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Capítulo 10:
    HABITAÇÃO


Quando chegam como requerentes de asilo, poucos refugiados têm opção quanto ao seu local de residência. A experiência do acolhimento inicial revelou-se enormemente variada entre os refugiados entrevistados. Parece que isto está relacionado com o país de acolhimento, os campos de recepção, a idade e as expectativas dos refugiados e, ainda, o tempo que lá permaneceram. Alguns, especialmente no sul da Europa, não beneficiaram de facilidades iniciais de acolhimento, tendo sofrido por causa disso. Mas, mesmo quando lhes é concedido o estatuto, a ausência de opção e a natureza problemática da habitação mantêm-se frequentemente.

Acolhimento inicial

Embora o período de determinação do asilo não seja matéria deste relatório, vale a pena sublinhar o facto dos refugiados reconhecidos passaram períodos consideráveis em campos de refugiados, um assunto que já foi abordado no Capítulo 5. Um gambiano, já a terminar a casa dos 30, contou a sua história sobre o reconhecimento do estatuto, 6 meses após ter chegado a Espanha, em 1996:

"Não foi fácil, especialmente quando aqui cheguei por causa da língua. E as condições não eram boas de todo. Acontece que eu vivi num Centro de Acolhimento num quarto com 18 refugiados e às 8:00 toda a gente tinha de sair. O Centro está fechado durante o dia até às 6:00 da tarde, quando reabre e nos é permitido entrar. Eu tive sorte porque um mês e meio depois saí do Centro. Fiquei com alguns amigos gambianos e, aí, ao menos, as minhas condições de vida melhoraram. Pelo menos comia o tipo de comida que estava habituado e levava um tipo de vida a que estava habituado."

Um outro jovem gambiano, em Portugal, enfrentou um problema semelhante e, embora contente com o programa de língua e integração fornecido pelo Conselho Português para os Refugiados, declarou:

"Quando aqui cheguei, o Conselho para os Refugiados dava-nos comida e nós não estávamos habituados àquele tipo de comida. Na verdade, agora estou satisfeito porque estou por minha conta, posso fazer a comida que costumava comer em casa".

O fornecimento de alojamento inicial resolve o problema de muitos refugiados à chegada, mas, muitas vezes, as dificuldades começam quando têm de encontrar o seu próprio alojamento. Um albanês do Kosovo, com formação universitária e cerca de 40 anos, começou a sua narrativa em resposta à pergunta aberta falando sobre a sua experiência, depois de viver num centro de acolhimento durante 2-3 meses:

"Depois os meus problemas começaram porque tinha de encontrar uma casa".

A mesma situação é referida por uma iraquiana cristã, com instrução, que diz que um dos seus problemas principais para a integração em Espanha foi a habitação, porque as pessoas não se sentem seguras sem ter casa. Ela conta como permaneceu num centro de refugiados durante um ano e, quando teve de sair, não tinha para onde ir, tendo de aceitar um emprego qualquer para se manter e poder alugar casa.

"Nós podemos ficar num centro durante um ano ou 6 meses e, depois, quando te vês na rua sem trabalho, sem nada ... essa é a situação mais grave".

As condições inadequadas de acolhimento em muitos países do sul da Europa leva a outro tipo de soluções, p.ex.: quartos sobrelotados. Em Portugal, revelaram ao entrevistador que uma estratégia habitual consiste em os homens partilharem um quarto, enquanto que as mulheres tendem a adquirir alguma protecção para alojamento por parte de uma ONG. Embora por fim os homens sejam deixados por sua conta, como relata um refugiado:

"... Muitos alugam uma casa grande e dividem o quarto com 4/5 pessoas para que seja mais fácil pagar a renda e as contas da electricidade, do gás e da água ... A maior parte dos refugiados homens já têm uma casa ou um quarto após um período de 2/3 meses."

A escolha da habitação

Muitos refugiados apoiam-se nas autoridades para encontrarem habitação social. A qualidade e a localização dessa habitação é frequentemente problemática, como nos conta uma mulher bósnia:

"O apartamento estava situado na parte velha de Copenhaga onde os dinamarqueses "normais" não vivem. Nestes apartamentos há sobretudo toxicodependentes e alcoólicos, então eu tornei-me, de certa maneira, num deles. O maior problema era que não havia casa de banho no apartamento pois muitos dinamarqueses vivem sem casa de banho, mas eu não estava habituada a viver sem casa de banho, estava habituada a viver em condições humanas ... Eu costumava tomar banho em casa de amigos. E sempre que tomava banho ficava doente e tinha sempre febre. Eu tive grandes problemas de saúde nessa altura."

Um curdo comenta o seguinte:

"Eu não aprecio a política de habitação dinamarquesa. Por exemplo, o andar onde eu vivo está situado num bairro densamente povoado por estrangeiros. Existem cerca de quatro ou cinco centenas de andares e estão todos ocupados por estrangeiros. Então, no meu ponto de vista, a política do governo é de segregação. As pessoas com origem estrangeira, independentemente dos seus diferentes antecedentes e culturas, são ali alojadas."

Uma mulher congolesa com 30 e tal anos que vive na Bélgica, na resposta à pergunta aberta inicial, fala acerca das dificuldades de encontrar uma casa por causa dos preconceitos contra os estrangeiros, uma vez que as condições da habitação social são bastante precárias para todos, estrangeiros ou não. Além disso, há longas listas de espera para a habitação social

"e, mesmo quando se consegue, precisam de obras."

Um outro problema reside no facto de, em muitas situações, os refugiados não terem direito a recusar a habitação social que lhes é oferecida, mesmo se acharem que é inadequada. Um curdo, com instrução e com 40 e tal anos, realçou a dificuldade de conseguir uma casa sem emprego, sendo isto ainda pior para um refugiado, especialmente se for solteiro, que tenha passado vários anos em campos de refugiados. Sublinhou que, se o município propõe uma casa, esta deve ser aceite:

"Insisto nisto como uma questão porque quase fui expulso do CPH (Centro Provisório Habitacional) e passei por vários quartos desconfortáveis antes de encontrar qualquer coisa por mim mesmo".

