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Capítulo 12:
    ONGs E ORGANIZAÇÕES DE REFUGIADOS


Para quase todos os refugiados, as ONGs desempenharam um papel importante na instalação no novo país. Algumas ONGs são os principais e fundamentais organizadores de serviços, fornecem apoio financeiro, mas as ligações com a sociedade de acolhimento talvez seja o mais importante. A sua função primária é trabalhar para os refugiados. A dimensão da população refugiada num país, o papel do governo e/ou de outros organismos em termos de responsabilidades pelos refugiados e o financiamento das ONGs são tudo factores que determinam a capacidade e funcionamento das ONGs. Estes factores podem levar a uma impossibilidade de funcionamento como organizações independentes para refugiados. Muitas tornaram-se órgãos altamente burocráticos. Por isso, os refugiados mencionam tanto experiências positivas como negativas com as ONGs. Contudo, nem todos os refugiados fizeram comentários directos às ONGs, se bem que ao longo das outras secções seja óbvio que recorreram ao auxílio das ONGs. Os comentários efectuados são esmagadoramente positivos e, portanto, as críticas têm de ser encaradas em termos construtivos.

Problemas das ONGs

A ideia de que algumas ONGs não podem agir autonomamente a favor dos refugiados é referida pelos refugiados. Um artista curdo afirma:

"... O Conselho Holandês para os Refugiados em Roterdão e noutros locais da Holanda estão a fazer o melhor que podem, mas não conseguem quebrar o sistema dentro do sistema. Isso não conseguem. Então, de certa maneira, nós não somos muito bem-vindos aqui. Ser bem-vindo não é só dizer a alguém que é bem-vindo. Quando começas a sentir-te em casa, então és bem-vindo."

Um eritreu ferido na guerra no seu país presta declarações semelhantes:

"Eu só conheço o Conselho Holandês para os Refugiados. Eles dizem ajudar os refugiados, mas logo que tu és recusado, já não te podem ajudar mais. Eles perguntam-me "porque é que não volta para o seu país?" embora saibam da situação no meu país. O Conselho para os Refugiados é suposto ser independente, mas não trabalha independentemente do governo."

A falta de clareza nos critérios burocráticos usados para a atribuição de ajuda aos refugiados foi observada por um homem com família do Burundi. Comentando os critérios estabelecidos pelo Conselho Grego para os Refugiados para arranjar trabalho aos refugiados, afirma:

"Eles ajudam primeiro pessoas com 4 filhos ou mais. Mas isto não está certo. Se tu tens 4 ou 10 ou 1 filho desde que sejas refugiado é a mesma coisa."

Uma mulher iraquiana curda, com instrução e com três filhos, faz um comentário sobre a inexperiência de muitos que trabalham para as ONGs:

"O Conselho Holandês para os Refugiados é muito bom para os refugiados, eles ajudam-nos muito. Os conselheiros são muitas vezes estagiários e não têm experiência suficiente. Então pode ser difícil. De seis em seis meses há um novo estagiário que não conhece nada acerca dos anteriores acordos. Isto é mau para a continuidade do trabalho ... ONGs, como a Amnistia Internacional, não existem. Eles não fazem nada. Milhões de pessoas que são mortas e eles não fazem nada."

As atitudes dos refugiados para com as ONGs são frequentemente ambivalentes, principalmente se conhecem as suas capacidades. Um tunisino, em Itália, que teve várias experiências com organizações que lidam com refugiados (CIR, Chance, Centro Astalli, Caritas ...) conta-nos:

"Quanto ao CIR, a primeira experiência não foi muito encorajadora; quando fui reconhecido eu não tive nada, nada, eu pedi ajuda a fim de obter os documentos, não me foi dada nenhuma. Agora penso que me dão um pouco mais de atenção, eu sinto-me melhor, há possibilidades de ajuda mais concretas. Agora, nestas últimas semanas, o relacionamento é mais forte ... depois ele continua a falar sobre o CIR "Eles recebem-me com boas maneiras ... ouvem-me bem ... tentam, pelo menos na minha última experiência, realmente compreender a situação, eles realmente tentam ajudar-me, encontrar algumas soluções ... Sinto que as coisas são sérias."

