[Índice]  [Página anterior]  [Página seguinte]


Capítulo 8:
    EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL


Educação

A predominância de refugiados com um elevado nível de educação em muitas das sociedades de acolhimento da União Europeia faz com que muitos deles queiram prosseguir os estudos ou obter a sua requalificação a fim de ingressar no mercado de trabalho local (ao nível de habilitações que julgam possuir) ou como investimento na sua valorização para quando puderem regressar ao seu país. Os refugiados mais jovens podem querer aproveitar a oportunidade para obterem qualificações, enquanto os refugiados ligeiramente mais velhos podem pretender adquirir graus mais elevados. Muitos Estados-Membros apoiam o prosseguimento da educação, embora se verifiquem determinadas tensões para os refugiados que tentam simultaneamente estudar, adaptar-se e sobreviver. Um homem do Burundi com um bom nível de educação começou a entrevista sublinhando que, apesar de vir de um país de expressão francesa, facilitando a inscrição e adaptação dos seus filhos na escola no Luxemburgo, continua a ter problemas em encontrar trabalho:

"Comecei logo a procurar emprego, mas não consegui em parte nenhuma. Depois decidi voltar para a universidade e segui um curso de formação profissional, um mestrado em estratégia sobre o ensino para adultos. Era difícil para mim, dadas as minhas responsabilidades familiares e os meus limitados recursos financeiros. Continuo a procurar trabalho através de agências e jornais ... "

Quando é dado apoio adequado aos refugiados, estes ficam cheios de expectativas de poderem vir a contribuir novamente para a sociedade. Uma mulher com formação universitária do Iraque, com 30 e tal anos, explicou como é que recebeu o apoio continuado da World University Service no Reino Unido:

"Gostaria de lhes trazer um ramo de flores. Eu tive uma orientadora, ela era muito simpática, encorajou-me, deu-me força.

Originalmente pensou começar novamente, com formação inferior à licenciatura. Com o encorajamento da WUS inscreveu-se num mestrado em Tecnologias de Informação e Engenharia. Confrontou-se com sérias dificuldades durante o curso: primeiro, era a única mulher; segundo, tinha problemas com a língua, pois só estava em Inglaterra há 18 meses; não tinha acesso a computadores e não podia pagar livros e fotocópias. O tutor encorajou-a para que continuasse a assistir, tendo aprendido a trabalhar com os formandos ingleses, descobrindo que também eles tinham problemas porque o curso era difícil. Concluiu uma unidade e, após lhe ter sido concedido um prolongamento, passou na segunda unidade.

"Para mim, foi uma grande proeza. Mesmo tendo passado, sinto-me abaixo deles. E concretizei muito bem o meu projecto, mas ainda me falta confiança para conseguir um emprego."

Agora está a ser ajudada pela WUS na preparação do CV e para o processo da entrevista:

"É o meu sonho, conseguir um emprego neste país. Eu tenho a certeza que se conseguir trabalho vou desempenhá-lo muito bem."

Uma sudanesa, no final da casa dos 20, no Reino Unido, descreve como conseguiu obter a sua primeira qualificação, apesar das dificuldades:

"Então, eu fui para a "Africa Educational Trust". Preparavam-se para pagar o meu curso de Educação da Saúde na Universidade de Londres ... Agarrei a oportunidade, fui para a universidade e tive algumas dificuldades de adaptação."

Apesar disso, ela achou que foi uma experiência muito positiva e com o apoio do tutor obteve mais um subsídio e concluiu o mestrado.

Em certos países, os refugiados com experiência profissional têm de trabalhar em todo o tipo de emprego - temporário, não declarado, instável - embora continuem a manter a ideia de um futuro diferente: uma jovem mulher curda do Iraque, instruída, conta como, após um ano do nascimento do seu filho, começou a limpar casas. Embora continuasse com este tipo de trabalho para sobreviver, frequentava aulas de grego, inglês e informática no Conselho Grego para os Refugiados juntamente com o filho, na esperança de um dia encontrar um tipo de trabalho diferente:

"No meu país era professora, aqui não tenho trabalho".