Discriminação

A existência de discriminação contra muitos estrangeiros na maioria dos Estados-Membros em termos de habitação e mercado imobiliário não é nova. Uma mulher do Sri Lanka fala dos efeitos que isso provoca:

"Os estrangeiros pagam uma renda mais alta do que os alemães. Uma família alemã paga apenas cerca de 500 DM enquanto nós temos de pagar 1000. Com a comissão e a caução foram 7000 DM. Tivemos grandes problemas financeiros."

Apesar disso, refere que o senhorio era muito simpático para eles, deixando que o marido fosse o encarregado do bloco de apartamentos.

"Embora houvesse alemães no nosso bloco de apartamentos, preferia que nós tomássemos conta de tudo no bloco. Estamos muito orgulhosos por isso. Os vizinhos também são simpáticos connosco."

Uma mulher da Eritreia na Alemanha conta ao entrevistador como lhe foi difícil arranjar um apartamento porque estava grávida.

"O senhorio quis visitar o local onde vivíamos para ver como era, se estava limpo. Só depois de lá ir e ter visto é que nos autorizou, depois, a ficar aqui".

Uma mulher iraquiana curda com 40 anos afirma que agora anda à procura de um apartamento porque o bebé necessita de outro quarto, mas que não é fácil de encontrar.

"Embora sejamos cidadãos alemães vêem que temos cabelos pretos. Dizem que ligam mais tarde, mas nada. Eu tenho mais 15 dias para sair porque recebi a notificação do senhorio e, se não encontrar um apartamento, acabo na rua."

Uma desenhadora iraquiana, com formação, casada, 40 anos, com ligações à igreja local conta-nos o conselho que lhe foi dado por um dinamarquês, membro da congregação:

"Não diga ao proprietário da casa que são refugiados. Diga-lhe apenas que o seu marido trabalha aqui como professor. Porque se eles descobrem que vocês são refugiados nunca vão conseguir a casa."

Uma jovem mulher liberiana na Grécia, nas suas observações iniciais, falou do alojamento e do facto dos gregos não gostarem de africanos nas suas casas.

"Eles pedem documentos, dizem que preferem estudantes e inventam desculpas para não alugar a casa. Ninguém na vizinhança nos facilitou uma casa para alugar. Continuamos a procurar."

Um ganês, com instrução, começou a falar acerca dos problemas que teve para encontrar alojamento.

"Contactei os senhorios, mas eles não queriam alugar as suas casas a refugiados. Eles discriminam porque se é refugiado. Pediram-me duas referências. Eu dei-lhes as referências e a caução requerida e recebi uma chamada da agência dizendo que não me podiam dar o andar a mim. Quando eu lhes perguntei porquê, disseram-me que o senhorio tinha retirado o andar do mercado. Quando a minha namorada ligou e fingiu ser outra pessoa, disseram-lhe para ir ver o andar. A maior parte das agências, 9 em cada 10, não querem tratar com requerentes de asilo ou refugiados."

Necessidades específicas de habitação

Um homem na Irlanda, proveniente do Congo, falou inicialmente de forma muito extensa sobre o problema que teve para encontrar casa, o que, segundo ele, se deve, em primeiro lugar, ao facto de ser solteiro.

"Para nós que ainda não somos casados, deveria haver muitas casas livres. Contudo, comecei à procura de alojamento para uma pessoa solteira e ainda não encontrei. Aonde quer que eu vá só há casas para pessoas casadas ... Não é bom para um solteiro partilhar a casa com pessoas casadas."

Uma sudanesa, solteira, com 20 e muitos anos, com habilitação do ensino técnico e que vive no Reino Unido, faz eco destes sentimentos:

"Eu estava sozinha, não era casada, fui colocada numa residência. Esta residência era paga pelo Conselho. Vivi na residência durante quase 4 anos, apesar de ter mais de 25 anos e de as raparigas ali terem entre os 16 e os 25 anos. Não me era oferecido alojamento por eu não constituir uma prioridade para habitação, então veio a tentação de ter uma criança porque eu pensava que isso me faria sair daquele ambiente".

A habitação também depende de se ter rendimento; nos Estados-Membros do sul, desprovidos de apoio social adequado, alguns refugiados podem ficar sem abrigo; um argelino que vive em Itália comenta:

"Eu encontrei uma casa, há outros refugiados, refugiados políticos reconhecidos que dormem na rua, isso dói-me. Eles podem tornar-se alcoólicos, pedintes e não é culpa deles. É culpa da Comissão que não aplica o estatuto."

 

Soluções

Eventualmente, um certo número de refugiados consegue dispor de condições habitacionais estáveis e, até mesmo, comprar uma casa; uma mulher afegã, com 30 e muitos anos e dois filhos, referiu, na sua resposta à pergunta inicial, os problemas de habitação em Espanha. A CEAR ajudou-a a arranjar um andar pequeno porque ela tinha duas crianças e, após 3 anos e com o apoio deles, conseguiu comprar uma habitação social através do Instituto de Habitação de Madrid que também a ajudou a mobilar o apartamento.

Num outro comentário efectuado por uma refugiada síria em Atenas ecoam outras experiências:

"No princípio era muito difícil encontrar uma casa. As pessoas têm medo porque pensam que os estrangeiros vêm para a Grécia ganhar ou roubar dinheiro, mas não é assim... Agora, eu conheço os meus vizinhos muito bem. Tenho os meus contactos. Se um amigo me pedir para arranjar uma casa eu consigo fazer isso para ele muito rapidamente. Agora, as pessoas confiam em mim porque me conhecem."

