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Capítulo 6:
    AS AUTORIDADES E A DISCRIMINAÇÃO INSTITUCIONAL


Direitos e deveres

O papel dos governos quanto à concessão do estatuto de refugiado e protecção adequada dos requerentes de asilo e dos refugiados está previsto na Convenção de Genebra de que são signatários. Contudo, o nível e o tipo de cobertura implicada no termo protecção varia. O que se pretendia era que os refugiados tivessem muitos dos direitos e assumissem algumas responsabilidades como cidadãos dos países de acolhimento. Na realidade, há que dar apoio específico aos refugiados para lhes permitir o acesso aos seus direitos. Tal implica que os governos assegurem que seja dada informação aos refugiados e a quem lida com refugiados, p.ex: polícia, autoridades. Nas entrevistas, os refugiados referiram a falta de informação sobre os seus direitos e os serviços de que dispõem. Muito frequentemente, o refugiado tem de lutar para aceder a essa informação e de se confrontar com funcionários mal preparados. Um exemplo disto está patente na citação de uma refugiada na Áustria:

"Durante a minha estadia na Áustria nunca me foi dada informação completa e útil acerca dos meus direitos neste país e acerca das limitações aos meus direitos. Nunca fui informada acerca do direito a subsídios da segurança social, a formação profissional, ao direito a apoios, como o apoio à habitação. Eu descobri por mim própria e através de contactos pessoais."

Referiu-se também às repercussões que isso teve na sua vida e na vida do seu filho:

"Eu nunca tive ideia de que o meu filho estava inscrito numa escola que não lhe possibilitava obter qualificações e prosseguir os estudos na universidade. Isto realmente afectou-me e afectar-me-á para o resto da minha vida."

Uma mulher africana que vive em Espanha comentou:

"Penso que este país não tem uma política de refugiados. Uma vez que foste reconhecido como refugiado, tens de descobrir por o teu próprio caminho".

Um comentário semelhante foi feito por um homem do Kosovo, economista no seu país, que teve dificuldade em obter informação em Itália: por fim, interrogava-se. "O governo não fornece informação sobre nada. Como é que nos podemos integrar?"

Uma sudanesa que vive no Reino Unido, ao discutir os direitos dos refugiados e a política do governo sobre eles, afirma:

"Sinto que os refugiados não têm voz. Não existem no quadro estrutural do governo. Existe de tudo para ajudar as pessoas neste país, como os deficientes, mas não existe nada na política do governo acerca dos refugiados." Posteriormente, diz o seguinte acerca dos refugiados "são muito qualificados, mas não podem dar o seu contributo ... Mesmo quando se fala sobre os nossos próprios assuntos, se fossem outros falariam, mas nós temos de ser passivos e simplesmente ouvir."

Mesmo quando os Estados-Membros e as ONGs desenvolvem elaborados sistemas de informação e serviços para refugiados, estes podem não corresponder às necessidades dos refugiados. Assim, na Dinamarca, um homem jovem bósnio, sublinha ironicamente:

"À chegada tudo parece estar organizado e toda a gente parece saber o que fazer connosco. Mas tinham algumas ideias erradas acerca da nossa situação e ninguém queria ouvir o que é que nós tínhamos para dizer. O que eu tentei explicar é que não deixei o meu país antes de ter a certeza de que não podia viver lá. De qualquer maneira, os dinamarqueses tinham as suas próprias ideias".

A experiência com as autoridades levou um africano na Irlanda a dizer: "As próprias autoridades alimentam o racismo." Uma reflexão bastante semelhante quanto ao papel dos políticos aos níveis local e nacional apoiando os refugiados ou, alternativamente, tornando a sua vida mais difícil ao fomentar o racismo e atitudes discriminatórias contra eles foi comentado por um técnico somali ao dizer:

"Existe uma triste e danada expressão na Dinamarca que é a seguinte: se alguém quer fazer uma carreira política brilhante basta proferir declarações negativistas sobre refugiados."

Mantêm-se os problemas acerca do estatuto e, especificamente, o direito ao reagrupamento familiar, mesmo quando o refugiado é reconhecido. A integração dificilmente será viável se o cônjuge se encontra sob ameaça de expulsão do país, como nos explica um cristão copta eritreu já a terminar a casa dos 20 e com um nível baixo de educação:

"A lei exige um certo rendimento para o reagrupamento familiar. Eu não concordo com esta lei. Eu tenho emprego, mas a minha mulher continua a não ser aceite. Eu não encontro solução para isto e, ainda por cima, recebemos uma ordem para deixar o país estando ela grávida."

Outros refugiados relacionam a integração com serviços e apoio prático, ou com a falta deles. Um rapariga africana em Espanha diz-nos:

"Não se pode integrar pessoas quando elas estão a dormir na rua ou não têm nada para comer, isto não faz sentido nenhum."

De tendência semelhante, um zairense na Irlanda sublinha:

"Se querem que uma pessoa se integre, mas não se lhe dá o direito a trabalhar, o direito a estudar, não acredito que queiram realmente que tu te integres"

As repercussões práticas das burocracias ocidentais têm efeitos culturais para os refugiados. Uma mulher do Sri Lanka falando sobre o seu casamento na Alemanha realçou:

"Nós tínhamos os bilhetes de identidade do nosso país, mas eles não os aceitaram dizendo que não são documentos de viagem. De acordo com a nossa tradição, nós podíamos ficar juntos sem estar casados. Assim, entretanto, realizámos o casamento tradicional e religioso". Os três anos para obter os papéis necessários implicaram que o primeiro filho tivesse nascido antes do casamento oficial:

"O bebé foi registado com o meu nome de solteira. Segundo a nossa cultura isto é uma vergonha. A criança devia ter o nome do pai."

Uma jovem mulher do Iraque, de origem curda, com o ensino secundário, que vive no Reino Unido afirma:

"Viver num outro país como refugiado é muito difícil. Fomos forçados a deixar o nosso país. Nós não escolhemos vir para aqui. Eu não digo que isto não é um bom sítio para se viver, mas eu quero que o governo nos trate como aos outros cidadãos. Somos seres humanos e temos o direito de viver".

Contudo, nem todos os Estados-Membros foram acusados de falta de apoio ou de atenção pelos refugiados. O Luxemburgo parece ter tratado bem os seus refugiados, talvez porque é um país pequeno e relativamente próspero. Um estudante universitário no final da casa dos 20, proveniente do Congo, afirma na sua narrativa inicial que acredita que o país respeita o direito de obtenção do estatuto de refugiado e de obtenção de assistência social.

"Eles também cuidam extremamente bem das crianças. Isso eu reconheço."

