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Capítulo 14:
    O FUTURO


A questão colocada aos refugiados mesmo no final da entrevista referia-se às expectativas futuras. As respostas forneceram-nos indicações claras sobre as atitudes individuais dos refugiados quanto à integração. Um certo número de factores influenciam as atitudes, mas, tal como sugerido quando debatemos as relações sociais entre os refugiados e a sociedade de acolhimento, o carácter individual dos refugiados contribui e determina a forma como perspectivam o futuro. As respostas variaram desde a mais optimista à mais desesperada. Contudo, há um dado que não é surpresa, o facto de na maior parte das respostas constar o desejo indiscutível de regressar, pelo menos, de visitar o seu país de origem. Para alguns, o desejo e o projecto de um eventual retorno ao país de origem, representa o único futuro que querem antever. Porém, talvez para muitos, exista uma contínua ambivalência quanto às suas expectativas futuras e o que gostariam para si e para a sua família. Isto é resumido por um refugiado para quem a única solução são as acções: um refugiado iraniano, casado, com uma criança, na Bélgica:

"Eu não penso no futuro porque é uma promessa. É melhor ajudar as pessoas e dar o exemplo em vez de se fazerem promessas".

Outros refugiados desejam simplesmente aquilo que consideram como a coisa mais valiosa na vida: uma mulher da Síria que vive na Grécia diz:

"O que eu espero do futuro é que a minha família tenha boa saúde e também desejo que eu tenha uma vida melhor ... Apenas o que toda a gente deseja: uma vida melhor ... nada mais, viver em paz ..."

Regresso

Para alguns, o regresso é desejado para que possam retomar a vida que perderam e desempenhar de novo um papel significativo na sua sociedade. Uma mulher da Somália que vive na Dinamarca há mais de 10 anos, com um bebé, afirma:

"Aqui não tenho futuro. Eu quero regressar. Especialmente agora que o meu país está em paz. Eu penso que lá posso ter muito mais e muito melhores oportunidades de usar a minha educação e de conseguir uma vida melhor para o meu filho. E, além disto, posso ser útil e ajudar o meu país e o meu povo. Eu quero fazer um projecto e obter algum apoio de certas organizações internacionais ou trabalhar em algumas delas".

Um refugiado indiano em Portugal conta-nos:

"o meu objectivo é voltar e estar com a minha família onde eu passei a minha vida e onde eu cresci e será uma boa ideia olhar para trás e ver como as coisas mudam conforme o tempo passa. Preciso de obter a minha documentação e estabelecer ligações entre a minha terra (família) e a Europa. Se conseguir isso, tenciono fazer qualquer coisa pelas crianças pobres do meu país e realizar qualquer tipo de trabalho, como a Madre Teresa."

Um gambiano explica que era um político no seu país e, quando a situação política mudar, espera voltar, embora isso vá causar problemas com as crianças que, então, já estarão adaptadas a Espanha.

"A nossa terra é a nossa terra. Nunca foi minha intenção vir e ficar por completo. Vai depender se há uma mudança de governo, se há uma mudança para um governo democrático. Mas os meus filhos dizem-me: ’Se tu queres ir, tu podes ir. Mas nós não vamos, nós ficamos em Espanha. Nós passámos por muito na nossa terra, não queremos começar a vida a partir do zero."

Integração

Nas entrevistas há um certo número de refugiados que deixam claro que já decidiram integrar-se na sociedade de acolhimento e sobreviver fora das suas sociedades. Não obstante, a perda da sua terra está patente nesta citação de uma mulher bósnia na Dinamarca:

"O meu objectivo é arranjar um emprego e ter melhores condições de vida. Aqui, o dinheiro é tudo. O pior já passou. Mesmo quando foi difícil consegui o que queria. Eu alcancei o meu objectivo, se se pode dizer objectivo, no meu país era normal ter uma casa. Agora eu tenho-a e sinto-me bem, só falta um emprego. Se eu conseguisse isso, penso que a minha vida se pareceria com a que tinha no meu país. Quando eu tiver emprego, posso agarrar no meu dinheiro e ir ao cinema e ir comprar um vestido e viajar para Itália e Espanha, ver o mar ou para a nossa costa azul do Adriático; eu espero que possa fazer todas estas coisas novamente. É como eu vejo o meu futuro, espero que um dia as coisas sejam melhores, não é possível continuar sempre assim. Eu penso que o pior já passou, foi mau e Deus ajudou-nos e esperemos que não volte a acontecer de novo."

Um refugiado iraniano, casado com uma dinamarquesa, afirma:

"Eu gostaria que os meus filhos crescessem como todas as outras crianças dinamarquesas. Eu não gostaria que eles fossem chamados estrangeiros de segunda geração. Eles nasceram na Dinamarca, então serão dinamarqueses. Mas, também ficaria feliz se viessem a conhecer quem eu sou, que conhecessem a cultura e as tradições iranianas."

Os problemas que esta mulher casada, iraquiana, com duas crianças crescidas, passou na vida explicam os seus sentimentos um tanto confusos:

"Desejo que toda a minha família fique aqui na Dinamarca, para sempre. Por vezes, eu penso de forma positiva, mas outras vezes de forma negativa. E, quando penso de forma negativa, rezo a Deus."