Uma mulher refugiada da Libéria conta uma história similar:

"Na Grécia frequentei uma escola politécnica para tirar enfermagem. Mas como tenho que trabalhar, não tenho tempo para acabar. Penso que nunca vou terminar a escola."

A falta de oportunidade de continuar os estudos devido à obrigação de trabalhar para conseguir um cartão de residência foi referido por um albanês do Kosovo que teve de suspender o seu curso de direito no Luxemburgo:

"Não é só o problema da língua porque aqui, no Luxemburgo, o governo diz - se queres ficar no Luxemburgo e ter cartão de residência, é necessário que encontres trabalho porque não podes viver à custa do Estado. Então, não é possível estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Assim, sou obrigado a fazer qualquer coisa, que não tem nada a ver com o meu curso."

Mesmo no Reino Unido, apesar dos exemplos positivos citados anteriormente, podem surgir dificuldades reais no acesso a oportunidades de educação. Um médico refugiado, prestes a terminar a sua qualificação para exercer no Reino Unido, foi pedir o subsídio "Job Seekers Allowance" devido ao seu estatuto de refugiado, tendo ficado muito angustiado quando no Centro de Emprego lhe disseram que agora já era perfeitamente capaz de arranjar emprego e devia pôr de lado a ideia de se requalificar como médico neste país.

"Para os jovens refugiados que não tiveram acesso a educação no seu próprio país, devido à situação existente, mas que têm claramente potencial para o fazer e desejam aproveitar as oportunidades, é como se caminhassem sobre uma corda ao prosseguirem os estudos, em particular se o curso for de mais de um ano, p.ex: se estão a fazer estudos do nível A, GNVQ avançada ou Diploma Nacional".

Do mesmo modo, um homem do Congo, com formação universitária nos EUA e que vive no Reino Unido, comenta o facto de, desde 1994:

"Este ano a situação é pior porque o que dantes era possível já não o é agora. O serviço para refugiados é sistematicamente sujeito a cortes. Dantes, a educação era mais fácil para os refugiados e requerentes de asilo, eles podiam facilmente ter acesso ao ensino superior. Não havia diferença na obtenção das bolsas para o Ensino Superior ou cursos profissionais. Agora já não é assim."

Tirar um grau superior pode ser uma forma de lidar com o desemprego como explica um jornalista dos Camarões; como não conseguia arranjar trabalho na imprensa francesa, inscreveu-se na universidade num curso de jornalismo de três anos.

"Eu inscrevi-me para fazer este curso porque isso me permite fazer algo essencial, quer dizer, ajuda-me a matar a pasmaceira e a passar o tempo. Mas, no que respeita ao efeito que esta formação terá para obter emprego, eu não tenho ilusões."

 

Educação das Crianças

Os refugiados com família referem sobretudo as oportunidades que os seus filhos podem agora ter no sistema educativo local num país em paz. Um homem do Burundi fala do sistema educativo grego, tal como o vê por intermédio da sua filha:

"Os professores são muito bons, a minha filha todos os dias quer ir para a escola. Por vezes, acorda aos domingos e diz ‘Eu quero ir para a escola’. Então nós percebemos que ela está bem na escola. Se não se sentisse bem na escola, diria que não queria ir à escola, mas ela quer."

Uma mulher síria refugiada na Grécia afirma:

"Sempre que os meus filhos passam de ano e vão para o ano seguinte eu choro ... choro porque eu sei o esforço que é preciso fazerem para prosseguirem os estudos .. eu estou muito satisfeita com a escola. As crianças não são castigadas e se quiserem podem falar a sua língua materna, mas claro não na sala de aula, nos intervalos podem brincar livremente e divertir-se"

Embora até há muito pouco tempo tenha havido poucas facilidades especificamente para refugiados ou crianças estrangeiras para aprenderem grego nas escolas, a capacidade de aprendizagem das crianças, com o apoio devido, é enorme. Uma mulher refugiada iraquiana conta-nos esta história:

"... os meus filhos vão à escola, mas enquanto não aprenderam a língua grega tiveram muitos problemas. Não faziam os trabalhos de casa. Sentavam-se na sala de aula só para ouvir. Eles não participavam de todo. Felizmente o professor era muito simpático e ajudou-os imenso".