Contacto com Funcionários

O pessoal que tem que lidar com refugiados pertence aos serviços públicos e às ONGs. São confrontados com situações difíceis, antecedentes culturais diferentes, pessoas emocionalmente perturbadas que perderam as suas casas e os seus países. A necessidade de aptidões especiais neste grupo de pessoas é, manifestamente, evidente. Alguns refugiados fizeram referência ao comportamento do pessoal, tanto dos centros de acolhimento para requerentes de asilo como dos serviços públicos com quem têm de comunicar. Retêm na memória os técnicos e funcionários que os ajudaram e fizeram com que se sentissem compreendidos e apoiados. Contudo, as histórias relatam sobretudo os mal-entendidos e a indiferença. Um ruandês (hutu) com bastante instrução, que vive na Áustria, fala sobre o período que passou no centro de integração governamental onde sentiu que nem o pessoal nem o local contribuíam para a integração:

"Eu penso que o pessoal não está preparado para trabalhar com grupos marginais. Comportam-se como xenófobos. Não nos tratavam como seres humanos, tratavam-nos como estrangeiros e pessoas indesejadas."

Dentro do mesmo espírito, uma mulher bósnia que vive na Dinamarca afirma:

"Eu nunca vou perdoar à sociedade dinamarquesa e nunca perdoarei ou esquecerei os funcionários da Cruz Vermelha Dinamarquesa e do Conselho Dinamarquês para os Refugiados. Eles nunca se preocuparam com os nossos antecedentes, ou com a idade ou qualquer coisa assim. Punham-nos sempre todos no mesmo saco e no saco está escrito ’pessoas menos válidas’, estando sempre em posição de dizer ‘nós somos melhores, nós conhecemos as coisas melhor, nós pensamos da melhor maneira, nós ensinamo-vos como utilizar a casa de banho, o que é que é uma biblioteca e um aspirador, etc. Vocês são refugiados, vocês são refugiados e isso significa que são selvagens. Nós somos dinamarqueses, nós somos civilizados."

A ausência de diferenciação ou de interesse pessoal sobre os antecedentes dos refugiados é entendido por alguns deles como uma qualidade negativa da administração pública, sentindo que mais uma vez perderam o seu estatuto social. Um licenciado da Eritreia começou a sua entrevista gozando com o entrevistador, perguntando-lhe se era necessário o número do bilhete de identidade pois em toda a parte na Suécia tinha de mostrar o seu número.

"As autoridades suecas só me reconhecem através deste número. Eu sou apenas um número. É o mesmo com todos os estrangeiros: instruídos ou não, pretos ou mistos, vindos de África, da Ásia ou da América Latina".

A dependência dos refugiados dos fundos públicos para subsistirem, dadas as dificuldades que a maioria tem em encontrar um emprego remunerado (ver secção sobre o emprego), processa-se de acordo com as regras relativas à segurança social nos diferentes Estados-Membros. Conforme já mencionado, poucos refugiados provêm de países com sistemas de assistência social desenvolvidos, sentindo-se frequentemente desconcertados por terem de depender do erário público, mesmo que seja um direito. Isto nem sempre é tido em consideração pelo pessoal do sector público: uma mulher sudanesa no Reino Unido fala do que sente quando está na fila para receber o dinheiro da segurança social:

"Tu és olhado pelo pessoal de um modo desagradável. Eles olham para ti como se tirassem o dinheiro do governo sem lhe oferecer nada em troca. Na realidade, isso não é dito, mas nós percebemos pelo comportamento, as atitudes, o modo como te tratam, diferente se se tratasse de uma pessoa inglesa."

Os preconceitos raciais surgem nos contactos de alguns refugiados com a polícia. Um refugiado africano na Finlândia conta a sua experiência:

"Se está uma mulher connosco quando estamos a conduzir ou quando conduzimos um carro de uma boa marca, especialmente um Saab ou um BMW, a polícia prende-nos, sujeita-nos ao teste do álcool e pergunta-nos o que é estamos a fazer com esse carro. Ás vezes dizem claramente que devíamos ir para a nossa terra e isso torna a integração um bocado difícil."

Uma mulher peruana que está a estudar em Espanha refere que alguns polícias do departamento de asilo estão mal preparados e são racistas.

"Eu reparo que eles põem os brancos à frente dos pretos e coisas assim. Eu protestei, mas ninguém liga".

Uma outra dificuldade reside no facto dos refugiados serem provenientes de países em que as suas expectativas em relação aos funcionários são muito baixas; frequentemente têm medo de quem usa farda e exerce a autoridade. Isto é descrito por um zairense, com formação universitária, sublinhando que teve de contactar bastante com o departamento da polícia a fim de obter o estatuto jurídico e o quanto lhe foi difícil ir à polícia.

"No meu país, a polícia intimida-te"

Um outro problema assinalado foram as dificuldades de lidar com os funcionários das fronteiras. Um refugiado africano na Irlanda falou sobre o racismo que ele sentiu, mas também sobre a falta de conhecimento acerca da Convenção de Genebra e da validade dos documentos passados pela Irlanda: teve problemas no Reino Unido, na Bélgica e na Irlanda:

"As autoridades dos Estados Schengen deveriam dar formação aos funcionários da imigração".

Na Dinamarca, a estrutura burocrática e a falta de flexibilidade causam problemas a muitos refugiados. A recente decisão de atribuir a responsabilidade da integração dos refugiados às autoridades locais é encarada com muita apreensão por alguns refugiados:

"Para os refugiados é impossível lutar contra as autoridades locais. As autoridades locais empregam burocratas com muito poder. Não existe nenhuma organização ou instituição aonde os refugiados se possam dirigir e queixar-se das decisões das autoridades locais."

Os refugiados podem entrar em conflito com a burocracia directamente por causa do estatuto e da rigidez burocrática. Assim, em França, um refugiado reconhecido cuja mulher chegou depois como requerente de asilo, não podendo dar entrada num hospital para ter bebé porque não possuía quaisquer documentos, conta:

"Eu achei estranho que não pudesse inscrever normalmente a minha mulher num hospital para ter bebé porque todos os hospitais são organizações que só pensam em fazer dinheiro. Como não tínhamos documentos, a minha mulher era requerente de asilo, ninguém lhe fazia exames e nada era possível. Tentei fazer isso através da segurança social, mas não era possível ... Finalmente inscrevi-a por telefone por intermédio de uma assistente social, mas o hospital não entendeu como é que ela estava inscrita ... e quase que houve uma manifestação no hospital para saber como é que ela tinha sido inscrita..."

Quando a mulher foi hospitalizada, foi-lhe dito para pagar 20 000 FF e, como ele não podia, requereram assistência médica, tendo sido, por fim, felizmente, resolvida a situação.