  Capítulo 11:
     REDES SOCIAIS, RACISMO E ESTRATÉGIAS PESSOAIS PARA INTEGRAÇÃO


Em todas as sociedades existe alguma discriminação social; apesar da retórica acerca da igualdade do homem, muita gente tem a tendência para mostrar a sua preferência por pessoas que são como elas e discriminam as outras em virtude dessa dissemelhança. As diferenças sexuais, laços de sangue, educação, comunidade, rendimento, idade - a lista das formas ou "razões" que as pessoas usam como formas de discriminação contra as outras é longa. Os refugiados chegam a um novo país também com os seus próprios preconceitos, assim como as suas expectativas podem entrar em conflito com a sociedade de acolhimento. Isto é particularmente evidente nas reacções dos refugiados a questões relacionadas com o género. No entanto, o passado colonial e o domínio económico da maior parte dos países europeus causou efeito sobre as atitudes de muitas pessoas na sociedade de acolhimento, mesmo quando não interiorizem as suas atitudes como racistas. É sobretudo a cómoda pretensão de superioridade que se reflecte em muitas das suas relações com os refugiados. Muitos refugiados, sendo eles próprios dos sectores mais prósperos e instruídos do seu próprio país, enfrentam estas atitudes com consternação, sentindo-se feridos e surpreendidos com o racismo com que frequentemente se confrontam, seja explicita ou implicitamente. Das entrevistas surgem diferenças entre os Estados-Membros.

Racismo e Preconceito

Praticamente em todos os Estados-Membros os refugiados foram confrontados com racismo, embora pareça que se trata de uma experiência mais comum e intensa em certos países do Norte da Europa. O racismo reveste-se de várias formas, todas elas magoando os refugiados: se não magoassem, não teriam mencionado essas experiências nas entrevistas. A cor não é a razão para o racismo, se bem que as pessoas de África sofram particularmente. Uma das histórias mais terríveis é-nos contada por um africano na Irlanda, se bem que esta história pudesse ter ocorrido em numerosos Estados-Membros:

"O agressor espetou-me um garfo e foi-se embora e toda a gente à volta só olhava, era como num filme. Ninguém me ajudou, excepto um homem idoso que me deu o seu lenço para estancar o sangue. O que é que eu tinha feito de errado? Eu só estava sentado sem me mexer. E entre toda a gente que estava à volta, ninguém sequer exprimiu o desejo de testemunhar que eu estava inocente e que devia ser levado para o hospital. Eu tive de me levantar e de me deslocar para o hospital; como não sabia falar inglês, não sabia como chamar uma ambulância e o que dizer se fosse a uma esquadra da polícia. Então, fui ao posto médico

Um zairense conta-nos a sua experiência após se ter divorciado da mulher finlandesa:

"Neste sistema, tratam-nos a nós, estrangeiros, como animais. Eles tratam-nos sempre como negros. Isso não é bom. Eu tenho experiência disso aqui com uma mulher finlandesa. Eles fizeram-me sofrer por causa dos meus dois filhos ... É melhor ir-me embora e morrer em África. Os problemas que aqui tive fizeram-me sofrer, mas só quero dar-lhes, aos meus filhos, a minha identidade correcta. Eu tenho de organizar a minha vida. Eles tratam os estranhos como se fossem lixo. Aqui eles respeitam os cães, mas não respeitam os pretos."

Uma jovem mulher liberiana em Atenas afirma:

"Eles não gostam de quem vem de países do terceiro mundo. Os italianos e americanos são tratados correctamente porque são como eles. O resto como nós, olham para baixo como se fossemos inferiores. Que mal é que nós lhes fizemos?

Um sentimento semelhante é exprimido por um peruano que vive em Espanha:

"As pessoas dos países do terceiro mundo são olhadas como cidadãos de terceira ou de quarta categoria e não deveria ser assim porque todos nós vivemos no Planeta Terra. Nós temos o direito de estar onde quisermos ... Eu penso que nos devem qualquer coisa, não devem? Em diversos países da Ásia, África, América Latina, apoderaram-se dos recursos naturais para que a Europa se industrializasse a partir daí. Então, a Europa tem de retribuir algo a quem vem, nada mais."

A discriminação é sentida em vários sectores da vida - no trabalho, habitação, educação, relações sociais. Uma mulher da Eritreia de 30 anos e com educação ao nível secundário, que vive na Alemanha há 11 anos, não tem tido boas relações com os seus colegas alemães:

"Nós éramos 3 na secção de legumes e eu era a única estrangeira, os outros dois eram alemães. Eles queriam que eu fizesse o trabalho todo. Mais tarde, fiquei grávida e tive licença de parto ... Os meus vizinhos são todos alemães. Nós não nos cumprimentamos como seres humanos, mesmo se nos encontrarmos na cidade ou nas escadas. Tenho andado à procura de outro apartamento nestes 3 últimos anos, mas não consigo encontrar nada."

Um africano no Reino Unido declara:

"Na minha opinião não é fácil a adaptação, especialmente se és de cor e vieres para Inglaterra. Começa na escola, onde se encontram alguns professores que não ajudam nada. Eu tive problemas com a língua e estava à espera de um apoio extra ... Existe falta de encorajamento se fores de cor."

Alguns refugiados ficam admirados com os níveis de ignorância e de preconceito com que se deparam nas sociedades de acolhimento e isso é seguramente a principal explicação para o grau de racismo nas sociedades de acolhimento. Uma mulher sudanesa, com instrução, falou da sua experiência quanto à perspectiva austríaca sobre as mulheres africanas:

"É uma tragédia quando encontras um austríaco que te pergunta" Existem outras mulheres com formação no seu país além da senhora? Depois, eu pergunto-me «Nós temos muita informação acerca da Europa, mas porque é que os austríacos não sabem nada acerca de nós?»"

Uma mulher congolesa, com formação tecnológica e 30 e tal anos, acentuou a importância das relações sociais para encontrar trabalho e ultrapassar o isolamento. Ela tem vizinhos e amigos belgas, mas há uma tendência geral para pensar que se és preto pertences à classe baixa.

