiro período como uma "vida difícil que não esperava" e continua falando de discriminação. Aqui, mais uma vez, argumenta acerca do tratamento dos estrangeiros em Itália e contrasta isso com o facto de ter sido turista noutros países e não ter tido problemas. Considera que o mau tratamento que lhe foi dado resulta de ignorância e não de discriminação. Argumenta que não tinha ninguém com quem partilhar os seus sentimentos e que isso se reflectiu em problemas de saúde. Continua a sua argumentação comparando o seu país com a Itália e admitindo que todos os países têm problemas. Depois, muda de assunto e fala acerca da integração, começando a argumentar com as dificuldades que giram à volta do emprego. Avalia o seu próprio comportamento no mercado de trabalho como sendo honesto, apesar das tentações e dificuldades para sobreviver por não ter emprego permanente. Termina esta parte sobre o emprego com uma declaração optimista de que as coisas podem sempre melhorar.

O assunto que escolhe a seguir diz respeito ao tempo em que vivia com a namorada, agora sua mulher, em que tinha de procurar trabalho dia a dia; descreve com narrativas simples (histórias) ocasiões diferentes em que teve trabalho. Depois argumenta que este problema não existe só para os refugiados e imigrantes, mas também para os italianos. Entra depois numa longa argumentação sobre a necessidade compreensível do governo proteger os italianos, mas de também atender às necessidades dos refugiados. Contrasta a sua situação com a de refugiados que estão ainda em pior situação e sente-se afortunado apesar de não ter rendimento fixo, o que o preocupa. Argumenta que, mesmo quando os patrões oferecem apenas um mês ou dois de trabalho, tem que se estar grato porque eles também têm os seus problemas; a raiva contra uma pessoa não soluciona os problemas do sistema na globalidade. Descreve a situação quando foi maltratado por um patrão, mas como essa foi a sua primeira oportunidade de emprego, não conseguiu ficar absolutamente zangado. Depois passa para outro assunto e fala da formação profissional; diz que a língua foi a primeira coisa que aprendeu e argumenta, depois, que os estrangeiros têm que dominar a língua muito bem e não apenas o calão de rua. Depois descreve os diferentes lugares onde aprendeu a língua, terminando com uma avaliação dessa altura como um bom período, pois teve a oportunidade de encontrar pessoas simpáticas e educadas. Continua com o tema da formação profissional com uma descrição do processo por que passou para conseguir formação em algo de que ele já possuía habilitação, mas cujas qualificações não eram reconhecidas. Ficou desapontado pois, mesmo após a acção de formação, não conseguiu trabalho. Teve formação para o fabrico de pizzas como forma de preencher o tempo. Conta que se inscreveu para diversos empregos, ia regularmente aos serviços, mas insiste que tem poucas esperanças em encontrar trabalho. Neste ponto termina a sua narrativa inicial.

Estrutura do caso

O Ahmed começa a sua narrativa estabelecendo uma diferenciação entre as diferentes fases por que passou após a chegada ao país de acolhimento. É interessante verificar que inicialmente se culpa a si próprio, em vez de culpar o governo por todos os problemas que teve na sua experiência de vida em Itália, uma característica que se mantém ao longo da narrativa inicial.

"Na primeira fase eu sentia que estava mais ou menos em falta por ter chegado a um país onde não conhecia ninguém e não sabia falar a língua; nessa altura eu nunca tinha imaginado deixar o meu país e vir viver para outro país e, quando aqui cheguei, estava inseguro; eu percebi que ainda não tinha tomado uma decisão de aqui ficar, ir para qualquer outro lugar, eu não sei. Nesse tempo era 50% também por minha culpa."

Uma interpretação pode ser a que ele sente que tinha alguma escolha p.ex. acerca de onde procurar asilo e que "o erro" de ter chegado a Itália era seu. Uma outra explicação é que tem um carácter que não deixa facilmente que os outros sejam responsabilizados pela sua própria situação, o que contrasta com muitos outros entrevistados que tendem a culpar os outros, p. ex: as autoridades, quer do seu próprio país quer da sociedade de acolhimento, as ONGs, mesmo quando é evidente que têm algumas responsabilidades.