O diferente nível de serviços prestado por ONGs nos diferentes Estados-Membros pode levar a comparações com outros países deixando os refugiados preocupados com as políticas e práticas muito diferentes seguidas na União Europeia. Um refugiado iraniano afirma:

"Eu não estou satisfeito com as ONGs. Eu não compreendo porque é que eles não me dão mais apoio financeiro. Alguns dos meus familiares que vivem na Alemanha têm melhores condições financeiras. Na Grécia, seja o que for que eles dêem, não é suficiente e é só durante um curto espaço de tempo."

Uma mulher etíope tem este mesmo sentimento ao referir a necessidade de mudança de política em Itália. Falando acerca da sua situação e de outros refugiados diz ao entrevistador:

"Se esta informação chegar à UE, as coisas podem mudar para os refugiados. Aqui têm que se fazer coisas tal como noutros países. Aqui estamos a morrer, é grave. Só me resta dizer isto, mais nada."

Participação dos refugiados nas ONGs

Uma outra questão no funcionamento das ONGs para refugiados é o facto de em muitas delas os refugiados se encontrarem deficientemente representados e expressam o seu desejo de ver mais refugiados empregados pelas mesmas. Em Espanha, um estudante universitário original do Peru comenta a ausência de refugiados no seio das organizações que se ocupam deles:

"Há refugiados que trabalham em certas organizações, mas não em todas elas. E eu creio que os refugiados percebem melhor os nossos problemas. A minha experiência pessoal é a mesma que a deles, por isso, eu penso que é importante que na administração, nomeadamente os serviços de refugiados, tenham refugiados e, especialmente, logo que chegam para que se sintam melhor compreendidos e acolhidos."

No entanto, é claro que muitos dos seleccionados para a entrevista eram refugiados que trabalham para ONGs e, por isso, conseguiam ter outras perspectivas sobre o papel das ONGs. Um argelino, em Itália, disse que pensava que as críticas às ONGs são exageradas:

"Esta área é muito difícil. Os próprios refugiados têm um contributo a dar; deveriam reunir-se esforços e experiências para trazer alguma coisa de novo em vez de se criticar."

No Reino Unido, onde existe um grande número de organizações de refugiados, reina alguma confusão acerca das responsabilidades, a qual também cria problemas aos refugiados, devendo isso ser reconhecido.

Uma mulher ruandesa disse ao entrevistador:

"Eu gostava que as ONGs trabalhassem em cooperação estreita com as organizações de refugiados. Deveria haver intercâmbio de informação ... Agora os refugiados vão a várias ONGs perguntar por projectos da UE. E se uma qualquer organização oferece mais dinheiro, eles vão lá. Se as ONGs cooperassem com as associações de refugiados, estes problemas não existiriam."

Positiva

O auxílio vital prestado pelas ONGs é a causa do apoio leal que lhes dedicam. A narrativa de uma mulher do Sri Lanka ilustra isso mesmo:

"Nessa altura eu tive o meu filho e nós não tínhamos qualquer apoio da segurança social e a despesa elevada com este apartamento era muito difícil de sustentar com o bebé. Um amigo ajudou-me a contactar a CARITAS. Não tínhamos nem subsídio nem ajuda da segurança social. Nessa altura a CARITAS ofereceu-nos tudo o que era necessário para o bebé. Eles deram-nos desde o berço, um armário, um carrinho de bebé. Isto foi uma grande ajuda para nós. Deram-nos também uma máquina de lavar por causa do bebé. Nesse tempo todo, eu lavava a roupa à mão para evitar infecções e costumava levar a nossa roupa a uma lavandaria pública. Alguns anos atrás, o governo tentou fechar escritórios como a CARITAS, Diakonie, Cruz Vermelha. Eu fui para a rua, protestar e marchar porque fui uma das pessoas que beneficiou com estas organizações."