"Uma vez que te conhecem, começam a mostrar-se interessados e a reconhecer que tens qualquer coisa na cabeça."

Muitos refugiados estão cientes de que o preconceito e a discriminação são experiências que já viveram nos seus países de origem e que não se limitam apenas ao período em que vieram viver para a Europa. Uma mulher sudanesa, com instrução, falou construtivamente acerca da discriminação que sente:

"No meu país existia uma certa discriminação contra as pessoas do sul em virtude da sua origem. Eu costumava considerá-los como cidadãos de segunda categoria. Quando senti isso no meu novo trabalho (na Áustria), em que as minhas qualificações anteriores foram completamente ignoradas, descobri o que é discriminação e fiquei com outra percepção... Mais tarde, ela diz: "A discriminação em relação a mim própria não parte apenas dos austríacos, fui discriminada por árabes e por africanos também. Eu sou de origem afro-árabe e, às vezes, deparo-me com um amigo árabe que me pergunta como é que eu falo árabe ou um africano que me pergunta de onde é que eu sou, reagindo negativamente. Eu sou um ser humano, independentemente da religião e do local."

Um peruano, em Espanha, que agora trabalha para uma ONG, fala da sua experiência:

"Além de ter de encontrar um emprego, fez com que encontrasse pessoas de outros países. Eu não tinha esta experiência no meu país, quer dizer, pessoas de outras culturas. Foi uma experiência muito importante na minha vida. Comecei a ver a questão cubana de modo mais humanitário. No passado, teria sido mais sectário e não gostaria de falar com pessoas que discordassem dos seus governos."

Um africano em Espanha diz:

"Em nunca tinha sentido racismo antes de vir para este país, mas existe racismo em toda a parte. Mesmo em África, porque toda a gente prefere a sua própria raça e é contigo como demonstras isso. Uma pessoa não deveria sentir-se superior ao seu semelhante.

Padrões culturais na sociedade de acolhimento

A percepção que os refugiados têm da sociedade de acolhimento é significativa, na medida em que isso se reflecte na capacidade e vontade dos refugiados se integrarem. Assim, o forte empenho cívico e democrático de apoiar os refugiados carenciados, proporcionando-lhes apoio prático para a sua integração, como se faz em muitos países, especialmente nos países escandinavos, pode não se reflectir no facilitar do relacionamento ao nível do quotidiano com a população local. Ao contrário, a amizade individual e o apoio que obtêm junto de muitos populares nos países do Sul não se reflecte na sociedade cívica, dada a ausência ou a natureza limitada da prática governamental de apoio aos refugiados. Nas narrativas dos refugiados existe um tipo de resposta no sentido de que os refugiados, nalguns casos, percepcionam os europeus como verdadeiros "estrangeiros", pertencendo a sociedades e culturas que eles não valorizam em aspectos concretos. Para alguns refugiados, esta posição torna difícil o uso do termo integração. Como disse uma mulher bósnia:

"Sempre que alguém fala em integração, o meu corpo arrepia-se. Quando alguém diz ‘integração’ a primeira imagem que me vem é que nós temos de ser como pequenos dinamarqueses. Não há hipótese nenhuma de nos tornarmos iguais a eles".

O espaço de tempo em que um refugiado viva num país receptor, bem como as políticas de recepção moldam as respostas às perguntas acerca da integração. As citações a seguir são ilustrativas do sentimento partilhado pelos refugiados de que ao virem para outro país, isso significa que têm de começar tudo de novo. Uma mulher somali sublinha que existe:

"uma dura realidade. Tu és como uma criança pequena a começar tudo novamente."

Um peruano em Espanha:

"Tu sentes-te como uma criança que deixaram sozinha na rua, totalmente abandonada."

O choque de se estar perante uma cultura diferente, por vezes pela primeira vez, surge nas respostas de vários refugiados. Isto não se prende com a educação, mas com valores fundamentais e pelo facto de não conhecerem a sociedade e as culturas ocidentais. Um jovem iraquiano refere o contraste entre a cultura oriental e a ocidental.

"Como sabe, os nossos costumes orientais são diferentes dos do ocidente. Ao chegar ao Luxemburgo, deparei-me com muitas dificuldades, mas agora, dois anos e meio depois, adaptei-me a esta sociedade que me deu refúgio".

Um tunisino com instrução afirma:

"Eu sou muçulmano e sou praticante. Há coisas que são muito importantes para me sentir calmo. Encontrei muitas pessoas de culturas diferentes e com comportamentos diferentes. Fiquei um bocado chocado com estes contactos, embora eu saiba que conhecer outras culturas é uma experiência rica."

O forte sentido de individualismo e o acentuar da privacidade nos países do Norte da Europa contrastam desvantajosamente com as sociedades de onde normalmente os refugiados são originários e que tendem a dar um grande valor à sociabilidade. Assim, as dificuldades referidas pelos refugiados em conviver com a população local, em comunicar com ela, em criar amizades, faz com que muitos deles se sintam excluídos: uma mulher bósnia com 40 anos realçou que convive com poucos dinamarqueses, salvo no ginásio ou no local de trabalho.

"Embora já viva na Dinamarca há mais de 6 anos, só tenho realmente dois ou três bons amigos dinamarqueses que me visitam e que eu os visito. Eu não sei porque é que é assim. Penso que não existe grande diferença entre as nossas tradições e as tradições dinamarquesas. Nós vivíamos na Bósnia da mesma maneira que as pessoas vivem aqui. O problema talvez seja a falta de interesses comuns."

Um iraquiano, com 30 e poucos anos, que vive no Luxemburgo, afirma:

"Quando se vive numa sociedade como esta, uma pessoa sente-se isolada. Ainda mais porque as relações com os vizinhos são praticamente inexistentes. Não faço ideia como é que são os meus vizinhos. Eles dormem aqui. levantam-se para ir para o trabalho, regressam à tarde, etc. Nos países árabes é diferente. Convivo com pessoas, discuto e troco opiniões..."