Após algumas tentativas mal sucedidas de ir para outros países aceitou que tinha de ficar em Itália e começar a aprender a língua. Neste ponto virou-se para a questão da discriminação tentando explicar o que o magoa mais.

"Comecei a aprender esta língua que já dantes gostava e ainda gosto, mas o problema é que não estava à espera de uma vida tão difícil. Esperava que a imigração não fosse uma coisa fácil; eu sei que para ir para um país onde tu não conheces ninguém e ninguém te conhece, Ok.. mas a discriminação, a ignorância, eu chamo ignorância, eu não chamo racismo, porque para mim a ignorância é pior do que o racismo, o racismo é visível, é simplório, não se é o provinciano da mina, é isso. A ignorância que cataloga as pessoas, eles vêm que tu vens do Magreb, da Argélia, és como os outros. O facto de se catalogarem as pessoas é que me magoa."

Aqui temos um problema quanto ao termo que ele usa - "imigrante" em vez de refugiado. Ao utilizar este termo, isso sugere que identifica a sua situação como semelhante a qualquer imigrante; resta saber se isso é porque não quer ver-se a si próprio como um refugiado ou porque se quer identificar com um grupo mais vasto com quem partilha muitos pontos comuns. De facto, a partir dos seus dados biográficos, a identificação com a sua mulher da Europa de Leste, ela sim imigrante, pode ser uma explicação para a mudança de terminologia e identificação com os imigrantes. O ponto seguinte em discussão revela que foi objecto de discriminação - ou de ignorância- como ele lhe chama. Depois, passa para o argumento de que os argelinos não são todos iguais. Aqui retoma o tema "refugiado versus imigrante". No entanto, pode haver um outro argumento implícito, ou seja, a noção de que a categorização dos estrangeiros precisa de usar outros critérios além da origem. Em parte isto é confirmado pelas suas declarações posteriores em que compara a experiência como turista à experiência actual como refugiado;

Eu fui à América, fui a França, Alemanha, Espanha, Inglaterra, nunca vi coisas destas. Talvez porque não fui para lá viver, fui apenas como turista"

O facto de dizer que esta é a primeira vez que se sente discriminado reflecte a perda da casa, de estatuto social, bem como problemas objectivos por ter de viver durante muito tempo num novo país em contraste com a situação de visitante. Estas emoções causam-lhe problemas de saúde.

"Eu nunca tinha ouvido este nome: gastrite nervosa. Isto quer dizer que eu não tinha pessoas a quem pudesse confiar os meus sentimentos, não havia um lugar onde pudesse "desabafar". Depois, pouco a pouco, fui deixando tudo cá dentro, tudo cá dentro. E fiquei com gastrite nervosa ".

Indirectamente estas palavras denotam isolamento social, algo que ele viveu inconscientemente, por não conseguir encontrar ninguém com quem se identifique nem ter ninguém da família perto dele.

De novo, ao voltar ao tema da integração na vida e cultura de Itália, atira sobre si próprio a responsabilidade pela adaptação.

"Eu não digo que a Itália é um mau país, um bom país; como qualquer país tem qualidades e defeitos, diferentes culturas e, então, temos que nos adaptar. Eu não peço aos italianos para terem a mesma mentalidade que a minha; sou eu que tenho de aproximar a minha mentalidade à deles. Isto é uma regra, porque fui eu que vim para cá; cabe-me a mim procurar o modo através do qual consiga, não sei, como lhe chamamos, a integração".

Considera-se integrado porque ao longo destes anos em Itália aprendeu a distinguir entre aqueles que gostam de estrangeiros e os que não gostam.

"Agora, por exemplo, eu vejo logo que falo com uma pessoa, eu sei mais ou menos, mais ou menos, se essa pessoa está preparada para aceitar um estrangeiro ou não está preparada. Eu tive outras experiências porque, você sabe, eu não tinha aqui nem pai, nem mãe, nem um amigo, nem nada e então tive que me desenvencilhar sozinho."