 

Capítulo 7:
    EMPREGO


Em toda a União Europeia existem dificuldades em arranjar emprego para os refugiados. Em certa medida, isto reflecte a situação geral nos mercados de trabalho em termos nacionais: o desemprego constitui ainda um dos problemas principais em muitos dos Estados-Membros. No entanto, em grande parte, para os refugiados o problema é que, mesmo quando são altamente qualificados nos seus próprios países ou noutros países, raramente as suas qualificações são reconhecidas. Em segundo lugar, existe o problema da discriminação; muitas entidades empregadoras não querem empregar refugiados, mesmo quando possuem as habilitações e os conhecimentos devidos. A recente melhoria no domínio do emprego em vários países, p.ex: Holanda, Reino Unido, Irlanda, Luxemburgo parece que ainda não teve efeitos notórios no emprego dos refugiados. Um problema adicional é que muitos refugiados nos países do Norte da Europa dependem dos subsídios da segurança social; o trabalho temporário ou em part-time que pode constituir um primeiro passo para o emprego de longa duração representa um risco maior para eles do que para a maioria das pessoas desempregadas. Muitos sentem-se inseguros e não querem passar para emprego próprio ou para contratos de trabalho inseguros dado que os requisitos burocráticos podem frustrar as iniciativas. Diversos refugiados contaram nas suas histórias que tentaram trabalhar legalmente, deixando de ter direito à segurança social se o trabalho acabasse, sendo depois forçados a entrar no trabalho ilegal.

No Sul da Europa, a falta de segurança social empurra os refugiados para todas as formas de insegurança, de emprego temporário e não declarado, independentemente das suas qualificações. Ao contrário dos desempregados nacionais que vão buscar apoio junto da famílias e parentes, os refugiados encontram-se numa situação mais vulnerável. Tal como nos conta uma estudante universitária peruana sobre a sua experiência em Espanha:

"além do mais, aqui funcionam em grande medida as redes pessoais e familiares. Podem funcionar em muitos países, mas aqui é demais. Então, tudo se torna mais difícil para um refugiado que não consiga esses contactos."

A vulnerabilidade de emprego dos refugiados em certo tipo de trabalhos é evidente em Portugal

" ... um grande problema para os homens ou para os refugiados que trabalham na construção civil é que o patrão vai-se embora sem pagar a uma pessoa. Isso aconteceu-me a mim e a muitos dos meus amigos e se vais explicar às autoridades (p.ex: à Santa Casa), não podem fazer nada."

Um refugiado iraniano conta a sua história para sobreviver:

"Eu procuro emprego através dos meus amigos ou das pessoas que eu conheço. É muito difícil conseguir emprego na Grécia. Agora estou a vender coisas na rua, mas não sei por quanto tempo é que vou conseguir fazer isso. E eu não tenho segurança social."

A falta de compreensão sobre a situação dos refugiados na sociedade de acolhimento também implica que, muitas vezes, sejam vistos como migrantes e tratados do mesmo modo. Um argelino em Itália afirma:

"Eu vejo que o problema não é só para os imigrantes, também é para os italianos e isso significa que todos têm problemas. Por um lado, como refugiado fico furioso, por outro, eu compreendo que isso é normal. Agora estamos todos em Itália, um país que só recentemente recebe imigrantes. Temos que ter paciência."

Reconhecimento das qualificações e da experiência profissional

Praticamente em todos os países uma das principais questões levantadas por refugiados com formação e altamente qualificados é o não reconhecimento quer das habilitações académicas, quer da sua experiência profissional. Mesmo quando são objecto de algum reconhecimento, é suposto que os refugiados façam cursos adicionais em virtude das suas qualificações serem pretensamente inferiores. Um refugiado na Áustria afirma:

"é-me recusado um cargo pelo facto de não ter estudado aqui e com o fundamento de não ter qualquer experiência profissional na Áustria, como se as minhas qualificações anteriores não representassem realmente nada."

Ele reconhece que efectuou diversos trabalhos "recusados pelos nacionais" e conta a sua experiência no mercado de trabalho:

"Eu vejo um certo tipo de exploração da força de trabalho dos estrangeiros, como eu próprio. Eu fui explorado. Nunca me foi permitido fazer o que sei ou mostrar o que posso fazer. Eu só encontrei pessoas que nunca tinham ido à escola ou que tinham feito o segundo ano e encontrámo-nos no mercado laboral a fazer o trabalho mais sujo.

Mesmo quando existe procura para as habilitações que os refugiados possuem, as suas qualificações não são reconhecidas. Uma enfermeira bósnia na Dinamarca conta:

"Eles não reconheceram a minha formação como enfermeira. Recebi uma resposta do Ministério para Estrangeiros igual à de todas as outras enfermeiras, que nos devíamos dirigir à faculdade de medicina mais perto do local onde vivemos e lá nos dariam uma resposta sobre quantos exames teríamos de fazer. Tenho de acrescentar que a Dinamarca tem poucas enfermeiras e, quando nós vivíamos nos centros de asilo, o país estava a importar enfermeiras da Suécia e da Holanda, apesar de também não saberem falar a língua ou de falarem pior do que nós. Eu ainda não compreendo porque é que tínhamos de estudar um ano ou até dois anos. Eu fiquei muito triste com isto tudo."

Um licenciado, na casa dos 40, proveniente dum país do Saara, que vive em França, explica:

"Dado que não consegui trazer comigo o meu diploma para ser reconhecido, fui obrigado a aceitar um "estágio" em cerâmica, pintura... o que não é muito conveniente para mim devido à minha idade e aos meus antecedentes. Encontrei pequenos trabalhos em parques de estacionamento, por exemplo. Mandei o curriculum, procurei muito, mas nunca encontrei um trabalho em condições. Dada a minha idade e a minha formação tenho de viver do RMI (subsídio da segurança social)".

Na Áustria, um jornalista com experiência em televisão, vindo do Ruanda, expressa a sua frustração por não ter qualquer perspectiva de trabalho numa estação televisiva austríaca:

"Como jornalista ... bem... para mim parece-me que é como se fosse um sonho pensar que alguma vez irei trabalhar para a Österreichisches Rundfunk (ORF) ou qualquer outra estação televisiva neste país porque as respostas que tive quando me candidatei foram ‘lamentamos mas é preciso ter experiência profissional na Áustria. Nós não reconhecemos a experiência fora da Áustria’. Isto foi frustrante para mim. Quer dizer, parece que fora da Áustria não existe ... quer dizer, ninguém faz nada que valha a pena. É como se me estivessem a dizer que os meus estudos fora da Áustria foram inúteis... ou simplesmente não contassem, como se só os estudos na Áustria tivessem validade. Eu penso que isto é uma certa negação de mim mesmo como ser humano ... como um cidadão do mundo ... Quer dizer ... eu tenho o direito, eu tive o direito de estudar onde quis..."