A ajuda dada a problemas práticos de subsistência e para conseguir uma casa são também apresentados por uma mulher afegã em Espanha:

"O CEAR ajudou-me. Tentaram encontrar uma casa para mim porque tenho duas crianças e vivia num andar muito pequeno. Então, quase três anos depois e com o apoio do CEAR, consegui comprar uma habitação social através do IVIMA (Instituto da Habitação em Madrid). Depois o CEAR também me ajudou a mobilar a casa."

Na Alemanha, uma mulher iraniana conta-nos:

"Graças à influência de uma ONG, consegui este apartamento. Uma das ONGs era a Diakonie Bavaria. Na altura em que cheguei à Alemanha tinham um conselheiro na minha língua materna. Eles foram-me recomendados pela minha gente. Deram-me o telefone e a morada. Foi assim que consegui contactar Diakonie Nürnberg. Eles ajudaram-me de diversas maneiras. Ainda lá vou quando preciso de ajuda e sempre que não consigo resolver sozinha os meus problemas."

O apoio em relação a outras questões práticas, como a língua e os contactos sociais, também é abordado por outra iraniana, com dois filhos, na Alemanha.

"Eu tenho contactos com a Diakonie. Vou lá muitas vezes quando preciso de ajuda. Para escrever cartas e preencher impressos em alemão. A língua alemã é muito difícil. Eu conheço-os muito bem e eles também me ajudam imenso. Quando cheguei eu estava sozinha com as crianças e eles ajudaram-me muito. Nessa altura eu não sabia ler nem escrever alemão. Eu também falo deles a muita gente. Também lá vamos a reuniões todos os meses e também quando há eventos especiais."

Uma somali casada com duas crianças também dá uma perspectiva positiva sobre o apoio prático que recebeu:

"O Conselho Holandês para os Refugiados ajudou-me muito quando eu cheguei à Holanda, eles ajudaram-me a tratar de tudo e ajudaram-me a arranjar uma casa. Quando eu vim viver para Roterdão, comecei a fazer tudo sozinha, tentei ser independente. Eu também fiz algum trabalho para o Conselho para os Refugiados".

O facto das ONGs terem trabalhado frequentemente durante anos prestando apoio e ajuda aos refugiados está patente nas observações a seguir efectuadas por um vietnamita que gere um restaurante no Sul da Alemanha:

"Eu conheço a Diakonie ao longo destes últimos 15 anos. Nesse tempo eles ajudaram-nos muito quando chegámos ... Nós estávamos a viver num lar de refugiados e iam lá ajudar-nos ... Ajudaram-nos de muitas maneiras ... Com a escola, formação profissional, cursos de línguas e, também, dando-nos contactos. Tudo. Quando tínhamos problemas, podíamos sempre lá ir, em qualquer altura."

Quando existe uma clara separação entre a ONG que apoia os refugiados e as autoridades, os refugiados confiam mais no apoio e no aconselhamento recebido da ONG. Um togolês com instrução conta-nos como é:

"Eu soube da Diakonie muito tarde. Foi depois da minha primeira entrevista com o serviço governamental para os refugiados. Conheci-os muito tarde. Primeiro eu assinei uma folha de papel em branco. Eu fiz isso. Na primeira entrevista assinei uma folha em branco e depois eles escreveram tudo o que eu tinha a dizer. Através da Diakonie soube que isso não era normal. A CARITAS foi onde entreguei o meu pedido de asilo, foi em Beirute, havia a CARITAS. Também conheci a AWO aqui, em Nürnberg. Eles ajudaram-me com um tradutor e junto de outros serviços governamentais aqui, naquela altura."

O leque de trabalhos que uma organização de refugiados pode realizar a favor dos refugiados é ilustrado pelo seguinte relato de um refugiada da Síria, doméstica e com duas crianças:

"O Conselho para os Refugiados de Roterdão é uma organização importante para os refugiados. Eles desempenham um papel muito positivo a favor dos refugiados. Se tu tens uma questão ou problemas é sempre possível marcar um encontro. Dão sempre bons conselhos e a informação correcta. Eles organizam actividades para os refugiados e, especialmente, para as mulheres. Também têm uma escola de línguas. Os empregados e os voluntários são sempre simpáticos com as pessoas. Por vezes ajudam os refugiados a arranjar emprego."