A hipótese de que o isolamento social por que passou devido à perda da família e dos amigos foi da maior importância para ele confirma-se com as declarações acima. Abordou por si próprio também o problema da ignorância, fazendo uma classificação entre os italianos que aceitam os estrangeiros e aqueles que não aceitam. Todavia, mantém a perspectiva que a integração é da sua responsabilidade.

A narrativa sobre os italianos e as entidades empregadoras vai mudar para falar de si mesmo de um modo positivo. Declara que sente orgulho em si próprio pelo facto de durante todo este tempo em Itália não ter tido nenhum emprego desonesto. O seu sentido de honra e de responsabilização pessoal está de acordo com o modo como ele evita culpar "os outros" pela sua situação.

"...ganhar dez mil é melhor do que perder dez mil. Então, eu procurei de todas as maneiras. Dinheiro honesto, sim, graças a Deus, eu não entrei em "caminhos escuros" (vida desonesta), graças a Deus, isto significa que, graças a Itália, me foram dados a conhecer muitos caminhos errados. Eu não segui por esses caminhos. Agora, então, sentimo-me realmente bem, porque eu sentia-me mal, sim, é verdade eu sentia-me mal, também considerando o período desde que aqui cheguei há dois anos e oito meses; mas eu estou contente porque ninguém me pode dizer: "ora aqui está, você tem cadastro". Não tenho nada desse tipo graças a Deus. Hum...olhe, até agora, a única coisa que ainda me falta é um trabalho fixo, estável, porque hoje eu pago a renda, este mês pago a renda, no próximo mês, não sei. Isto é o que mais me aflige".

Apesar de repetir muitas vezes que se sente infeliz por não ter um trabalho estável e o futuro ser tão incerto, termina com uma declaração optimista:

"Eu tenho de me desenvencilhar, não a 100%, porque não estamos, sei lá, na selva; estamos numa sociedade onde há pessoas e pode ser que aquilo que eu não encontre hoje, venha a descobrir amanhã; há que ter esperança".

Novamente o isolamento que sente é apresentado obliquamente, declarando que vivendo em sociedade espera que, eventualmente, os outros o ajudem. Várias vezes durante o depoimento fala de imigrantes em vez de refugiados, mas certas vezes faz a distinção, explicando que a situação é pior para estes últimos.

Quando ele fala acerca do desemprego argumenta mais uma vez que a situação não é melhor para os italianos e, por isso, não se pode queixar da situação.

"...Eu vejo que o problema não é só para os imigrantes, é também para os italianos e, olhe, então, isto significa que todos têm problemas, tanto o italiano como o estrangeiro, também os refugiados. Então agora, no que se refere ao refugiado, olhe, por um lado, fico furioso, por outro, digo que isso é normal porque todos sabemos que a Itália é um país novato em termos de imigração e que dantes era de emigração. Eu não sei, eles começaram a receber, a fazer aquelas leis para a imigração ultimamente, isto é, há 10 ou 12 anos no máximo. Então, isto quer dizer que é preciso ter paciência, mas até quando?

Mais uma vez desculpa a Itália por não possuir políticas adequadas e protecção aos refugiados.

Um outro factor que o faz sentir melhor é a própria situação de outros refugiados que ainda é pior do que a sua.

"Eu tive sorte, encontrei uma casa; há outros refugiados que, quando olho para eles, fico com lágrimas nos olhos. Um refugiado político reconhecido dorme na rua, eu não sei, ele vai tornar-se um bêbado, um vagabundo, se isso se diz. Isto magoa-me porque não é culpa dele, há outras pessoas que me dizem que ele não é um refugiado típico; eu digo: "Mas não é culpa dele". A culpa é da Comissão, a culpa é de quem aplicou este estatuto. Isso é que é o problema, porque nós até podemos esperar pelo menos, eu não sei, um mínimo, um alojamento, um lugar onde dormir, onde descansar a cabeça numa almofada, isto é que é o problema. Por outro lado, olhe, eu acostumei-me, sim, eu adaptei-me, sim, mas até ter um rendimento fixo, um emprego estável, porque, também, olhe, é que o trabalho ilegal hoje é aqui, amanhã não é aqui".