As dificuldades de convivência com a população local com quem poderia partilhar um visão e interesses comuns é narrada por uma jovem mulher sudanesa que vive no Reino Unido, reflectindo indiscutivelmente um fenómeno mais vasto, ou seja, que os refugiados tendem a ficar instalados perto de alguns dos membros mais problemáticos da sociedade.

"Eu ia a discotecas, mas isso realmente não me trouxe amizades com as pessoas daqui. As pessoas eram de Londres, da Europa, mas era difícil porque as raparigas que estavam na residencial eram raparigas que fugiram de casa e que não contactam com as suas famílias. Então, mesmo que eu fosse a discotecas, não me cruzava com pessoas que esperasse viessem a respeitar-me. As pessoas que chegavam ao meu país vindas do estrangeiro, nós levávamo-las junto da nossa família, comíamos juntos e acolhíamo-las."

Ela ainda não tinha verdadeiros amigos ingleses e embora os convidasse e recebesse na sua residência, sentia-se desapontada pois nunca a convidavam para ir a casa deles.

"Por vezes, eu penso, porque é que eles não me convidam? E penso, eles não são racistas porque nós saímos juntos; talvez os pais sejam racistas e não me aceitassem. Ou talvez seja Londres, uma cidade grande com pessoas que não ligam umas às outras. Mas eu dou-me bem com outras pessoas como espanhóis, turcos, italianos, dou-me bem com toda a esta gente pessoas, com as pessoas daqui."

Acentua como será difícil vir a casar-se uma vez que nunca convive com pessoas e, além disso, ele terá de conviver com a comunidade dela:

"porque nós não casamos com um indivíduo, mas com a família inteira. Ora isso aqui parece que não existe."

Uma outra sudanesa, com instrução, comentou o facto de ter estado dois anos num apartamento sem falar com os vizinhos. Considera esta situação muito difícil, especialmente para um refugiado:

"Aqui os ingleses não gostam de conviver com estrangeiros".

Uma romena, com formação e com cerca de 40 anos, fala também da sua experiência com os vizinhos, embora sublinhando que em todos os países existem boas e más pessoas:

"Eu não tenho contacto com os alemães. Nós cumprimentamo-nos e trocamos 2-3 palavras. Uma vez por ano, há um dia organizado pelo condomínio para que os vizinhos se encontrem e se conheçam uns aos outros. Foi aí que eu conheci a maior parte deles... O que eu penso é que quando são pessoas com formação, aceitam os outros, os estranhos; aqueles que não têm formação são um problema".

A impenetrabilidade da sociedade de acolhimento é discutida por um curdo, criativo, com 30 e tal anos, que vive há 7 anos na Holanda e que tem a cidadania holandesa. Ele diz que, apesar disso, ainda não é holandês:

"Na minha opinião, para se tornar parte de uma sociedade não é porque se está a viver nela, mas porque se vive como parte do sistema, tem que se ser aceite pela maioria do sistema como parte deste. Se não o és, sentir-te-ás sempre um intruso."

Ele explica que o facto de falar a língua não é suficiente para que alguém fique integrado. E afirma:

"Muitos refugiados encontram-se no limiar da sobrevivência. Eles querem sobreviver dia-a-dia. É só sobrevivência. Viver para sobreviver não é considerado vida. Ora, para se ter uma vida, é preciso ser parte da comunidade e, quando se está no nosso país, é a comunidade em geral com que se conta. Aqui, infelizmente, nós não temos essa possibilidade.

A mesma questão quanto às diferenças culturais entre o país de origem e a sociedade de acolhimento é abordada por um bósnio:

"Os bósnios chegam aqui com tradições e hábitos sociais diferentes. Eu não sei se posso dizer que estou adaptado a este país. Penso que não. Porque eu não fiz amigos, excepto com muito poucas pessoas do Luxemburgo".

Os refugiados continuam, mesmo após muitos anos, a pôr em contraste a sociedade de origem com o que encontram nos países da União Europeia. Uma mulher licenciada com 40 anos proveniente da Servo Croácia começa por sublinhar que, embora ela própria seja da Europa, existem contrastes culturais em relação ao seu país:

"Nós sofremos muito durante a guerra. Agora queremos divertir-nos, rir, ser optimistas, mas o problema é que as pessoas aqui estão mais deprimidas do que nós e eu não consigo entendê-las porque aqui têm tudo."

Uma jovem mulher sudanesa admite que depois de tantos anos não tem amigos suecos e que a maior parte dos seus amigos são africanos:

"Primeiro pensei que era a língua, mas agora que eu já falo, ainda não tenho amigos suecos. Penso que é a natureza desta sociedade."

Uma refugiada africana com instrução, que teve uma experiência semelhante, tenta explicar esta impenetrabilidade ao entrevistador:

"Um finlandês disse-me que eles educam as crianças desde tenra idade para uma atitude de introspecção. Isto para dizer que os finlandeses escondem os seus sentimentos. São introvertidos. Então, segundo ele, para te conhecer realmente são precisos anos."

Relações sociais positivas

Os refugiados são indivíduos particularmente vulneráveis dado que poucos dispõem de redes de apoio social e de amizades quando chegam. Isto faz com que os relacionamentos que possam efectuar com a população local sejam particularmente importantes. Mesmo aquilo que eles possam entender com um ambiente hostil, essas poucas pessoas ajudam-nos a ultrapassar os obstáculos iniciais e a começarem a adaptar-se a viver na nova sociedade. Uma mulher da Bósnia que vive na Dinamarca explica que, embora tivesse tido experiências negativas, faz amigos e consegue fazer distinções entre dinamarqueses, colocando-os em três categorias:

"Eu atrevo-me a dizer que cerca de 30% dos dinamarqueses são assim (hostis); depois um grupo intermédio que não gosta nem desgosta dos estrangeiros. Têm a sua vida e não têm tempo nem interesse pelos refugiados; e há realmente um pequeno grupo de pessoas que compreende ou, pelo menos, tenta compreender. Procuram ajudar, pelo menos, com palavras. Eu tive muita sorte porque logo mesmo no começo da minha vida na Dinamarca encontrei um casal deste terceiro grupo de dinamarqueses. Este casal foi sempre como uma estrelinha a brilhar no meu coração, mesmo nos meus momentos de profunda depressão e nos períodos em que odiava todos os dinamarqueses."