Uma refugiada bósnia diz que a sua experiência do sistema educativo do Luxemburgo é boa porque as crianças têm boas oportunidades; conta como uma menina bósnia de 12 anos que não sabia ler nem escrever quando chegou ao Luxemburgo, por só ter tido um ano de escolaridade na Bósnia e, no Luxemburgo, conseguiu progredir e já fala todas as línguas do país. Uma história semelhante é-nos contada por um refugiado iraquiano com uma filha de oito anos que, inicialmente, teve dificuldades na escola, mas que agora está bem integrada devido à ajuda da escola e dos amigos.

"Agora ela fala luxemburguês correctamente e está integrada com as crianças como se fosse do Luxemburgo."

Uma mulher da Bósnia que está feliz e orgulhosa pelo modo como as suas filhas se integraram, tendo ali chegado quando ainda eram muito pequenas:

"Quando as minhas filhas começaram a primeira classe na escola primária, ninguém conseguia perceber que não eram crianças dinamarquesas. Eu penso que a coisa mais importante para as crianças é que se sintam iguais no meio das outras."

Uma outra mulher bósnia teve uma experiência diferente - a sua filha tinha 6 anos quando chegaram à Dinamarca, mas as crianças não estão autorizadas a frequentar as escolas dinamarquesas durante os três anos em que aguardam asilo. Neste período, ela ia à escola num centro de refugiados (onde viveram durante 10 meses), depois passou dois anos nas chamadas escolas bósnias onde lhes era ensinado dinamarquês, mas durante o primeiro ano teve sete professores diferentes da língua. Só após três anos (quando lhes foi concedido asilo) é que a sua filha foi autorizada para ir uma escola normal dinamarquesa.

"Finalmente, teve autorização para entrar no terceiro ano de uma escola normal dinamarquesa, mas sentia-se lá profundamente inferiorizada por causa da língua. Agora, está a frequentar o sexto ano e ainda se fazem sentir as consequências. Ainda se sente insegura e afastada. Alguns meses atrás, usou pela primeira vez a expressão "Nós os dinamarqueses". Ao todo, foram precisos seis anos para dizer isto. Foram precisos três anos para uma criança que chegou ao país com seis anos aprendesse a língua."

As diferenças culturais e as perspectivas sobre a educação desempenham um papel na satisfação dos pais acerca da educação que os seus filhos recebem: um refugiado iraniano falando do sistema escolar dinamarquês:

"São duas culturas diferentes. No meu país, as crianças não podem decidir se querem ou não fazer os trabalhos de casa. As crianças lá só têm que fazer os trabalhos de casa. Aqui discutem com os professores acerca disso. Devido a este facto, entre outras coisas, o nível de conhecimento aqui é muito mais baixo do que no meu país."

O papel da Formação Profissional

A reintegração das pessoas desempregadas através da formação profissional é uma prática bem estabelecida nos Estados-Membros. Contudo, isso nem sempre conduz ao emprego. A falta de aconselhamento cuidadoso e de orientação em muitos países conduz a pretensões bastante idiotas acerca do nível de formação apropriado para os refugiados. Os refugiados podem achar o apoio inadequado para conclusão dos cursos do ensino superior, embora lhes seja oferecida formação de nível inferior: uma mulher sudanesa fez um comentário que aqui se aplica grandemente:

"Nem todos os refugiados precisam de ir para cursos básicos. Alguns deles são altamente qualificados. Seria melhor se soubessem quem é altamente qualificado e o que é que podem fazer por eles."

Alguns cursos de formação podem ser manifestamente muito úteis. Assim, uma mulher romena relata a sua experiência positiva do curso de Orientação (Orientierungskurz) oferecido pelo Serviço Austríaco de Força de Trabalho:

"este curso ajudou-me imenso no que se refere ao meu posicionamento no mercado de trabalho."