Esta tendência de não culpar o país por todos os seus problemas repete-se, uma vez mais, quando fala acerca da sua primeira experiência de trabalho.

" eu também já trabalhei, a mim também já me mandaram embora, eu não fiz nada, porque eu só tinha que agradecer a esse patrão porque, pelo menos, deu-me trabalho durante um mês, dois meses; é melhor do que ficar na rua. Porque é que eu o iria denunciar depois? Ele também tinha os seus problemas; uma pessoa tem que ser aberta. Não é porque eu estou furioso com o sistema do país que tenho que descarregar a minha raiva em cima duma pessoa que me deu a mão".

A sua necessidade de apoio pessoal reflecte-se na ausência de raiva contra o primeiro patrão que, mesmo na eventualidade de agir ilegalmente contra ele, isso não é denunciado por lhe ter "estendido a mão", mais uma vez uma expressão que por si mesma reflecte a necessidade de contacto pessoal.

Quando fala acerca da formação profissional, menciona que foram os cursos de línguas a primeira formação que frequentou. Esclarece que para ele era essencial dominar bem a língua.

"Aprender não significa aprender a língua como um estrangeiro o faria, na rua; eu tenho de a falar correctamente porque, entre outras cosias, sou licenciado e, a fim de transmitir a minha experiência, tenho de falar a mesma língua e sobretudo a mesma linguagem que um licenciado fala normalmente aqui em Itália, isto é um certo tipo de vocabulário ... Então eu tenho de estudar".

Ele apresenta sempre aspectos positivos e, mesmo que tenha passado um mau bocado a aprender bem a língua, afirma:

"Também foram boas experiências, encontrei bons italianos, hum ...agora neste momento quando recordo aqueles tempos fico contente, eu tive sorte porque encontrei algumas pessoas simpáticas e educadas, é isso."

O tema de bons e maus italianos surge novamente com a sua identificação com os bons, simpáticos e educados.

Ao mudar o discurso para a formação profissional, ele observa que o preconceito dos italianos contra os estrangeiros em relação ao emprego impede o uso pleno dessa formação:

"mas qual é a necessidade de uma acção de formação, e eu sou licenciado, ter formação está certo, as minhas qualificações não são reconhecidas aqui em Itália. Tenho de frequentar um curso de formação. Eu faço o curso e depois dizem-me: "Desculpe, não tem emprego". Não, mas para que é que eu tenho de desperdiçar 3, 4, 6 meses."

Fala resumidamente da sua não aceitação num projecto do Ministério do Trabalho e da formação subsequente e corrente como mediador cultural. Para ele é evidente que, tal como muitos italianos, anda à procura de emprego em circunstâncias muito estranhas e inseguras e que as autoridades pouco ajudam:

"Esperar por eles para que me arranjem trabalho? Isso penso que não, penso que não, desde o princípio isso era mais ou menos evidente; tu participas no projecto, mas tens que fazer por ti".

Debate

O Ahmed viu-se, num espaço de tempo relativamente curto, perante uma nova vida. Na sua narrativa, a perda da família e do estatuto social aparecem como os dois eixos de peso. Apesar de nem sempre explícitos, parecem estruturar o relato da sua vida e são valores que deseja reproduzir na sua nova vida em Itália. A necessidade de os readquirir leva-o a adoptar estratégias de inclusão no seio da sociedade italiana; por outro lado, os seus códigos morais não lhe permitem trabalhar desonestamente. A sua determinação em se integrar está patente na narrativa quando apresenta os aspectos positivos de cada situação. Do que nos contou a seguir, ficámos a saber que casou com uma rapariga da Europa de Leste, sem dúvida uma trabalhadora migrante. Isso veio ajudar-nos, tendo em conta o uso flexível de termos como refugiado e estrangeiro/migrante; ao identificar-se com ela, não se vê só como um refugiado e isto pode ajudá-lo a adaptar-se mais facilmente à perda do seu estatuto. O casamento com uma italiana teria sido uma estratégia mais bem sucedida para inserção na sociedade italiana; não obstante, este casamento proporciona-lhe uma família, oferecendo-lhe segurança objectiva e emocional, algo que ele precisa, como mostra a narrativa aberta. Uma outra preocupação sua, o seu estatuto social, emerge na decisão de estudar o italiano das pessoas instruídas, em vez do italiano dos estrangeiros. As referências contínuas à falta de um emprego estável e de um futuro inseguro em termos financeiros explicam-se pela falta de mecanismos de apoio social que ele e a sua mulher sentem em Itália; isto contrasta com a situação da maior parte dos italianos que contam com a família para apoio económico e psicossocial. Uma hipótese é que o Ahmed tente melhorar a sua situação criando uma rede de amigos mais alargada e, em particular, procurando encontrar italianos que possam agir como mediadores com a sociedade e o ajudem a encontrar um trabalho melhor e satisfaçam a sua necessidade nítida de apoio social. Este caso é um exemplo de uma integração positiva em Itália em circunstâncias difíceis, onde o apoio aos refugiados é relativo e limitado.