Uma mulher do Ruanda que no princípio veio para a Grécia para seguir um curso de pós-graduação, tendo entretanto rebentado a guerra. Tentou voltar para o Ruanda, mas era muito perigoso e pediu asilo:

"É por isso que eu lhe digo que tenho boas recordações da Grécia. Depois de me ter sido reconhecido o estatuto, eu arranjei emprego num hotel, casei-me aqui, o nosso padrinho de casamento é grego e temos boas relações. O meu marido estava na Grécia a estudar numa escola militar e ficou aqui após os problemas no nosso país. Eu conhecia o meu marido desde criança e, finalmente, encontrámo-nos na Grécia."

Ela tem o apoio das pessoas da vizinhança e conta:

"Se quero ir às compras, vejo o dinheiro que tenho e digo: Hoje não tenho dinheiro, mas necessito de comprar certas coisas. E as pessoas da loja dizem-me: compre o que quiser e dá-nos o dinheiro amanhã".

A seguir fala de um idoso a quem chamam "padrinho" que há 50 anos encontrou e ajudou um africano e, desde então, tem ajudado muitos africanos.

"Ele é como um padrinho. É grego, mas nós chamamos-lhe o nosso padrinho. Ele tinha uma loja, um café, num local chamado praça Burundi porque nós costumávamos encontrar-nos ali. Todos os que não tinham dinheiro costumavam lá ir e, quando recebíamos a bolsa, pagávamos ao nosso padrinho. A fim de lhe mostrar a nossa gratidão costumávamos levá-lo a dar uns passeios. Agora o meu marido levou-o a passear por toda a ilha de Evia porque agora já está velho e fechou a loja."

Em qualquer parte, os vizinhos são importantes dado que podem oferecer apoio prático e emocional aos refugiados. Isto é referido em diversos países. Uma refugiada iraquiana na Grécia afirma:

"Os meus vizinhos são muito simpáticos ... Um dia fiquei doente, tinha dores de rins e o meu marido pediu ajuda aos vizinhos. Eles não só chamaram o médico, como lhe pagaram porque nós não tínhamos dinheiro suficiente".

Um kosovar que vive com a família em Itália sublinha que:

"Se vivemos juntamente com refugiados não há integração e se vivemos no meio da nossa gente, falamos a nossa língua ... Tendo uma família jovem, falou ao entrevistador sobre o modo como por vezes contava com a ajuda dos vizinhos enquanto estava fora a trabalhar e que tinha italianos amigos

"nós festejamos o 1º de Maio, vão-me buscar de carro para ir à praia e depois vão lá ter outros amigos."

Um albanês do Kosovo, com 30 e poucos anos e que está a estudar na universidade no Luxemburgo, dá uma imagem muito positiva apesar do seu limitado conhecimento do francês:

"Eu não tive problema nenhum a adaptar-me, nem no trabalho nem com o governo. Mais ainda, fui muito ajudado na zona onde moro. Não é que eu tivesse pedido ajuda, mas vinham ter comigo... Quando eu tenho de resolver alguma coisa, não me vêem como um estrangeiro, mas como uma pessoa que precisa de ajuda. Por isso, eu estou bem."

Um jovem estudante da Argélia, na sua breve resposta à questão inicial, diz-nos que nos seus 3 anos na Bélgica sente-se bem adaptado à vida e:

"Está tudo bem com a vida social, com os estudos e com trabalho".

As semelhanças entre as culturas ajudam indiscutivelmente no contacto entre os locais e os refugiados, apesar dos problemas da língua: um curdo da Turquia num emprego instável partilha o mesmo comportamento social e as expectativas da população local:

"Quando eu não trabalho, vou até um café central e falo com diversas pessoas que também lá vão. Por vezes ofereço eu o café, outras vezes oferecem-me eles ... Eu prefiro relacionar-me com os gregos, são pessoas muito "calorosas".

Uma mulher afegã com 30 e muitos anos falou do que sentia, que não tinha problemas sociais em Espanha:

"Graças a Deus não tenho quaisquer problemas de integração. Nunca me senti estrangeira ou rejeitada pelas pessoas."

A situação dos relativamente poucos refugiados em Portugal também parece ser positiva a avaliar pela resposta deste refugiado:

"A maior parte dos refugiados, se têm um bom rendimento, gostam de viver em Portugal porque é um país pacífico. A polícia e as autoridades não são tão rígidas como em França ou na Alemanha onde pedem os documentos legais em qualquer lugar que vêem um estranho. Durante os fins-de-semana eu vejo todos os estrangeiros que se encontram numa praça popular que se chama "Praça da Figueira" e trocam ideias e transmitem notícias do seu país e vão tomar umas bebidas juntos. Aqui ninguém se sente sozinho, toda a gente tem amigos ..."