A formação, muitas vezes, é seguida simplesmente como sendo, na falta de emprego, qualquer coisa para fazer.

Um jornalista da televisão ruandesa que vive na Áustria diz:

"Bem ... a formação que eu estou a fazer agora, estou a fazê-la porque não tinha mais nada para fazer. Eu devia ter pedido para frequentar formação que me ajudasse a praticar ou a pôr em prática as qualificações anteriores que possuo, como o período de ensino e o período jornalístico. Infelizmente, não consegui esse tipo de formação. Então, escolhi informática porque está na moda e espero que nos próximos dois ou três anos ainda continue na moda e eu possa viver disso."

Nalguns países, os refugiados têm manifestamente dificuldades no acesso à informação sobre a disponibilidade de cursos de formação profissional, tal como nos conta um curdo da Turquia que vive na Grécia:

Eu gostaria de frequentar cursos de formação profissional, mas não é fácil ter informação acerca disso. Geralmente, são os meus amigos que me informam quando sabem qualquer coisa ... no passado, frequentei um curso de formação profissional, mas é muito difícil encontrar trabalho a seguir."

Este último comentário encontra eco em toda a Europa - a formação profissional não leva, muitas vezes, a lugar nenhum, mas em certos países pode ser a única coisa disponível para dar apoio a um refugiado que não tem um trabalho adequado; mais uma vez na Grécia, uma refugiada do Iraque afirma:

"Eu espero encontrar trabalho após o curso de formação profissional ... Não está muito relacionado com os meus estudos anteriores, mas pelo menos é qualquer coisa ... O meu marido fez um curso de formação profissional, mas não conseguiu emprego."

A falta de ligação ao emprego é comentada por uma enfermeira bósnia que vive na Dinamarca há 6 anos e fez um curso de reciclagem como enfermeira:

"Não, não tenho qualquer experiência de formação profissional. Graças a Deus consegui escapar. Eu procurei muito, todo o tempo, manter-me realmente afastada disso. Eu não tenho confiança nenhuma na formação profissional deles. Um grande número de refugiados teve uma má experiência. Em muitos casos, isso parece: uma pessoa trabalha três ou seis meses, por vezes até um ano inteiro, durante esse tempo ainda se recebe o dinheiro da segurança social e, depois, quase ninguém consegue emprego verdadeiro. É por causa disso que eu não tinha vontade nenhuma de frequentar um curso de formação profissional."


 

Capítulo 9:
     SAÚDE


A questão da saúde tem, nas narrativas dos refugiados, uma feição positiva; as suas experiências, em praticamente todos os Estados-Membros, foram boas no que respeita ao tratamento e à hospitalização. Os seus principais problemas surgem com a mudança de país e as dificuldades de adaptação a um novo clima; os problemas particulares de saúde que já tinham, antes de vir para o país, e, finalmente, as diferenças culturais importantes ao confrontar os problemas de saúde e o relacionamento com os doentes.

Lidar com problemas de saúde pré-existentes

O facto de muitos refugiados virem de áreas em conflito ou guerra civil, de regimes totalitários e repressivos, dá azo a problemas específicos de saúde relacionados com má-nutrição, tortura, doenças psicológicas e angústia. Muitos conheceram serviços de saúde e de tratamento deficientes antes da chegada. O assunto abordado por um jovem eritreu, ao iniciar a sua entrevista, está relacionado com os problemas de saúde resultantes de uma bala, durante a guerra no seu país:

"Eu ansiava por tratamento médico. O que eu admiro na Holanda são os cuidados de saúde. Eu estou muito agradecido por isso."

Um homem de 40 anos do Burundi começa a sua curta história de abertura dizendo que foi bem tratado e explicou que, quando chegou, sofria de problemas de rins e ficou um ano no hospital. A guerra implicava que ele não podia regressar e teve de trazer a mulher e os seus quatro filhos dois anos mais tarde dado que a guerra continuava. Foi bem tratado; deram-lhe uma casa e ele, a mulher e os dois filhos mais velhos receberam o estatuto de refugiado. Ele sente-se muito agradecido porque foi bem tratado e diz:

"Eu fui muito bem recebido. Agradeço à Bélgica."