A descrição acima sobre o caso do Ahmed mostra como uma narrativa inicial pode originar uma análise aprofundada, elucidando acerca do rumo da vida dos refugiados. Nenhum refugiado chega à Europa desprovido dos seus próprios valores, expectativas sociais e planos e a metodologia usada serve revelar aquilo que frequentemente não é notório, mesmo para o refugiado que está a ser entrevistado.

Temas Críticos sobre Integração

Seguindo a metodologia definida acima foram surgindo vários temas nas respostas iniciais de outros refugiados à pergunta aberta. Uma vez que esses temas surgem sem a orientação do entrevistador, podemos assumir que são significativos enquanto elementos estruturais da vida dos refugiados. O material decorrente da análise da pergunta aberta foi incorporado nos capítulos pertinentes elaborado com base nas questões que os refugiados consideram importantes, dado que a elas se referem nas suas narrativas iniciais.


 

Capítulo 5:
    A LÍNGUA E O ACOLHIMENTO INICIAL


O material transcrito nesta secção provém das respostas às perguntas abertas da entrevista por país, bem como das respostas específicas à pergunta relativa à capacidade de aprender a língua do país de acolhimento. Foi incluído material adicional proveniente das versões resumidas das restantes entrevistas. Este processo foi adoptado para todos os capítulos que se seguem.

O assunto da segurança foi focado por alguns refugiados na narrativa inicial. A questão do acolhimento inicial surge como tema num certo número de narrativas abertas; pode-se, portanto, assumir que este período é importante em termos da integração e adaptação posteriores na sociedade de acolhimento. Inevitavelmente, muitos deles relacionaram o seu período de acolhimento com a questão da língua, razão pela qual se abordam estes dois temas nesta secção.

Segurança

Face à pergunta aberta, para alguns refugiados, a reacção mais imediata e relevante consistia em expressar a sua gratidão ao país de acolhimento por lhes oferecer asilo. Os traumas do passado e a ida para o exílio predominam ainda nos espíritos e estruturam as suas respostas. Um peruano de meia idade, com instrução, começou a entrevista exprimindo a sua gratidão ao entrevistador por ter a oportunidade de falar acerca da sua experiência e ao governo espanhol por o ter aceite no país, sentindo-se desde então em segurança e tendo conseguido ultrapassar o receio da morte e da depressão.

"Quando aqui cheguei, primeiro tive um sentimento de segurança, de alívio, de paz em geral, que me permitiu em primeiro lugar acalmar, acalmar psicologicamente. Eu estou muito grato por isso, eu tenho de estar agradecido."

O mesmo sentimento de segurança, ainda que com outros sentimentos à mistura, é expresso por uma mulher iraquiana curda, de meia idade, com pouca instrução, que vive há 10 anos na Alemanha, reconhecida oficialmente como refugiada e com cidadania alemã:

"Eu estou satisfeita por viver aqui porque já não vejo mais guerra. No meu país a guerra perturbou-me muito. Por outro lado, tenho saudades de casa, aqui sinto que sou estrangeira."