O que é que as ONGs deveriam estar a fazer

A ajuda oferecida pelas ONGs nem sempre é vista como adequada e os refugiados têm uma perspectiva diferente sobre o que é essencial. Na secção sobre o Emprego podem-se ler as perspectivas dos refugiados em relação ao apoio da segurança social ou pequenas ajudas financeiras; muitos gostariam de arranjar um emprego estável, pois sentem que perdem a face e a credibilidade como indivíduos que vivem de pequenas ajudas. Uma liberiana que vive na Grécia diz resumidamente que:

"Eu não vou frequentemente a ONGs ... não quero que me dêem ajuda financeira, mas empregos ... empregos ... empregos é que as pessoas precisam. O apoio financeiro vai acabar num certo ponto. A questão é o que é que fazemos depois..."

Para um zairense que vive em Itália, a principal organização para refugiados necessita de fornecer informações explicando o que é que o CIR faz pelos refugiados:

"Caso contrário, esperam uma casa, um emprego; é por isso que ficam confusos quando não conseguem isso."

Contudo, uma ONG funciona dentro de um contexto social específico em que a população local também tem as suas expectativas. Uma iraquiana com instrução tenta interpretar a falta de projectos extensivos destinados a refugiados:

"Os espanhóis consideram que o dinheiro que pagam para os serviços sociais e para as ONGs é dinheiro deles, que é retirado dos seus impostos, por isso, parece-lhes mais lógico que seja gasto para conseguir e realizar certos projectos a favor dos próprios espanhóis, dado que eles têm os mesmos problemas de trabalho e de desemprego".


 

Capítulo 13:
    NACIONALIDADE E CIDADANIA


A questão de adquirir o direito a tornar-se cidadão do país de acolhimento varia de acordo com o Estado-Membro e com as expectativas individuais dos refugiados. A identidade cultural, para a maior parte dos refugiados, está no âmago do seu ser e poucos desejam inteiramente assimilar-se e "desaparecer" no seio da população da sociedade de acolhimento. Por outro lado, muitos são os que pretendem a nacionalidade por várias razões, como segurança, benefícios ou, até mesmo, como meio de integração.

Nacionalidade num Estado-Membro

A necessidade de adquirir uma nacionalidade se se estiver privado de uma outra constitui, evidentemente, um grande estímulo para que alguns refugiados procurem obter a nacionalidade do país de acolhimento. Um homem do Saara Ocidental que se sente frustrado por ter a nacionalidade marroquina no seu passaporte, tendo tentado, sem sucesso, adquirir a nacionalidade francesa com vista a anular a marroquina, diz o seguinte:

"É uma forma de encontrar uma nacionalidade já que não tenho nacionalidade, eu sou saariano, mas essa não pode constar nos meus documentos."

O mesmo sentimento é expresso por um homem do Congo que diz:

"Eu não tenho nacionalidade, o meu país é o Luxemburgo ..."

A segurança é outro motivo forte para procurar obter a nacionalidade do país de acolhimento. Para uma bósnia, viúva, no Luxemburgo com as suas filhas, a segurança é claramente o motivo; ela diz ao entrevistador que, logo que lhe seja possível, gostaria de votar e ter a nacionalidade do país de acolhimento - a filha acrescenta: "para ficar para sempre no Luxemburgo."

Um etíope que vive em França e que se sente ameaçado pelos políticos da Frente Nacional, também procura a segurança de um passaporte e de uma nacionalidade:

"Se as coisas continuarem a deteriorar-se em relação aos refugiados políticos, nós nunca sabemos se um dia nos rejeitarão, pelo que seria tranquilizador ter a cidadania francesa. Quando se olha para a imagem de Le Pen ou Maigret, se isto continuar assim será insustentável e cada vez pior. Sabe, isto vem naturalmente, ficar com medo de coisas como esta, quando se sofre o que nós sofremos."