Os traumas por que passaram recentemente muitos refugiados continuam a afectar a sua saúde mental quando chegam ao país de asilo. Uma mulher zairense, com 30 e tal anos, começa a sua narrativa sobre a questão inicial descrevendo que à sua chegada a Itália precisava de ser operada devido a um problema de saúde, tendo sido transferida, depois disso, para um centro de acolhimento:

"Lá, a vida é muito, muito difícil. Eu lembro-me que como estava doente pensava que ia morrer e que era melhor morrer. Embora eu estivesse doente, tinha de fazer tudo, cozinhar, limpar, etc. Era muito difícil para mim ... mas este psiquiatra ajudou-me muito ... e todas as semanas marcava-me uma consulta e depois, aqui, foi-me indicado um psicólogo que me está a ajudar; agora, eu vou lá todas as semanas; mas, além dessas coisas, desde Janeiro que tive a possibilidade de comunicar com a minha família e a carta que recebi do meu pai, para mim isso foi, hum, eu não sei, não consigo explicar: "Ah, então é verdade, ele está vivo", porque eu vi isso na carta e tudo o mais. Para mim, isso tornou-se, dantes, mesmo se ..., lembro-me, num centro onde eu estive, num centro, uma mulher, só havia quatro pessoas, esta mulher teria feito qualquer coisa, teria-me deixado sair, eu penso que do Centro Astalli falaram com ela, de que eu precisava ... ela teria-me deixado sair, nós também podíamos ir ao restaurante comer e ir ao parque, mas para mim tudo isso era inútil, podiam dar festas, tudo, mas para mim era inútil. Porém, depois de receber estas cartas, para mim isso foi uma grande, grande, grande mudança. Também tinha começado a universidade em Outubro porque me tinha matriculado; é verdade que com os medicamentos, com os medicamentos psiquiátricos era uma confusão; não conseguia concentrar-me; não havia conexão entre ideias, mesmo se conseguisse ler uma frase, antes de chegar à terceira palavra já tinha esquecido a outra. Então, ler, tudo era muito mais difícil. Mas também havia o problema dos meus pensamentos, tudo me fazia ficar confusa: quando eu queria ler, eu julgava ouvir: ‘O pai dela morreu, foi morto. A mãe dela também morreu. E o irmão dela ... ‘ e tudo (riso breve) e todos, porque eu vivi ... não, é difícil falar de tudo o que nos aconteceu. Eu lembro-me quando os militares entraram em minha casa, atiraram, à casa, felizmente, felizmente para mim não mataram ninguém da minha família, embora tivessem levado o meu pai, agora ele está vivo; mas tudo isto vinha à minha cabeça, era como se (pausa) como quando eu vivi estas situações eu tinha força, eu era forte, mas eu vivi este período como se fosse o momento em que vivi todas essas coisas, eu vivia todas essas coisas noite e dia, a sonhar, sonhar, sonhar, não só a sonhar, a andar, a falar com as pessoas, eu ouvia essas vozes".

Aspectos culturais

Uma questão levantada pelas mulheres refugiadas nas suas observações iniciais acerca da saúde era que se sentiam mal com a organização dos serviços de saúde e o facto de terem de ser observadas por um médico. Uma sudanesa com um bom nível de instrução, uma mulher muçulmana, na Áustria, afirma:

"Uma vez, fui ao raios X fazer um exame. Ele pediu-me para despir a blusa. Eu fiquei chocada. Como é que eu podia tirar a blusa na presença de um homem estranho. Para mim isto não era lógico, mas para ele era normal..."

Uma outra mulher sudanesa, no Reino Unido, conta algo semelhante:

"Na nossa terra, se temos vergonha de falar com um médico, há a possibilidade de ir a uma médica. Mas aqui não temos escolha. Também temos dificuldades com a língua. Embora tenha aprendido inglês, não falo com um inglês, então é claro que uma pessoa quer-se explicar e pode acontecer que não se entenda o que quer dizer. Também as pessoas que trabalham nas consultas, enfermeiras, etc. não são sensíveis".