E conclui a sua entrevista com a mesma preocupação ..

"antes de vir para este país, eu tive experiência de ensino durante cinco anos e experiência de jornalista da TV durante mais de dois anos. Isso já pertence ao passado, sabe, eu não posso usufruir disso, não posso usar a minha experiência e competir aqui com outros austríacos no mercado de trabalho porque, pura e simplesmente, eles não reconhecem a minha experiência anterior."

O reconhecimento formal pelas autoridades pode não afectar as perspectivas de emprego. Uma mulher bósnia, juíza no seu país de origem, obteve o reconhecimento das suas qualificações por parte do governo, mas referiu que, apesar disso, não podia trabalhar em departamentos em que os funcionários tinham de ter a cidadania dinamarquesa e que as entidades empregadoras não eram obrigadas a reconhecer as suas qualificações:

"A minha experiência é que nenhuma firma ou instituição as queria reconhecer, mesmo tendo um papel dizendo que a minha formação está ao mesmo nível da formação de um jurista dinamarquês. Eu perdi o lugar num concurso para um dinamarquês que tinha apenas alguns meses de prática. Mesmo quando um refugiado deseja uma reciclagem, a questão do preconceito emerge claramente. Um somali com 30 anos de idade conta-nos a sua experiência na Dinamarca:

"Eu não conseguia fazer uso da minha formação. No meu país era contabilista e aqui, após dois anos numa escola de línguas, iniciei a minha formação desde o princípio. Frequentei novamente o 9º e o 10º do ensino básico e depois uma escola para adultos para poder fazer os exames para entrar na universidade. Após três anos na universidade, formei-me como assistente de informática. Andei na escola de 1991 a 98."

Apesar de tudo isto, explica que ainda lhe é muito difícil arranjar um emprego:

"É difícil conseguir um emprego com a minha formação, mesmo com o ensino dinamarquês, porque os dinamarqueses preferem dar trabalho aos dinamarqueses. Por isso, trabalhei como tradutor independente. Agora sou empregado duma loja. É muito, muito duro para os estrangeiros conseguirem emprego na Dinamarca."

Alguns refugiados conseguiram ultrapassar as dificuldades do não reconhecimento das qualificações. Uma via importante para a aceitação é obter o reconhecimento de uma instituição educativa local ou de uma entidade empregadora. Um homem dos Camarões com 30 e muitos anos explica que beneficiou da segurança social tendo-lhe sido paga a sua formação. "foi muito útil pois neste país os diplomas estrangeiros e a experiência no estrangeiro contam pouco. Agora posso apresentar um documento de um instituto finlandês e eles encaram a minha candidatura ao emprego com outros olhos." Para ele, as recomendações locais são um elemento chave para uma futura integração no emprego:

"o doutoramento em Paris e o CAPES dos Camarões não significam nada, mas esta acreditação local, penso que tem a maior importância."

O não reconhecimento das qualificações origina certas atitudes da sociedade de acolhimento em relação às qualificações estrangeiras: uma mulher do Burundi em França falou acerca da atitude das entidades empregadoras: "Certos patrões pensam que os refugiados não têm o mesmo direito a trabalhar que os nacionais ou duvidam da qualidade da formação ou das suas competências".

Um poeta do Congo com 30 e tal anos que vive na Holanda ficou muito desiludido com a desvalorização do seu diploma em literatura moderna e afirma:

"Eles disseram que a universidade que eu frequentei tinha outro nível. Isto foi a forma como eles viram o meu diploma, mas eu conto com a minha cabeça. O diploma é só uma folha de papel. Tu até podes falsificar o teu diploma, mas a tua experiência nunca. No espaço de 5 anos, eu ganhei dois prémios de literatura na Holanda..."

Outros refugiados rejeitam a ideia de voltar de novo para a escola. Uma rapariga albanesa, na casa dos 30, com formação universitária e cuja licenciatura nunca foi reconhecida na Bélgica, afirma:

"Mesmo quando me perguntam porque é que eu não volto atrás e tiro novamente a licenciatura, só seriam 3 ou 4 anos, eu respondo "Não, o meu diploma é de Tirana, um dia quando regressar é válido, pelo menos numa terra pequena."

Um piloto curdo, em França, disse ao entrevistador que o não reconhecimento das suas qualificações fá-lo sentir que não é positiva a integração em França:

"... quando eu penso nos meus compatriotas no Canadá ou noutros lugares que tiveram menos problemas do que eu aqui para obter o reconhecimento dos seus diplomas e que hoje já estão naturalizados, bem, por vezes, eu lamento ter aterrado aqui..."

Emprego e Discriminação

A discriminação no mercado de trabalho é sentida por muitos, independentemente das suas origens. Assim, uma mulher bósnia, na casa dos 40, fala-nos sobre a forma como conseguiu um emprego num hotel na Dinamarca, dado que não queria estar dependente da segurança social:

"A minha opinião pessoal é que eu consegui o emprego porque o proprietário deste hotel é estrangeiro. Eu não posso dizer que fui discriminada, mas penso que existe uma grande desconfiança em relação a nós. E eu não consigo aceitar isso porque eu nasci e cresci na Europa, nós somos europeus. E não consigo compreender a razão para tanto preconceito contra nós."

Contudo, ela também explica como é que depois foi despedida devido ao racismo do seu chefe directo, ou seja, não por discriminação geral, mas de apenas uma pessoa:

"A dinamarquesa que era minha chefe não suportava que um estrangeiro trabalhasse no hotel e, ao mesmo tempo, o primo dela não tivesse emprego. Nesta altura, o proprietário vendeu o hotel e, portanto, não podia influenciar a decisão."

No entanto, para um africano com formação universitária, na Irlanda, onde existem poucas pessoas de outras culturas, a discriminação foi bastante evidente:

"Tu podes ter educação, mas isso não será reconhecido. Se és estrangeiro, sobretudo preto, as hipóteses aqui são muito pequenas ..."

Um refugiado que vive em Portugal explica:

"antes de deixar o meu país, eu sabia que tinha de começar do zero porque alguns dos meus amigos que são médicos e professores estão a trabalhar como empregados de limpeza e varredores. Portanto, eu estava psiquicamente preparado para qualquer tipo de emprego. E não tinha grandes esperanças em conseguir um emprego num escritório quando chegasse à Europa."