Estratégias para integração

A personalidade do refugiado tem um papel importante nas estratégias adoptadas para a integração. Alguns refugiados são bons estrategas sociais e detentores de uma personalidade que lhes permite chegar aos outros, sentirem-se optimistas e capazes de se ajustarem, mesmo que também tenham passado por experiências traumáticas. Outros ficam amarrados ao seu passado e aos traumas e não conseguem encontrar facilmente saídas para a sua situação actual. O carácter e a personalidade já existem antes das pessoas se tornarem refugiadas e são independentes, em grande medida, da educação, do rendimento e da cultura; assim, parece que alguns refugiados estão mais habilitados do que outros a lidar com a incerteza, culturas e situações novas, com traumas do passado. Outros precisam de muito mais ajuda e apoio. É necessário ter este aspecto em consideração antes de apresentar as estratégias pessoais adoptadas pelos refugiados. É de esperar que os que são mais activos e positivos sejam também aqueles que são capazes de tirar mais proveito do que lhes é oferecido pela sociedade de acolhimento e também de envidar esforços no sentido de entrarem na sociedade e, embora nem todas essas tentativas sejam casos bem sucedidos, algumas são-no. Um curdo, agora com cerca de 40 anos e que vive na Bélgica, desenvolveu uma série de estratégias, nomeadamente formação e reciclagem, flexibilidade no trabalho, procurando fazer amizades com a população local: começou por se debater com a mudança de emprego, pois ficava a centenas de quilómetros da sua namorada belga.

"Eu decidi procurar outra coisa. Frequentei um novo curso de informática e, ao mesmo tempo, tentei inserir-me no desporto, fui membro da equipa nacional da Bélgica. Nós viajámos pela Europa e, uma vez, para fora."

O mesmo tipo de estratégias ressoam no discurso de um médico afegão, com trinta e muitos anos, que vive na Holanda:

"Eu tive sorte, só tenho boas recordações, mas sempre fui muito activo. Eu queria trabalhar mais e estava sempre à procura de mais oportunidades."

Um sudanês com instrução reconheceu a necessidade de voltar a estudar na Suécia e estudou sueco durante dois anos, tendo-se inscrito depois na universidade. Criou laços com suecos através de alguns amigos seus que tinham namoradas suecas e gostava de sair com eles, a discotecas, e de se visitarem uns aos outros.

"Estas raparigas já estavam acostumadas à tradição sudanesa e não ficavam muito admiradas se aparecíamos sem avisar primeiro. Eu também tenho contactos com um sueco que está sempre bêbado e que não se relaciona com suecos."

Para muitos refugiados, o trabalho é a chave mais importante para a integração: um peruano especializado, com 50 anos, começou a sua narrativa com declarações positivas pelo bom tratamento que recebeu do Ministério para a Família do Luxemburgo, aprendeu a língua e fez muitos amigos luxemburgueses graças ao trabalho:

"Eu posso afirmar que estou muito bem integrado na sociedade ... Falando de adaptação, cabe-nos a nós, refugiados, adaptarmo-nos e integrarmo-nos. Para isso, é necessário dominar a língua e inserir-se na vida social. Por um lado, é difícil encontrar trabalho. De qualquer maneira, se arranjar um emprego, tem de se interessar por ele."

A capacidade de se reconhecer a priori que muitos estrangeiros enfrentam problemas em vários países parece munir os refugiados de uma certa carapaça psicológica, habilitando-os individualmente a enfrentarem os problemas de discriminação de uma forma mais construtiva. Uma rapariga albanesa, com formação universitária, agora com 27 anos e que fala italiano, foi inicialmente ajudada, mas depois fala do facto de se ter confrontado com a pressão de ser albanesa em Itália:

"Eu não posso negar que durante aqueles primeiros dias fomos muito bem tratados. Humanidade é a melhor palavra ... ... Eu não quero pensar se sou estrangeira, refugiada, todos os nomes que dão aos estrangeiros aqui em Itália. Eu não tenho que pensar que sou isso, que não valho nada. Eu coloco-me ao mesmo nível dos italianos ... Eu tenho de lutar, tenho de encontrar o meu caminho, tenho de encontrar o que já fui outrora."

Uma outra estratégia, embora nem sempre seja escolhida conscientemente, é o casamento com pessoas locais e houve muitos casos desses nas entrevistas: Há que dizer que o casamento parece ser uma estratégia mais aberta a refugiados do que a refugiadas. Existem duas possíveis explicações: uma é que geralmente há falta, em certos grupos etários e na maior parte ou em todos os Estados-Membros, de homens casadoiros, existindo assim um excedente de mulheres locais que procuram marido. Uma outra explicação reside na natureza de classe do casamento: casar com um estrangeiro é, em muitos casos, encarado como um casamento de posição mais baixa e os homens estão menos propensos a perder o estatuto do que as mulheres. Existe, contudo, uma outra perspectiva de que algumas mulheres locais podem querer alcançar um estatuto mais elevado e um marido com mais instrução ao casarem com um estrangeiro. Seja qual for a explicação, esta estratégia tem a vantagem de fazer com que o refugiado crie laços com a sociedade local, ainda que isso não deva ser exagerado, pois nem todas as mulheres locais que se tornaram cônjuges de refugiados têm laços familiares ou redes sociais fortes. Um somali deficiente, professor, com cerca de 40 anos, começa a sua narrativa inicial dizendo:

"Eu estou 70% integrado, como sabe a minha mulher é holandesa ... Um pássaro constrói o seu ninho ramo a ramo. Eu tive de começar por baixo, a língua holandesa é muito difícil. Eu não tenho mais ninguém além da minha mulher que me pode ajudar. Não há ninguém a quem possa pedir ajuda"

Um iraniano, com instrução, 40 anos, casado com uma dinamarquesa, diz que não teve problemas em se integrar.

"Eu podia pensar como muita gente de forma negativa, mas não o fiz. Pensei positivamente e nunca liguei ao facto de certos dinamarqueses não gostarem de refugiados e, por isso, não tive quaisquer problemas."

Um cubano conta que está casado com uma espanhola e que isso influenciou positivamente a sua integração. No entanto, como ele sublinha:

"Para nós cubanos, um espanhol nunca foi um estrangeiro."

Uma outra estratégia é trabalhar com pessoas que necessitam de ajuda ou pertencem à mesma comunidade de refugiados ou de estrangeiros. Na Bélgica, uma ex-jornalista servo-croata, com formação universitária, fala acerca da forma como trabalhou com outras pessoas dos Balcãs, tendo criado um jornal não político. Há três anos e meio que tem estado a trabalhar para este jornal popular:

"Toda a gente, muçulmanos, croatas, sérvios, todos gostam do jornal porque transmite informações importantes acerca do estatuto, acerca do OCMW (Serviço de Segurança Social), como encontrar emprego e coisas assim."