Fala acerca do problema dos testes ginecológicos e de como é difícil, para as mulheres da sua cultura, só o facto de terem de "abrir as pernas". Comenta também a falta de continuidade nas clínicas de cuidados primários de saúde, deparando-se com um médico diferente cada vez que se vai à consulta. Sendo ela própria uma trabalhadora qualificada de saúde, coloca uma outra questão importante:

"Nós estamos habituadas a um médico que nos toca, nos ausculta o peito, mas aqui é só conversa. E como nós somos estrangeiros e não nos tocam, nós pensamos que talvez tenham medo de contrair doenças infecciosas como a SIDA. Todas estas coisas nos passam pela cabeça."

Saúde mental

Tendo em consideração os problemas psicológicos e o stress a que estiveram sujeitos muitos refugiados, é evidente a necessidade de sensibilização no domínio da saúde mental. No entanto, uma jovem mulher curda, iraquiana, que vive no Reino Unido, queixa-se de que os médicos não ajudam os refugiados, contando a sua experiência quando sofria de depressão:

"Eu fui ao médico e falei-lhe da minha depressão e ele não me ajudou."

O mesmo problema é levantado por uma refugiada peruana, estudante universitária, que vive em Espanha e que conta como estava deprimida quando chegou; agora está melhor, mas acha que são necessários serviços de aconselhamento e de orientação para ajudar os refugiados:

"Eu não cheguei ao ponto de precisar de apoio psicológico, mas além daquele apoio para resolver os problemas de onde comer, onde viver, um certo apoio emocional, bom, esse tipo de apoio não encontrei. Tu só o consegues quando a situação é perigosa. Mas outro tipo de problemas, não é tido em consideração."

A longa espera pelo estatuto de refugiado foi referida como sendo um factor crítico na depressão de muitos refugiados.

"Esperar pelo reconhecimento do nosso estatuto, bem, para mim foram 15 meses, para outros foram mais de 3 anos, algumas pessoas ficaram com problemas psicológicos, depressão, frustração e alguns até se suicidaram" - conta um sudanês com instrução, com cerca de 30 anos.

Os problemas de saúde associados à condição de ser refugiado são referidos por um homem em Portugal

"Eu lembro-me dos dois primeiros meses; não conseguia dormir e, no dia seguinte, no trabalho, sentia-me mal e com alguma esperança de ultrapassar tudo isso. Aquelas contínuas fortes dores de cabeça ... Eu tive de ir ao hospital e tentei explicar tudo no meu português macarrónico e o médico não pode fazer mais nada, só me receitou alguns medicamentos que não me fizeram nada. Mas, devo dizer que o médico e a enfermeira eram bons e falaram comigo e perguntaram-me de onde era e há quanto tempo estava em Portugal."

Um outro refugiado do Kosovo faz um comentário sobre saúde mental que se aplica aos refugiados em muitos países:

"Se acontecem coisas más no nosso país, nós estamos há dois meses em Itália, mas só fisicamente"

Um comentário semelhante foi feito por um iraquiano quando lhe perguntaram acerca da sua saúde, dizendo inicialmente que não tinha problemas e nunca tinha estado doente, prosseguindo:

"Aquilo que eu sinto que não me faz bem é que eu penso muito acerca do futuro, no Iraque. Sinto-me muito ansioso em relação a isso; francamente, é mau para a saúde. Penso acerca do futuro dos meus filhos que têm de viver nesta sociedade que é diferente da nossa. Eu reflicto imenso, mas não vislumbro qualquer solução."

As consequências do desemprego e da exclusão são abordadas por um refugiado congolês que começa por dizer que está muito satisfeito com o tratamento clínico:

"Eu sofri torturas no meu país. Então, pedi-lhes para, pelo menos, me examinarem. Eu tinha realmente muitos problemas com a minha saúde, mas agora sinto-me muito bem. Não há problemas. Bravo, Luxemburgo. Estou muito satisfeito."