Um engenheiro qualificado iraniano, com 40 e tal anos, na sua resposta inicial fala acerca da procura de emprego na Dinamarca. Apesar de ter mandado 30 cartas a pedir emprego, não recebeu qualquer resposta e, com a ajuda da assistente social, conseguiu um "estágio" numa companhia dinamarquesa. Ele conta a sua experiência:

"Quando aqui cheguei, eles explicaram-me: "O seu trabalho é pôr as flores lá fora todas as manhãs, regá-las e recolhê-las todas as tardes". Eu fiquei admirado e disse: ‘Após 19 anos de educação eu não quero regar flores. Eles disseram-me que se eu não gostava, podia ir para casa. Eu não gostei e fui para casa. Mas o problema é que eu não conhecia a lei e, no mês seguinte, não recebi dinheiro nenhum da segurança social. Ninguém me disse nada acerca desta regra".

A prioridade dada aos nacionais na União Europeia tem repercussões para os refugiados que, mesmo quando aceites, não parecem ter as mesmas hipóteses que os nacionais dos outros Estados-Membros. Uma mulher do Sri Lanka, falando acerca do seu marido, explicou porque é que ele não consegue arranjar um emprego decente.

"Por lei, os alemães têm os melhores empregos, depois os europeus e depois as pessoas com um visto permanente, os últimos são os que têm um visto de 6 meses. Ele ficou satisfeito por ter conseguido este emprego (num hotel) mesmo com um visto de 6 meses, em vez de viver à custa da segurança social."

Uma professora do Irão que também vive na Alemanha afirma:

"Todos os estrangeiros têm menos hipóteses se comparados com os alemães. Quer se comece com um salário pequeno ou com um emprego fraco e depois se suba. É sempre uma questão de sorte ver um estrangeiro a exercer um trabalho qualificado."

Uma refugiada do Montenegro que começou a sua formação em hotelaria e restauração ficou muito desiludida por não poder continuar os seus estudos no Luxemburgo se bem que tivesse lá tido boas experiências em escolas de línguas. A conselho do Luxemburgo, foi para a Bélgica estudar Economia e agora trabalha numa ONG.

"Eu fiquei admirada, eu só queria continuar na área que tinha escolhido na Jugoslávia, ou seja, hotelaria e restauração. Eles disseram-me que era uma área muito difícil, mesmo para as pessoas do Luxemburgo. Então para vocês estrangeiros ... Eu não sabia o que é que essa pessoa queria dizer. Penso que foi por isso que eu fui imediatamente para a Bélgica."

Os preconceitos, quer directamente por parte de um patrão ou pela sua percepção da possível reacção do público também inibem a admissão, como conta uma mulher do Zaire que vive em Itália. Mesmo quando o patrão, que estava envolvido no curso de formação, gostava dela e lhe pediu para ir para a sua loja:

"Quando lá cheguei estava lá a mãe dele e percebi que não era possível a minha admissão porque a clientela não podia aceitar uma preta a fazer pizzas. Depois disso, não tive coragem de procurar emprego noutro sítio."

A cor como motivo de discriminação foi também o problema para uma somali que vive na Dinamarca.

"Eu estou muito desiludida. Eu sonhei com a Dinamarca, um país democrático com pessoas abertas e democráticas. Porém, a realidade é completamente diferente. Quando vou à procura de emprego, mesmo antes de eu dizer qualquer coisa, perguntam-me se eu gostaria de limpar o escritório."

O preconceito racial está ilustrado na entrevista de um iraquiano que vive no Luxemburgo:

"Quantas vezes já fui acusado de coisas que nunca fiz. Eles viram-se para mim e dizem ‘É assim que os árabes trabalham?’. Como se o trabalho árabe fosse sempre mal feito. Se eu realmente fizesse mal o trabalho, há muito que eles me teriam indicado a porta de saída."

Um congolês relata-nos o enorme esforço para encontrar trabalho e como se sente afectado por não ter trabalho, ao contrário do que esperava quando chegou.

"Todas as minhas esperanças se afundaram. Não há trabalho para mim, embora eu tivesse a certeza que arranjaria algum trabalho quando cheguei ao Luxemburgo. Há trabalho. Eu, eu não quero ser deputado ou ministro ou director. Há trabalho. Dêem-me qualquer trabalho. Eu faço-o. Eu digo a mim mesmo que me vão dar algum tipo de trabalho, mas não dão; então todas as minhas esperanças caíram por terra ... Eu vivo do RMG e dos subsídios para as crianças. É isso. Isso não me honra nada."

As complicações que resultam do trabalho inadequado e do racismo estão patentes no caso de um ruandês, na Áustria, forçado a deixar o seu primeiro emprego após 11 meses, que implicava trabalhar à noite em virtude de se encontrar exausto ao tentar cuidar da sua família recém-chegada. Não conseguia assistência social porque não tinha trabalhado o número de meses exigido e este círculo continuou ...

"Então eu tive de procurar outros meios de subsistência. Mais tarde encontrei outro emprego e fiquei lá mais quatro meses. Depois tive de desistir porque eles disseram ‘Ok o emprego acabou e tens de ir embora’. Fui embora novamente e não conseguia assistência social da AMS pela mesma razão, por só ter trabalhado quatro meses e não os doze meses exigidos. Encontrei um outro, um terceiro emprego após alguns meses, mas, nessa altura, eu sentia-me um tanto frustrado. Ainda por cima, o meu patrão tratava-me como se eu não fosse um ser humano, discriminava-me devido à cor da minha pele. Ele costumava dizer que eu era estúpido porque era preto ... Eu saí e desde então não tenho tido trabalho. Então agora já passaram seis meses e não consigo apoio da AMS novamente porque não trabalhei os 12 meses exigidos."

Este caso não é invulgar e tem como resultado para muitos refugiados o serem arrastados para o trabalho ilegal ou para o mercado negro:

"Eu não tinha outra alternativa senão trabalhar. Daquele modo, a AMS não me ajudou".

Um outro homem originalmente vindo do Kosovo, com formação universitária, que vive no Luxemburgo, não fala de racismo, mas diz:

"O problema é o salário. Eu não sei, por exemplo, se um homem do Luxemburgo receberia por estar em casa e eu sou estrangeiro, sou bem tratado, mas para ter uma boa vida como os outros, é difícil."

Um comentário semelhante é efectuado por um bósnio que vive no Luxemburgo e fala da exploração dos refugiados pelas entidades empregadoras que se aproveitam do facto de muitos bósnios terem medo de perder o emprego:

"Eles tentam pagar o mínimo possível ao trabalhador. Existem certos patrões que se aproveitam desta situação e arranjam bósnios que não conhecem muito bem a lei. Por exemplo, fazem muitas horas extraordinárias sem serem pagas. Até mesmo ao domingo. Eles não sabem que as horas extra deveriam ser pagas."