Acolhimento inicial

Embora a entrevista incidisse sobre a integração na sociedade de acolhimento, muitos refugiados começaram a falar do período inicial, quando pediram asilo. Reconheceram a sua própria "paralisia", o sentimento de incapacidade de avançar com as suas vidas quando procuravam recuperar das experiências penosas e traumáticas por que passaram e também da "paralisia" resultante da perda de direitos e de estatuto. A duração deste período de moratória variava conforme o tempo que levava a serem reconhecidos como refugiados e também conforme as políticas dos Estados-Membros. Aqueles que reconheciam este período como sendo particularmente negativo estavam mais inclinados a querer falar sobre isso pormenorizadamente ao entrevistador, pelo facto de tal ter marcado a sua vida e integração posterior. Uma jovem mulher bósnia na Dinamarca fala dos anos perdidos que implica a procura de asilo e de não conseguir falar a língua:

"Parece-me como se não tivesse vivido entre os meus 26 e 29 anos de idade. Tinha 26 anos quando vim e tinha 29 quando recebi a autorização para ficar, mas parece como se alguém me tivesse dado comprimidos para dormir e tivesse dormido durante três anos."

Um homem sudanês, instruído, na casa dos 30 e que vive na Suécia conta ao entrevistador:

"No campo não fazíamos nada, só jogávamos às cartas e conversávamos uns com os outros. Quando mudámos para a cidade, foi-nos dado algum dinheiro para nos mantermos e começámos a aprender sueco. Após algum tempo, perdemos o interesse por causa do frio e do longo período que tínhamos de aguardar para nos reconhecerem o estatuto".

No entanto, a simpatia de um sueco que trabalha com refugiados e que os levou a um piquenique ainda é recordado passados vários anos.

O papel negativo dos centros de acolhimento do governo na promoção da integração de requerentes de asilo e refugiados foi comentado ironicamente por um hutu do Ruanda que vive na Áustria:

"Eu penso que isto deve ser alguma brincadeira. Eles chamam-lhes casas de integração e eu nunca encontrei um austríaco lá dentro da casa, excepto o pessoal. Então, o que é que eles entendem por integração? Integração entre nós? Eu tenho pena de não ter tido a chance de aprender alguma coisa sobre a cultura austríaca durante a minha estadia nessa casa de integração. Tudo o que aprendi foi a língua, mas nada acerca da cultura, nem mesmo acerca da comida dos austríacos".

Foi feito um comentário semelhante por uma mulher palestiniana cristã, com instrução, acerca do casas de integração estatais na Áustria, onde vivia desde 1994.

"Não se trata de integração, mas de um meio de levantar obstáculos entre nós e a sociedade austríaca. Se nos tivessem deixado encontrar a nossa maneira de nos integrarmos na sociedade teria sido melhor."

O problema das condições inadequadas de acolhimento foi abordado por uma mulher iraniana grávida que quando chegou à Áustria foi alojada numa povoação onde não havia assistência médica.

"Isso forçava-me a andar mais de quatro quilómetros para ter alguma assistência médica numa outra aldeia. Não lhe sei dizer como é que eu consegui recuperar, mas tive coragem e energia e eu nunca esquecerei isso pelo resto da minha vida."

O tempo desperdiçado nos centro de acolhimento inicial é comentado nos seguintes termos por um homem instruído vindo dos Camarões para França:

"O que me choca é o facto de durante o processo (para obter o estatuto de refugiado) não nos deixarem fazer nada. Eu vivi com um pequeno subsídio e de pequenos trabalhos ilegais. Como sou pintor, vendi algumas obras para sobreviver".

No entanto, nem sempre foram referidos só os aspectos negativos pelos entrevistados. Um técnico afegão descreve a sua experiência na Holanda:

"Tudo era novo para mim e tive muitas experiências alegres. Eu ainda não me confrontei com problemas. No princípio está-se sempre cheio de expectativas e de esperança, sem saber que os problemas virão a seguir. Quando, primeiro, estive num campo de refugiados, passei bons tempos."