Mas, um pouco depois, fala da incapacidade de se sentir bem psicologicamente por não conseguir arranjar emprego:

"Do ponto de vista psicológico, não estou muito bem, não estou tranquilo. Eu não era um homem livre, foi por isso que lutei contra o regime do ditador Mobutu. Ao chegar aqui, do ponto de vista psicológico, não estou tranquilo, não estou bem. Porquê? Porque não tenho trabalho. Você compreende o que eu quero dizer Sr. ...fica-se em casa de manhã até à noite. Os pais das outras crianças vão trabalhar, os meus filhos vão para a escola e um deles diz que o pai foi para o trabalho ..... Agora, psicologicamente, eu não estou bem, é o choque."

Uma refugiada iraquiana ao falar sobre o seu bem-estar mental na Grécia conta ao entrevistador:

"Quando aqui chegámos, eu sentia-me forte. Mas agora sinto-me desesperada. Não esperávamos que a situação fosse tão má. Nós ficámos surpreendidos."

Um outro ponto referido por um refugiado ruandês diz respeito à importância das diferenças culturais nos tratamentos de saúde mental; céptico acerca do tratamento psicoterapêutico que foi dado a um companheiro que é das Antilhas, ele afirma:

"Eu duvido muito da eficácia deste tipo de tratamento para pessoas que pertencem a sociedades tradicionais onde os costumes, o saber e a religião têm ainda um papel importante na cabeça das pessoas. Além disso, ir e exibir a sua vida em frente de um grupo de pessoas com problemas não parece nem saudável, nem o tipo de coisa que vai melhorar a situação ... Eu penso que se podem causar muitos danos quando se distanciam as pessoas das suas próprias culturas e, no final, qual é o resultado? Jovens que não estão bem consigo próprios, que já não respeitam nada e que, em última análise, estão desequilibrados."

Comunicação

Alguém que já esteve doente ou que tenha necessitado de cuidados médicos num país estrangeiro, como mostra o exemplo anterior, sabe como pode ser frustrante ter de explicar a sintomatologia numa língua estrangeira, exactamente num momento em que não nos sentimos bem, sentimo-nos assustados e incapazes de resolver a situação. Um exemplo típico foi-nos dado por uma mulher sudanesa que falava acerca do facto de, na Áustria, onde vive, toda a informação sobre a gravidez estar em alemão.

"Como é que uma mulher africana ou árabe tem informação completa sobre a gravidez se não conhece a língua?"

Não há forma de apurar o que é que aconteceu nas situações descritas abaixo; fica o sentimento de que, ao menos, alguns dos problemas giram mais em torno da má comunicação do que do mau tratamento. Uma mulher iraquiana refugiada na Grécia fala sobre o problema de comunicação com os médicos:

"A minha filha tinha um problema nos olhos, mas o médico começou por examinar o estômago".

e uma mulher síria que vive na Holanda fala na narrativa inicial dos problemas de saúde do filho e da fraca qualidade do tratamento que recebeu:

"Eu não estou nada satisfeita com os cuidados de saúde aqui. O meu filho foi operado duas vezes sem razão. O médico disse-nos que a criança devia ser operada às amígdalas, mas o meu filho continua a não dormir bem. Um ano depois, teve uma dor de estômago, mandaram-nos para o hospital para ser operado à apendicite, mas, depois da operação, aperceberam-se que isso não teria sido necessário. O meu filho foi operado duas vezes para nada."

As diferenças culturais podem também ser um obstáculo ao diagnóstico das doenças mentais e físicas: um caso destes é-nos ilustrado por um iraniano na Dinamarca que, embora estivesse, na generalidade, satisfeito com o sistema de saúde, também afirmou que tinha saudades do seu país, tinha muitos problemas de saúde e esquecia-se das coisas a toda a hora.

"Eu tenho problemas de estômago há muito tempo. O problema é que eu não sei o que fazer. No meu país se for consultar um médico, ele ou ela sabem o que fazer. Aqui eles perguntam-me se eu quero fazer análises de sangue ou fazer algum exame especial."