Explica que, muitas vezes, a discriminação é indirecta:

"o trabalho que eu faço, e que muitos estrangeiros fazem, é o trabalho que os luxemburgueses não querem fazer. É por isso que os estrangeiros aqui não são mal vistos. Eu não sei. O trabalho aqui é hierárquico como no exército."

Nos países do sul da Europa o grande problema é o desemprego, com muitas pessoas a trabalhar sem segurança social: um curdo da Turquia diz:

"Eu não tenho segurança social na Grécia e o dinheiro que me pagam não é suficiente. Há muitos estrangeiros na Grécia, então os patrões podem escolher entre muita gente e aproveitam-se de nós."

O facto do emprego no sector público não estar aberto a não nacionais também funciona contra os refugiados: um jornalista dos Camarões que vive em França concorreu a uma vaga que viu anunciada numa agência de emprego:

"Era para um lugar nos correios, para seleccionar o correio, um trabalho manual que eu considerava estar mais do que apto a fazer. A pessoa que me entrevistou tirou fotocópias dos meus documentos, do BI, do meu CV e prometeu chamar-me depois. Alguns dias mais tarde, eu vi o mesmo anúncio mencionando que o lugar estava aberto a estrangeiros, mas apenas aos da União Europeia. Telefonei à pessoa com quem tinha estado antes. Irritado, confirmou que o lugar era só para franceses e, em último recurso, só os estrangeiros de origem europeia podiam concorrer."

Uma romena com habilitações concorreu várias vezes para um lugar nas bibliotecas estatais,

"mas o emprego era-me recusado simplesmente por não ser nacional da Áustria. Quando adquiri a nacionalidade, então consegui o emprego."

A discriminação parece virar-se particularmente contra os estrangeiros com instrução: uma mulher iraquiana, com formação em design, que não conseguia encontrar ninguém que lhe desse emprego, mesmo como voluntária, conta-nos o conselho que lhe deram uns amigos dinamarqueses sobre como procurar emprego. Disseram-lhe: "Se queres encontrar emprego, não mostres o teu diploma porque, se eles o vêem, não consegues emprego. Os dinamarqueses não gostam de estrangeiros instruídos."

Esta ideia encontrou eco numa entrevista com um refugiado de Portugal:

"Os refugiados com menos instrução estão em melhores condições do que os refugiados com mais formação, porque eles trabalham na construção civil e têm uma boa vida e estão prontos a fazer qualquer tipo de trabalho; mas os refugiados com mais instrução ficam para trás porque querem fazer um trabalho da sua escolha e, mesmo quando as pessoas estão a desempenhar funções administrativas superiores, estão a ganhar menos do que os que estão a trabalhar como empregados de limpeza e varredores. Se por acaso entrar na casa de uma pessoa com menos instrução irá ver toda uma série de artigos modernos como TV, vídeo, máquina de lavar, frigorífico, etc. E já não é assim na casa de um homem com instrução."

Discriminação legítima?

A prioridade dada aos desempregados nacionais no mercado de trabalho e a discriminação com base no deficiente domínio da língua são reconhecidos pelos refugiados como fundamentos das entidades empregadoras mais ou menos legítimos contra o seu emprego. Um cubano com educação de nível universitário refere:

"Eu ia trabalhar como tradutor da língua russa, mas o Instituto Nacional de Emprego recusou o meu pedido com o fundamento de haver espanhóis desempregados com as mesmas qualificações."

Uma sudanesa que não conseguia arranjar trabalho por não possuir qualificações do Reino Unido admite:

"Era verdade. O meu inglês nessa altura era estranho e eu arranjei um emprego como empregada de limpeza num cabeleireiro. Eles eram incorrectos comigo. Ninguém acreditava que na minha terra fosse engenheira. Deixei o emprego e fiquei em casa. Não havia forma de refazer a vida."

Um etíope aparentemente empreendedor afirma:

"Durante os 8 meses no centro de alojamento passei 3 meses de estágio num self-service do casino. No fim do estágio, soube que eles andavam à procura de alguém, mas que não me queriam admitir por causa do meu fraco nível de francês. Não se pode acusar as pessoas por isso, eles querem falar e brincar com pessoas da mesma tribo. As coisas são mesmo assim."

Um curdo com instrução, com 40 e tal anos, diz:

"Tu tens de ter certificados franceses para conseguir um emprego e, acima de tudo, tens de possuir um domínio do francês muito bom. Por causa disso, é-me impossível arranjar um bom emprego."

No entanto, quando os refugiados são forçados a agarrar um emprego qualquer, as oportunidades de melhorar o conhecimento da língua do país de acolhimento também podem ser restringidas.

Um iraquiano (radiologista) conta:

"Eu agora estou a trabalhar como empregado de limpeza e isso é uma grande frustração para mim porque eu não consigo aperfeiçoar a língua alemã e não me é dada qualquer chance de provar o que consigo fazer. Uma vez candidatei-me ao lugar de Heimhilfsarbeiter (empregado doméstico), mas os meus conhecimentos de alemão não bastavam para conseguir esse emprego."

Um congolês no Luxemburgo falou acerca da frustração dos requerentes de asilo por não poderem aprender línguas ou fazer formação, o que ele interpreta como um modo de os preterirem e, assim, nunca passarão de trabalhadores não especializados.

"Aqui não há formação para requerentes de asilo. Eu recebi o meu estatuto e fui logo para uma escola aprender línguas. Eles vão dizer que não vale a pena ir muito além, porque quem é que tu vais ser? Tu não serás nada, tu és um trabalhador ... eu, eu vou, penso continuar com as línguas e depois faço um curso de computadores e pronto!

Um problema que muitos trabalhadores mais velhos enfrentam em toda a Europa é a discriminação devido à idade, pois os patrões preferem jovens e a formação também só está disponível para jovens desempregados. Os refugiados mais velhos, apesar de muitos anos de experiência no seu próprio país, quando chegam confrontam-se com essa discriminação devido à idade.

Um refugiado que vive na Áustria fala-nos disto:

"Eu fui a um serviço de emprego, Manpower, mas a senhora disse-me que não me podia admitir na formação profissional porque eu já tinha mais de 50 anos". Também se candidatou a formação para ter a equivalência das suas habilitações:"mas, infelizmente, não me deram qualquer hipótese de me preparar para me integrar em virtude da minha idade."

 

Experiências positivas

Manifestamente, alguns refugiados conseguem ultrapassar as muitas dificuldades relativas ao trabalho com a ajuda das entidades empregadoras e de outros. Uma sudanesa com instrução conta como é que, após muita discriminação, foi apoiada e auxiliada por uma ONG para quem escreveu um artigo acerca das questões ambientais, tendo, posteriormente, organizado uma exposição sobre problemas ambientais na Áustria e no Sudão.