Evidentemente que há refugiados para quem a chegada a num novo país representa libertação pessoal, uma oportunidade não só de viver em paz, mas também de estudar, de ter uma vida pessoal que seja uma escolha sua. Uma mulher curda iraquiana com 40 anos e que vive na Holanda, embora tendo perdido a sua profissão original, desenvolve o seu trabalho na comunidade de refugiados e tem prazer nisso:

"Eu estou satisfeita pelos meus filhos porque já não tenho de pensar mais na guerra. Aqui eles vivem uma vida normal. Ficámos fartos de guerra."

Uma mulher da Eritreia de 30 anos, licenciada, fala do facto de estar divorciada, algo que nunca teria sido possível no seu país de origem. Embora viva e trabalhe há 3 anos na Suécia continua a dizer:

"Eu sinto muita relutância em fazer determinadas coisas que gostaria porque tenho medo que os outros falem de mim ... Depois do meu divórcio, também perdi a maior parte dos amigos da minha família. Agora tenho amigos africanos e suecos, mas prefiro amigas suecas para que possa aprender a língua e, também, manter-me afastada dos africanos que me fazem lembrar o meu passado." Ela gosta do povo sueco e explica que está habituada a conviver com estrangeiros porque costumava viajar muito com o seu ex-marido, mas do que gosta especialmente é da liberdade que as mulheres têm e de serem economicamente independentes.

Certos homens refugiados nos países escandinavos consideram manifestamente difícil lidar com tal libertação da mulher; pelo que, a libertação para uma determinada pessoa ou sexo pode ser entendida como uma perda para o outro. Um empresário iraniano com 40 anos chegou à Suécia em 1986 e, após seis anos no país, casou com uma sueca. Divorciaram-se 16 meses depois:

"Eu não gostava da forma como ela se comportava, sendo uma mulher casada. Era demasiado independente."

As tragédias

Apesar de todos os esforços envidados pelos refugiados, ONGs, governos e bem-intencionados existem refugiados que se mantêm como se estivessem paralisados na nova sociedade. Nem podem voltar para o seu país de origem, nem têm apoio suficiente que lhes permita seguir em frente e começar uma nova vida. A história pungente de uma mulher da Eritreia, com qualificação bancária, que teve de deixar no país os seus quatro filhos ao cuidado da avó, já que o marido tinha sido preso e assassinado pelo governo etíope, começou a sua narrativa aberta contando como tinha chegado a Itália, tendo-lhe sido oferecida uma casa durante três meses pela Caritas, tendo que, depois disso, ir trabalhar como empregada doméstica numa casa. Presentemente, não tem trabalho, nem ninguém para a ajudar. O seu diploma não é reconhecido em Itália. Não tem casa e vive com outras raparigas.

"Não há ninguém que eu conheça que me possa ajudar. Eu consegui o documento, mas o documento por si só é inútil. Tu precisas de uma casa, precisas de comer e, acima de tudo, precisas de um emprego ...não há nenhum emprego."

Os refugiados do sexo masculino contam igualmente histórias amargas ficando enredados, quer pela sociedade de acolhimento, quer pelas suas próprias culturas. Uma dessas histórias é a de um homem casado da Somália, com 40 anos, separado da sua mulher durante os 10 anos em que tem vivido na Suécia, não conseguindo mandá-la vir para o país por o seu pedido ter sido recusado três vezes. O longo prazo (5 anos) para o reconhecimento do estatuto de refugiado e o desânimo inerente para aprender a língua fez com que ainda só fale somali; embora agora tente aprender a língua, tem ainda de se adaptar à ideia de se sentar ao lado de uma mulher na sala de aula. Agora com 40 e muitos anos e, ainda sem filhos, planeia encontrar-se com a mulher na Síria, presumivelmente para tentar criar uma família. O divórcio não é possível:

"As mulheres na Somália são tímidas e não podem fazer isso (pedir o divórcio) por causa dos costumes e tradições. Ela também é muito chegada à minha família e isso também seria um mau presságio para a família."

Há outros refugiados com histórias trágicas para contar e talvez seja salutar lembrarmo-nos que alguns deles precisam de apoio considerável e consistente: o caso individual acima mencionado da mulher etíope podia ser resolvido através de um maior apoio das autoridades italianas e das organizações de apoio aos refugiados para encontrar trabalho, uma casa, aconselhamento psicológico, ajuda para reagrupamento familiar. A sua história não é única e histórias angustiantes como esta podem acabar por lançar as mulheres para a prostituição e empurrar homens e mulheres para comportamentos desviantes, sendo esta probabilidade referida nalgumas entrevistas dos refugiados. Noutras situações, como aquela do somali mencionada acima, uma aplicação mais flexível das regras poderia ajudar os refugiados a vencer restrições burocráticas inultrapassáveis que os aprisionam.

O sentimento de que se encontram num ambiente estranho é ilustrado vivamente na citação a seguir de um homem novo iraquiano, com instrução:

"imagine um pássaro que vive na floresta voando de árvore em árvore, indo de uma para outra. Você apanha-o, põe-no numa gaiola, leva-o ao veterinário para examinar, dá-lhe uma grande variedade de sementes para comer, apesar dele comer bastante pouco, dá-lhe água fresca. Mesmo assim, vê-o triste, cansado, realmente muito cansado. Ele está fora do seu ambiente natural e diz-lhe: ‘Ah, se os bons tempos pudessem voltar.’ Isto comigo é verdade. Eu tenho electricidade 24 horas por dia, um frigorífico, o autocarro é à porta da minha casa ... Apesar disso não estou bem, porque não estou no meu ambiente. Talvez passados 10 ou 20 anos seja melhor, mas neste momento faço tudo para me adaptar, simplesmente porque não tenho opção."


 

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