A aquisição da nacionalidade do país de acolhimento para os filhos é também importante para alguns refugiados: um peruano, com 40 e muitos anos, casado com uma cubana que agora espera o seu primeiro bebé, diz:

"No Peru nunca pensei ter um bebé por causa dos problemas políticos, das ameaças, etc. Eu não queria deixar uma criança órfã. Aqui há paz, vou ter o meu bebé e ele vai ser espanhol. Vai ser espanhol nos documentos e terá que meditar sobre o bom e o mau de Espanha, mas terá raízes cubanas e peruanas, amando essas raízes."

As vantagens práticas de adquirir a cidadania são encaradas em relação à vida no país de acolhimento e à possibilidade de regressar: uma mulher do Sri Lanka que vive em França diz:

"Porque estamos em França seria melhor ter a cidadania, é difícil para os refugiados para a habitação, para o trabalho ... seria mais fácil encontrar um emprego. Também poderíamos ir visitar a nossa família. O meu pai está velho e diz que gostava de me ver..."

As barreiras para aquisição da cidadania são mencionadas pelos refugiados. Em França, o emprego é um pré-requisito. Uma mulher do Ruanda diz que pensa que só poderia adquirir a nacionalidade se tivesse um emprego estável, ao passo que um curdo (ex-piloto) que vive em França há cerca de 8 anos e que não foi admitido para um trabalho no aeroporto de Amiens por causa da sua nacionalidade, afirma:

"O problema essencial em França é como adquirir a nacionalidade francesa. Normalmente, tem-se esse direito após 5 anos de residência, o problema é que é necessário provar que se tem um emprego. É, por conseguinte, um ciclo vicioso. Trata-se de um sistema que, em última análise, bloqueia a minha integração.

A outra barreira é a língua. Uma mulher do Sri Lanka que vive em França diz que ela e o marido já requereram a nacionalidade, mas foi rejeitada devido ao insuficiente domínio do francês.

Forte identidade nacional

Existem refugiados para quem a identidade nacional é uma questão sensível e que reagem de modo negativo à ideia de adquirirem a nacionalidade do país de acolhimento: uma mulher de Montenegro, no Luxemburgo desde 1992, inicialmente reagiu contra a ideia de requerer outra nacionalidade antes de tomar conhecimento das possíveis vantagens práticas:

"Não, porquê? Eu sou jugoslava, eu falo a minha língua materna. A nacionalidade luxemburguesa, talvez para não ter problemas e para ir a qualquer parte do mundo ... Seja o que for, não por vontade própria. Se porventura tiver que o fazer, farei, mas ..."

Outros vêem o seu futuro no país de origem e por esta razão não consideram importante a nacionalidade do novo país - tendo, no entanto, outras estratégias para se

integrarem e adquirirem direitos, por exemplo, o casamento. É o caso de um homem dos Camarões que vive em França e casou com uma francesa, podendo, por conseguinte, solicitar a naturalização se quisesse, mas diz:

"Se estou em França é devido a circunstâncias imprevistas e é meu objectivo último não abandonar o sonho de fazer as coisas avançar e de lutar politicamente no meu país."

Um homem do Kosovo, que vive no Luxemburgo, quando lhe perguntaram se gostaria de ter direito a votar, disse:

"Sim ... Não ... Porquê? Eu não conheço o sistema político. Não é porque sou um estrangeiro neste país, mas porque isso não me interessa. Acima de tudo estou interessado no que acontece na minha terra. Nesse caso, sim."

Cidadania e direito de voto

Alguns refugiados exprimem a sua indignação por viverem no país de acolhimento sem direito a voto.