"Quando para lá fui, fiquei consternada, o administrador e o pessoal estavam à minha espera, mesmo na minha terra não teriam tido essa consideração. Nessa ocasião específica, escrevi um poema em árabe que foi traduzido por um poeta austríaco. Foi um momento inesquecível por que passei. Entretanto, arranjei outro emprego, mas desta vez como empregada de limpeza.

Uma mulher bósnia na casa dos 50, apenas com educação básica, fala da sua gratidão pelo governo austríaco e ONGs e pelo seu percurso na sociedade austríaca:

"Uma família austríaca deixou que eu e o meu marido partilhássemos a sua residência em troca de os servirmos ... Isso ajudou-me a aprender a língua, a ver uma saída para a integração neste país."

Subsequentemente, a sua patroa e o Serviço Austríaco de Emprego ajudaram-na a arranjar um emprego permanente como empregada de limpeza num hospital. Deste modo, ela sente-se integrada.

No Luxemburgo, um refugiado do Peru conta que aceitou o primeiro emprego que lhe ofereceram como caseiro porque nunca tinha estado desempregado. Ele sabia que as suas habilitações não tinham equivalência e na resposta inicial sublinha que as suas expectativas eram encontrar calma e paz após tudo o que tinha passado no seu próprio país. Teve sorte ao conhecer o padre da paróquia que lhe arranjou um emprego:

"É difícil encontrar trabalho no Luxemburgo. Há pessoas que têm problemas e há outras que não. O meu caso está entre estas últimas. Realmente graças a Deus, eu tinha alguns conhecimentos, travei conhecimento com o padre da paróquia e foi ele quem me ofereceu trabalho. Sem pensar duas vezes aceitei. Nunca estive desempregado. Logo que consegui o meu estatuto, no dia seguinte comecei a trabalhar."

Perda de estatuto

Não será totalmente de estranhar que na Europa exista um número desproporcionado de refugiados com educação superior e pertencentes ao meio intelectual nos seus países. Estas são as pessoas que se opõem às autoridades nos seus países de origem e, em virtude disso, têm de fugir. Um resultado daí decorrente em termos de emprego consiste numa frustração considerável quando confrontados com a incapacidade de encontrar trabalho compatível com a experiência e profissões nos seus países de origem. Um jornalista dos Camarões afirma:

"Eu tenho a certeza que se eu fosse canalizador ou pintor não teria problemas em arranjar trabalho. É o problema dos intelectuais. Existem poucas perspectivas porque não correspondemos à imagem estereotipada do africano e, por conseguinte, daquilo que esperam de nós."

Uma visão semelhante possui um homem do Saara Ocidental, explicando que as pessoas com instrução são duplamente excluídas quando tentam o acesso à formação e ao emprego, dado que não estão em conformidade com as prioridades dos prestadores de serviços destinadas aos socialmente excluídos:

"Eles disseram-me:’ nós estamos aqui para quem não sabe como se apresentar ou procura trabalho de baixo nível na construção’: por conseguinte, eles não me integram quando vêem que eu sei tudo, que sei como procurar emprego porque entendo e não sou estúpido ... portanto, eu sou excluído duas vezes, pela falta de trabalho e por não me encontrar numa situação desesperada num centro ou não sei que mais ..."

A perda de estatuto e de dignidade associada a certos tipos de trabalho é evidente nesta citação de uma angolana, agora a fazer formação como assistente comerciale que não conseguiu aceitar um trabalho como empregada de limpeza:

"Também é uma questão de ter um certo amor-próprio, trabalhar como mulher de limpeza ... isso não é para mim ..."

Emprego próprio

Criar o seu próprio emprego pode ser uma solução realista para alguns refugiados, tanto para aqueles que têm habilitações mas estão desempregados, como para aqueles com conhecimentos reconvertíveis. Usualmente, a criação do próprio emprego entre os refugiados na UE concentra-se em sectores em que é necessário pouco capital para o arranque e onde as aptidões particulares dos refugiados se podem aplicar ou quando se pressente que existe uma procura de produtos ou de serviços. São habituais a actividade comercial, pequenas lojas e restaurantes, pequenas empresas de serviços; alguns obtêm rendimento através do seu trabalho como artistas. Um refugiado curdo, outrora piloto no seu país de origem, sem reconversão profissional, não conseguiu aceitar o único trabalho que a agência de emprego lhe ofereceu como varredor de rua:

"Propuseram-me um emprego com varredor municipal. Eu respondi que mesmo por 100 000 FF nunca faria isso e preferia ficar com o subsídio da segurança social ... Oito meses após a minha chegada a França, cheguei à conclusão de que a única coisa que me resta é criar o meu próprio negócio, estou a pensar num restaurante."

Os refugiados com um nível mais baixo de educação podem também ver a criação do seu próprio emprego como uma solução: uma mulher curda nas suas declarações iniciais falou-nos no facto de ter trabalhado como cabeleireira no seu país desde os 13 anos e quando veio para a Grécia, com a ajuda da assistente social, foi para uma escola de cabeleireiros, trabalhando simultaneamente como empregada doméstica. Abriu (informalmente) o seu pequeno salão de cabeleireira:

"Eu gosto de ganhar dinheiro com as minhas próprias mãos. Sempre trabalhei muito e ajudei a minha família e os meus filhos acima de tudo."

O emprego como chave para a integração

Muitos refugiados, talvez com razão, vêem o emprego como o mecanismo chave para a integração social. O campo de acção nem sequer é para todos os refugiados; alguns tipos de ocupação envolvem aptidões e conhecimentos que são transferíveis para outros países, outros requerem conhecimentos linguísticos e outros onde o facto de ser estrangeiro constitui uma desvantagem muito real. A tristeza trespassa no relato de uma jovem mulher ruandesa, em França há 6 anos, tendo chegado originalmente como estudante:

"Para mim a integração é trabalho, se trabalhamos, estamos integrados. Temos de encontrar uma maneira de ajudar as pessoas a arranjar um emprego. O meu marido tinha uma posição superior numa ONG na nossa terra, agora fica em casa quando não está a estudar..."

Um jornalista e desenhador de banda desenhada satírica proveniente dos Camarões conta como vive em França, há quatro anos, sem encontrar trabalho:

"Até agora, não posso dizer que consegui arranjar um trabalho que me permitisse dizer que estou integrado, apesar das toneladas de cartas que enviei. Até agora, a integração é só expectativa, nada de concreto, porque continuo desempregado e continuo apenas a sobreviver, se bem que tenha uma profissão que domino perfeitamente".