Cuidados de Saúde

Como já foi mencionado, as experiências dos refugiados com os sistemas de saúde em muitos países foram na globalidade esmagadoramente positivas. Um refugiado curdo, em França, conta que ficou muito contente com o tratamento a que foi submetido num hospital e atribuiu isso ao entendimento da situação no seu país de origem:

"Eu fui muito bem tratado pelos médicos e enfermeiras. Quando sabiam que eu era do Curdistão, ou seja, de um país que a população sofreu massacre após massacre durante 20 anos, eram muito simpáticos comigo. Conhecendo certos amigos ou membros da minha família na Europa, penso que sobre este assunto tudo está OK."

Uma refugiada do Ruanda estava deliciada pelo modo como foi tratada quando foi ter um bebé num hospital em França:

"Eu gostei realmente da qualidade do acolhimento no hospital, as pessoas eram simpáticas, especialmente as enfermeiras; no parto, as parteiras foram muito simpáticas."

Um mulher bósnia fala da boa experiência que teve com o pessoal médico:

"Eles eram muito simpáticos - eles sabem como ser simpáticos. Eu nunca estive muito doente ... O meu marido, que ficou ferido durante a guerra, teve muitos problemas ao princípio. Ficou durante um ano no hospital. Não percebia a língua, não conhecia a cultura deles e, por vezes, zangava-se. Era portanto um problema de língua, mas, tirando isso, eram simpáticos com ele e, depois, é um trabalho bem pago (rindo). O Luxemburgo é um país rico, existem muitos meios e o acesso aos cuidados de saúde não é difícil".

A organização do sistema nacional de saúde que não assegura a continuidade em termos do pessoal médico constitui um problema, tanto para as pessoas da sociedade de acolhimento, como para os refugiados; as diferentes expectativas e o problema de, cada vez que se tem consulta, ter de falar a um novo médico sobre a sua situação médica são questões específicas para os refugiados. Uma mulher refugiada liberiana na Grécia conta ao entrevistador:

"Quando eu estava grávida, costumava ir ao médico, mas não era sempre o mesmo médico. Tinha de explicar todas as vezes a minha situação. Eu sentia-me sozinha e desamparada."

A falta de informação acerca do sistema de saúde na Áustria e os perigos de não se estar coberto por um seguro de saúde que está dependente de se ter um emprego ou de ter direito a subsídios sociais (para isso, uma pessoa tem de ficar num emprego pelo menos 12 meses) podem desencadear problemas tremendos como ilustra a narrativa de um refugiado do Ruanda que fala das suas dificuldades num período entre empregos e não teve seguro de saúde durante dois meses. O seu filho ficou doente e teve de ficar hospitalizado durante uma semana:

"Depois recebi a conta. A conta eram 55000 xelins (3666 Euros). Eu tinha 3000 (200 Euros) na minha conta bancária e era tudo. Eu nem consigo explicar como é que eu fiz para pagar a conta, mas consumiu-me tempo, nervos e energia pagar a conta... Eu realmente não sabia até que ponto ou como é perigoso viver aqui sem seguro. Esta informação devia-me ter sido dada quando fiz o curso de integração..."

A situação dos refugiados expostos a novos riscos, a trabalho difícil, temporário e perigoso e a determinação de que necessitam para cuidar de si próprios, uma vez que esta vida é a única que possuem, pode ajudar a mudar a sua filosofia de vida de acordo com o novo rumo que esta toma. Dois refugiados em Portugal resumem isso deste modo:

"Era um desastre quando cheguei à Europa, mas agora eu deixei de pensar muito e aceito as coisas como elas são e para isso eu não me dou ao luxo de ser fraco e tenho de me cuidar...".

É muito importante que se saiba que os refugiados sofrem muitíssimo. A minha tendência era desleixar a saúde e agora eu percebi que a saúde é uma grande riqueza."


 

[Índice]  [Página anterior]  [Página seguinte]