Uma albanesa fala emocionada pelo facto de estar privada dos seus direitos de voto, dizendo que lhe apetecia chorar quando percebeu que não poderia votar nem no país de acolhimento, nem no seu país de origem. Ela acha que gosta dos dois países e conta a história da forte emoção que sentiu quando foi à Grécia buscar o filho e viu a bandeira belga na embaixada para onde ela estava a fugir "para votar é preciso ser belga", diz ela, " é um papel que irá mudar isso - comigo não, porque eu já me sinto belga"

Um refugiado que vive em Portugal diz:

"Haverá eleições proximamente e, se me fosse concedido o direito de voto, ficaria muito contente com isso...".

Mesmo que não se esteja interessado em política, o DIREITO de voto é visto como um importante sinal de reconhecimento da sociedade de acolhimento e iria acalmar os receios relacionados com a insegurança do estatuto. Quando perguntaram a uma angolana que vive em França acerca do seu interesse por política, disse que não está realmente interessada (apesar de seguir as notícias): "Eu sou refugiada, o que é que eu vou fazer com a política." Depois, quando lhe perguntaram acerca do direito de voto, disse: "Sim, com certeza. Eu gostaria de poder votar, há que reconhecê-lo, mas não sei o que é que isso me traria."

Um refugiado iraniano, na Bélgica há 12 anos, desinteressado pela política, mas envolvido em associações desportivas e culturais, e organizações "mundiais" diz que não acredita na política nem em fronteiras, mas mesmo assim pensa que o direito de voto para os estrangeiros é o "primeiro direito que qualquer pessoa devia ter". Ele já tem a nacionalidade belga porque sem isso não poderia viajar.

Um homem do Burundi que vive em França, com estatuto reconhecido desde 1996, associa também o direito de voto ao reconhecimento dos seus direitos e responsabilidades como cidadão:

"... se tivesse direito a votar, isso fazia com que me sentisse detentor dos direitos civis como os outros, bem como das responsabilidades, evidentemente."

Um iraquiano, que vive no Luxemburgo, diz que gostaria de ter direito a votar:

"Eu gostaria muito de votar se me dessem essa oportunidade. O que é um refugiado? Não é uma pessoa à parte e seria bom saber a sua opinião. Eu não vejo porque é que não me é dada essa possibilidade."

Os refugiados que obtiveram segurança e a integração através de outros meios, como o casamento com um nacional, podem sentir uma menor urgência em assegurar os seus direitos como indivíduos e encaram a questão do direito de voto como um questão inerente ao interesse pessoal sobre a política. Uma romena que está casada com um austríaco, mas que fala de discriminação no mercado de trabalho e antipatiza com os funcionários austríacos, diz estar integrada, que tem contactos com húngaros e com outras ONGs, "mas eu não tenho qualquer interesse por política, eu até nem quero ter direito a votar."

Alguns fazem a distinção entre o direito de voto e a nacionalidade. Um bósnio que vive no Luxemburgo, quando questionado acerca do direito de voto, disse:

"Não, porque pessoalmente não mereço isso. Eu não estou interessado na política deste país. Mas, a nível geral, penso que as pessoas deviam ter o direito de votar."

Mas, quando questionado acerca da obtenção da nacionalidade, disse:

"Sim, gostaria de ter a nacionalidade para mim e para os meus filhos por razões práticas. Eu sei que os meus filhos têm um nome diferente, que haverá sempre diferenças. Eu tenho consciência disso."

Um iraquiano faz uma distinção semelhante entre o direito de voto e a nacionalidade, dizendo que não conhecendo o funcionamento do sistema político no Luxemburgo, então como poderia votar; mas gostaria de obter a nacionalidade luxemburguesa porque pretende ficar no Luxemburgo, que encara como a sua segunda pátria.

Alguns estão demasiado embrenhados em circunstâncias pessoais, não lhes restando espaço para pensar. Uma mulher bósnia, que está no Luxemburgo há 6 anos, diz não estar interessada na política do Luxemburgo e que isso não lhe diz respeito "São os luxemburgueses que votam para o seu Presidente ... Eu já me esqueci de viver. Tenho de viver para os meus filhos e para o meu marido."