No seu caso, como para outros refugiados, a sua profissão original foi a causa do exílio e, por isso, é, sem dúvida, difícil desistir. Ele, tal como muitos outros, continua a lutar no país de acolhimento, tentando também provar a sua competência profissional e conseguir emprego: foi-lhe dito pela ANPE (serviço de emprego) que a sua profissão como desenhador humorista não existe:

"Eu disse a mim mesmo que não posso desistir de uma profissão que eu prezo tanto e que me fez deixar o meu próprio país. Não posso parar a luta. Eu disse para comigo que tenho de fazer qualquer coisa na imprensa."

Uma mulher bósnia não tentou o reconhecimento das suas qualificações como professora primária no Luxemburgo porque não dominava suficientemente a língua e a professora da escola da filha disse-lhe que essas disposições só estavam abertas aos luxemburgueses. Ela trabalha como empregada de limpeza numa escola. Isto é difícil para ela, mas precisa de trabalhar para sustentar os filhos, tendo acomodado claramente as suas expectativas:

"Quando eu comecei a trabalhar, chorava todos os dias (rindo). Agora eu sei que tenho de trabalhar e que não tenho opção. Neste momento, trabalho como empregada de limpeza numa escola. É importante para mim trabalhar numa escola porque eu era professora primária, não porque o trabalho que eu estou a fazer me interesse (rindo). Estou lá, vejo as crianças, o ambiente lembra-me o que eu dantes costumava fazer. É melhor ter um trabalho diferente do que não ter nenhum, especialmente porque é muito difícil arranjar emprego."

Mais tarde, ela volta a dizer que no princípio chorava muito e reflectindo mais sobre o seu trabalho diz...

"Eu não ganho muito, mas ... sim... talvez eu pudesse encontrar alguma coisa um pouco melhor?"

Para aqueles que têm poucas habilitações e fracas expectativas pode haver perspectivas muito diferentes acerca do emprego: isto é expresso por uma mulher bósnia, sozinha, com 3 filhos, que pensa ter tido muita sorte por encontrar trabalho como baby-sitter logo que chegou ao Luxemburgo.

Para alguns refugiados a perda do seu emprego anterior surge como qualquer coisa com a qual nunca se podem resignar: um exemplo divertido é dado por um iraniano que trabalhou durante 19 anos em diversas embaixadas do Irão que expressa o seu desapontamento por não conseguir trabalhar no seu antigo emprego como segurança:

"Você quer saber quanto eu gostava do meu emprego? Se me dessem a escolher entre dez mulheres, das mais lindas, das mais belas do mundo, ou por outro lado o meu emprego, eu escolheria sempre o meu emprego."

Mais típica, contudo, é a situação dos refugiados que se conformam com o facto de terem perdido o seu antigo trabalho e o estatuto inerente: uma mulher bósnia que trabalhou como administradora da fábrica do seu pai durante mais de 25 anos conta-nos que está satisfeita com o emprego que tem como empregada de limpeza num hospital:

"Eu simplesmente reconheci que não tinha qualquer chance de recuperar o antigo estatuto que deixei, mas sim aceitar qualquer tipo de trabalho para sobreviver."

Á semelhança disto, uma bósnia com bom nível de educação, na Dinamarca. afirma:

"O trabalho era manual, mas tinha de optar porque eu queria ganhar o meu próprio dinheiro. E voltava a fazê-lo de novo e recomendo a todos os refugiados que façam o mesmo. Não importa se é manual. Todos os trabalhos são bons e honestos. Eu pensei que era muito melhor trabalhar do que estar sentada num centro de refugiados. Talvez eu tinha tido sorte por conseguir emprego. Foi por acaso que o consegui, o patrão era estrangeiro e compreendia os refugiados."

Um iraquiano que arranjou trabalho num restaurante no Luxemburgo declara que o trabalho é um meio importante de fazer amigos e de aperfeiçoar o francês. Este trabalho dá-lhe o salário mínimo do Estado (Rendimento Mínimo Garantido) para o qual trabalha seis horas por dia:

"Eu não tenho muitas relações com os meus vizinhos. Ao contrário, no trabalho eu tenho muitos amigos. Graças a isso, posso aperfeiçoar o meu francês."

Um homem jovem bósnio que frequentou uma escola técnica comparou a sua experiência de trabalho na Bósnia com o que está a fazer no Luxemburgo onde há mais disciplina, o ritmo é mais acelerado e, geralmente, o trabalho é um assunto sério. Ele acha que o comunismo fez com que eles considerassem o trabalho pouco importante, tendo sido, portanto, um choque para ele e para todos os bósnios a adaptação.

"Felizmente tenho um bom patrão que me compreende, que conhece a situação do meu país e que pode ver que eu também era jovem. Realmente, ele também foi muito simpático comigo e ajudou-me muito. No início eu tinha dificuldades reais em compreender este novo sistema de trabalho. Não trabalhava como agora. Eu aprendi que o trabalho é algo realmente importante."

O voluntariado também pode ser uma via para o emprego e a integração. Um sudanês com bom nível de educação, com os seus 40 e tal anos, que tinha estudado em Espanha, explicou como ali procurou asilo e como foi diferente a sua experiência, pois, ao contrário da primeira vez, agora não tinha dinheiro e precisava de ajuda. Ele arranjou vários empregos, bons e "maus".

"Eu costumava dizer a mim mesmo: ‘Eu preciso de trabalhar porque tenho de me sentir útil’. ‘Eu preciso de fazer qualquer coisa, e não ficar num lugar e dizer acabou’. O trabalho é uma espécie de cura e foi muito importante."

Começou a trabalhar como voluntário nos "Médicos do Mundo", dando informação aos refugiados e imigrantes ou a quem precisasse dos serviços, e sensibilizando também a sociedade espanhola para a situação dos imigrantes. Isso levou a um curso sobre mediação social e cultural em escolas e emprego num grupo de mediadores culturais oriundos de 8 nacionalidades. Um homem de 40 anos da região do Saara titular de um grau universitário, vivendo em França desde 1994, pensava que os refugiados que conseguiam trabalho eram aqueles com educação superior e que trazem

" muitos diplomas da sua terra ... Mas eu não perdi tempo, mantive-me activo em associações de direitos humanos, criei a minha própria organização destinada a pessoas desaparecidas do Saara."

No Reino Unido, uma mulher iraquiana, com formação universitária, na casa dos 50, e que não conseguia arranjar emprego em Inglaterra, usou a sua experiência de voluntária da OXFAM no Iraque e começou a trabalhar para eles no Reino Unido.

"Eu penso que aquilo que me salvou foi o trabalho voluntário".

Posteriormente, fez trabalho voluntário com jovens nas escolas na zona onde vive.

"Eu fiz isso durante três anos e a experiência que adquiri foi realmente valiosa. Foi com base nisso que consegui o meu actual emprego no Município".

Tem trabalho remunerado desde 1997.


 

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