Os contrastes culturais entre a sociedade de origem e a nova sociedade de acolhimento também foram comentados. Os sistemas de segurança social que proporcionam um grande apoio aos refugiados e a outras pessoas excluídas do mercado de trabalho representam também um forte contraste com as suas próprias culturas. Uma mulher jovem, casada, sudanesa e com o ensino secundário, com o marido a estudar numa universidade na Suécia, ambos com bolsas de estudo e recebendo assistência social, disse-nos:

"Na minha tradição não é bom depender dos outros para viver. Ele é jovem, tem de trabalhar, ele disse-me que procurou por todo o lado e não conseguiu. Após um ano descobri que todos os estrangeiros estão nesta situação e, gradualmente, fui-me habituando. Eu sinto-me uma pedinte. Na realidade, isto não é diferente de andar a pedir às pessoas na rua."

Uma mulher bósnia muçulmana na Dinamarca começa a resposta à pergunta aberta falando acerca da integração e do facto de após 7 anos no país não se sentir 100% integrada. Depois, explica em pormenor o primeiro período quando viveram num barco durante 17 meses à espera de serem reconhecidos como refugiados. Ela diz:

"Durante todo esse tempo senti que a Cruz Vermelha me sustentava e isso fazia com que me sentisse mal. Sentia-me como um pedinte e tinha de descobrir alguma maneira de ganhar dinheiro. De certo modo, esqueci-me da educação que recebi no meu país, apesar de ter tido uma boa educação, mas não tive qualquer tipo de preconceito e procurei encontrar um trabalho qualquer só porque não queria receber o dinheiro da Cruz Vermelha."

As diferenças culturais podem ser sentidas de modo positivo. Uma mulher iraquiana cristã afirma que para ela a mudança de cultura não tinha constituído problema: "uma vez que eu não gostava muito dos costumes da minha sociedade".

Aprendizagem da língua

A menos que, quando chegue, já fale a língua do país de acolhimento, o refugiado vê-se confrontado com o facto de ter de aprender uma nova língua. Os refugiados podem já falar várias línguas, inclusive europeias, já que muitos têm habilitações académicas superiores nos seus países de origem. Estes dois factores vão ter influência na forma como os refugiados percepcionam a qualidade do ensino inicial da língua. Uma mulher palestiniana cristã, de meia idade e com instrução, proveniente da Síria, comenta;

"Eu lamento dizer isto, mas o ensino da língua que eu tive em Mödlig (Áustria) era do tipo elementar ... podia ajudar-me a viver durante algumas semanas, mas não podia ajudar a integrar-me na sociedade ... O curso, bem, o nível era demasiado baixo."

Uma observação semelhante foi feita em França por um etíope, na casa dos 20, que tinha um negócio no seu país. A concessão do estatuto de refugiado após 2 anos permitiu-lhe passar para um Centro de Refugiados onde permaneceu durante 8 meses. Ao longo deste período, teve aulas de francês, já que durante os dois primeiros anos quase não aprendeu francês:

"Só 2 horas por dia e a pessoa responsável era tudo menos professor."

Na Alemanha, uma mulher do Sri Lanka comentou o seguinte sobre o curto período em que teve a oportunidade de aprender a língua e sobre as fracas expectativas dos organizadores:

"Eles disseram-me: se podes trabalhar e consegues trabalho, isso é suficiente. Mas eu queria ficar numa situação em que pudesse preencher um impresso, falar com os professores, etc. Agora estou a frequentar um curso que se adapta à minha disponibilidade. O meu filho em breve vai começar a escola e eu quero poder ajudá-lo".

O marido, segundo ela, nunca conseguiu aprender a língua porque teve de trabalhar.

"Se ele começasse a aprender a língua, iria perder o emprego. O horário de trabalho mudava a toda a hora e ele não conseguia ir regularmente as aulas".

Uma mulher da Bósnia afirma que:

"Eu não tinha vontade de aprender. Já tinha tido uma experiência terrível a aprender dinamarquês nos centros de refugiados. Aí éramos mais de 40 pessoas numa turma e tínhamos entre 15 e 65 anos de idade, todos com habilitações académicas e interesses diferentes. Não tínhamos quaisquer semelhanças."