Para alguns refugiados a sensação de serem aceites ou não é uma condição prévia importante para o interesse em votar: uma mulher do Iraque que vive na Dinamarca diz:

"Se me aceitarem em condições de igualdade como uma pessoas dinamarquesa, gostaria de votar, caso contrário, não sei."

Outros refugiados têm o sentimento de que os políticos na sociedade de acolhimento não defendem os interesses dos refugiados e isso fá-los sentirem-se indiferentes quanto à questão de votar: uma mulher da Somália que vive na Dinamarca sublinha:

"Eu mantenho-me afastada da política porque estou muito desiludida com o comportamento dos políticos dinamarqueses. Assim, não quero votar porque não há ninguém para votar a favor".

As condições de elegibilidade para a cidadania causam ressentimentos, especialmente quando o espaço de tempo requerido se relaciona com a concessão de asilo e não com a chegada ao país de acolhimento. Uma mulher da Bósnia, que foi há 6 anos e meio para a Dinamarca e que tem estatuto há 3 anos, respondeu o seguinte quando lhe perguntaram se gostaria de votar:

"Sim, gostaria. Mas, não podemos falar nisso agora porque, de acordo com a lei dinamarquesa, não tenho o direito a isso agora. E Deus sabe se poderemos e quando poderemos fazer tudo isso. Para votar tem de se ter a cidadania e nós só podemos requerer a cidadania dinamarquesa após termos asilo há 7 anos. Há certos boatos que talvez possamos requerê-la após estarmos aqui 7 anos. A diferença é grande porque eu estive aqui quase 3 antes de ter obtido asilo. Mas, ainda assim ... os refugiados na Dinamarca têm uma má experiência no que respeita a obtenção da cidadania."

Cidadania como condição de estar integrado

Um ruandês que chegou à Áustria em 1994 afirma:

"Eu gostaria de ter o direito de voto e de gozar outros direitos como cidadão na Áustria porque, você sabe, viver neste país e não estar politicamente integrado significa que és posto de lado ... como é que eu me integro nesta sociedade se não usufruo todos os direitos dos cidadãos desta sociedade ... Eu gostava de votar neste país porque se tornou a minha segunda nacionalidade..."

Um peruano no Luxemburgo também não tem dúvidas acerca do direito de voto e quanto às suas aspirações de aquisição da cidadania - está a preparar o pedido (porque se sente integrado e vê o futuro dos seus filhos no Luxemburgo e não no Peru):

"Sim, sim, sim. Eu penso que se deve conhecer os dirigentes da sociedade, mas nunca serei membro de uma organização política. Políticos... Não gosto disso. Eu tenho de saber o que acontece com a direita e a esquerda..."

O direito de voto como consequência lógica de se estar integrado noutros aspectos é expresso por refugiados nas declarações seguintes. Um refugiado do Kosovo que vive na Bélgica insiste que os recém-chegados:

"não deveriam poder votar porque não conhecem suficientemente a situação, mas após dois anos deveriam votar, isto é lógico"

e prossegue explicando que tem um emprego, paga impostos, se fizer qualquer coisa errada tem de enfrentar a justiça, que é um membro da sociedade.

Uma mulher de Belarus, que vive na Bélgica, também relaciona o direito de voto para estrangeiros ao facto de trabalharem, pagarem impostos, não percebendo porque é que não têm esse direito.

Uma mulher do Congo, também na Bélgica, não tem dúvidas de que os estrangeiros que lá estão há vários anos deveriam ser considerados cidadãos belgas e ter o direito de voto:

"... Eu sei tudo sobre o que se passa na Bélgica. Eu estou a par dos políticos e das suas políticas, por consequência, penso que tenho o direito a votar, como todos os belgas com dignidade."

Um argelino, muito interessado por tudo o que acontece na Bélgica, acha importante saber o que se passa e pensa que é uma coisa boa ter direito a votar:

"...é necessário para uma melhor integração; proibir o direito de voto é como empurrar o estrangeiro para fora do país."


 

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