A aprendizagem do dinamarquês para os refugiados bósnios (e outros) alguns anos atrás na Dinamarca era um problema sério e deixou muito ressentimentos e recordações amargas. Uma mãe bósnia conta a história que se passou com a sua filha:

"Finalmente obteve autorização para entrar no terceiro ano de uma escola normal dinamarquesa, mas ela sentia-se profundamente limitada por causa da língua. Agora está no sexto ano e ainda se notam as consequências. Ela sente-se insegura e afastada. Alguns meses atrás, usou pela primeira vez a expressão ‘Nós dinamarqueses’. Ao todo, levou seis anos para dizer isso. Foram precisos três anos para que uma criança, que aqui chegou quando tinha seis anos, aprendesse a língua."

A posição ilógica dos governos sobre o ensino da língua aos requerentes de asilo foi comentada por um bósnio que teve a sorte de frequentar o primeiro curso intensivo organizado da Dinamarca para bósnios com estatuto reconhecido e que aprendeu a língua rapidamente-

"O problema é, como lhe disse, eu tive sorte, a maior parte dos outros e eu conheço muitos outros, outros grupos não só dos nossos, tiveram problemas porque tiveram de esperar muito tempo para iniciar o curso, estão a fazê-lo muito devagarinho, uma ou duas vezes por semana e isto não é boa ideia ... não é suficiente duas vezes por semana ou qualquer coisa assim. E deveria ser feito definitivamente logo após a chegada. E se as pessoas não ficarem na Dinamarca, que diferença faz? É melhor que aprendam a língua e depois se vão embora do que o contrário, não as deixem aprender a língua e depois elas ficam."

A falta de oportunidades para aprender a língua, mesmo quando o indivíduo procura o ensino, encontra-se reflectida no relato de uma arménia cristã do Irão, a viver na Áustria. Embora tenha decidido aprender a língua o mais cedo possível

"para conseguir compreender e integrar-me na sociedade, ninguém me deu a oportunidade de obter qualquer formação."

As consequências negativas de não se conhecer a língua local também foram abordadas por um angolano na Irlanda que, apesar de falar francês,enfrentou grandes dificuldades quando chegou:

"Eu estava sujeito a provocações físicas e verbais por parte da população local e não podia comunicar facilmente por causa das barreiras linguísticas."

Sem a capacidade de falar a língua do país de acolhimento, os refugiados ficam condenados à exclusão social como declara um zairense com instrução, em Itália:

"A comunicação é uma coisa importante porque é importante falar a língua, caso contrário, não se pode falar de integração."

Falta de informação

Para muitos refugiados é a aparente falta de informação, clara e acessível, que faz com que os refugiados achem difícil a adaptação inicial à sociedade de acolhimento; isto é referido por refugiados de muitos países. Embora cada Estado-Membro tenha desenvolvido serviços e panfletos informativos, estes nem sempre chegam aos refugiados ou então desconhecem como aceder à informação.

No Reino Unido, um congolês com instrução afirma que se sente feliz por ali viver, mas:

"O problema é como ter acesso ao meio refugiado, tem de se conhecer quais os serviços que existem antes de pedir ajuda ... Tem de se perder muito tempo a fazer perguntas e, por vezes, é-se humilhado porque algumas pessoas não gostam de responder quando percebem que é um estrangeiro. Imagine aqueles que não falam a língua, para mim, era muito difícil descobrir os serviços disponíveis."

Em muitos casos, confia-se nos compatriotas para obter informação essencial e ajuda que, de outro modo, se afiguram inacessíveis: uma professora do Irão que vive na Alemanha afirma:

"Nessa altura, quando eu não tinha apartamento, não sabia onde ficar e onde dormir. Esse era o meu maior problema. Eu quase fiquei na rua. Não tinha acesso a qualquer ONG ou mesmo a alguém que me ajudasse. Na maior parte das vezes, foi por acaso ou através de contactos, especialmente das pessoas do meu país, que consegui alcançar o que queria."


 

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