Integração por intermédio das crianças

Os traumas por que passaram alguns refugiados mais velhos faz com que encarem o futuro por intermédio dos filhos. Uma viúva bósnia com uma filha na Dinamarca:

"E já não penso mais no futuro. Só há uma coisa que eu quero realmente é que a minha filha tenha uma vida normal aqui, seja bem aceite no seio desta sociedade, se sinta aqui bem, tenha a possibilidade de ter uma vida normal aqui."

Uma mulher casada, proveniente da Bielo Rússia, com uma criança na Bélgica:

"Eu não vejo o meu futuro negro e estou optimista por causa do meu filho. Não tenho a certeza quanto a mim e ao meu marido, mas espero que o meu filho fique em melhor situação."

Este kosovar, casado, ainda não desistiu completamente dos seus projectos, mas a prioridade vai para o futuro dos seus dois filhos na Bélgica:

"Quando se é pai, a nossa vida parece que acabou. Primeiro, eu penso nos meus filhos. Depois, espero algum dia poder trabalhar para a Albânia, encontrar uma ligação entre a Bélgica e a Albânia. Isto pode ser feito com diversas companhias ou mesmo através dos governos, através do poder local. Eu espero e penso que as coisas vão melhorar."

Para um refugiado do Burundi, a filha é a principal razão da sua determinação para sobreviver na Grécia:

"No dia em que ia deixar o meu país, o exército foi à minha procura. Encontraram o meu pai, a minha irmã, a minha mãe e perguntaram-lhes onde é que eu estava e a família disse-lhes que eu tinha ido embora. Perguntaram-lhes porque é que eu tinha ido embora e eles disseram que não sabiam. Então, mataram-nos. Eu ainda estava no meu país. Mataram-nos porque andavam à minha procura ... quando eu me lembro disto, sinto-me mal, às vezes eu lembro-me. A minha filha olha para mim e pergunta porque é que eu estou assim. Eu não gosto de recordar. Esta história pertence ao passado. Nós temos de preparar o futuro, temos de o preparar para esta criança .. Eu agradeço a Deus porque estou com a minha família..."

Uma bósnia, com instrução e com duas crianças, que vive na Dinamarca, diz:

"Eu espero que nós os dois, eu e o meu marido, consigamos depressa um emprego. Também espero que possamos comprar uma casa para a nossa família. Mas, a minha maior esperança é que os meus filhos tenham um futuro lindo e feliz neste país. Nós decidimos ficar aqui, então espero que os meus filhos se sintam em casa aqui"

Mesmo quando se sonhe voltar um dia, na essência, a presença das crianças irá determinar a vida do resto da família, como menciona uma somali, casada, com duas crianças na Holanda:

"O meu sonho é ter uma vida estável aqui, terminar os meus estudos e ter um bom emprego mais tarde. Que os meus filhos cresçam e terminem a escola. Quando os meus filhos se licenciarem e já não precisarem mais de mim, talvez nessa altura eu possa voltar ao meu país".

Uma iraquiana curda, com instrução e com três filhos, a viver na Holanda, afirma:

"Eu não tenho expectativas. Eu vivo o dia-a-dia. Quando eu estava no Iraque costumava ficar contente com pequenas coisas; por exemplo, ficava satisfeita por comprar um vaso no mercado local. Hoje em dia, se tivesse um carro novo ou uma casa isso não significaria nada para mim. Isso já não me interessa mais. Às vezes interrogo-me porquê. Talvez seja porque me tornei refugiada? Eu não sinto nada. Só desejo um futuro melhor para os meus filhos."

Uma mulher da Síria, doméstica, com duas crianças, afirma:

"É difícil dizer quais são as minhas expectativas para o futuro. Na realidade eu não tenho expectativas. É difícil para mim. Por vezes penso acerca disto em casa. Eu desejo ter um bom emprego aqui na Holanda, espero que os meus filhos estudem para que possam ter um bom emprego também e espero vir a falar bem holandês."

Cosmopolitas e individualistas

Certo número de refugiados, especialmente os que têm educação superior, já tinham contactado com ideias e povos de outras culturas. Sentem-se, frequentemente, menos ligados exclusivamente à sua própria cultura e são mais dados a ver o mundo como uma unidade. A chance de terem chegado a um certo país, muitas vezes, deve-se apenas a isso; podem ter estudado aí, podem ter laços familiares ou de amizade, mas, noutros casos, chegam ao país de acolhimento por ser o primeiro país de refúgio seguro. A capacidade de se percepcionarem como cidadãos do mundo, como pessoas com os seus próprios planos, faz com que a integração seja um tema interessante. Podem adaptar-se extremamente bem à sociedade de acolhimento, mas definitivamente, se questionados acerca dos seus projectos futuros, vêem isso em termos das suas carreiras, na capacidade de viver a vida do modo que desejam e de mais uma vez reafirmarem o seu estatuto na nova sociedade. Existem muitos exemplos disto nas narrativas dos refugiados.

Uma mulher divorciada da Eritreia, na Suécia, é bastante clara:

"Eu quero prosseguir os meus estudos e não penso voltar para o meu país. Estou a planear fazer informática, além dos meus estudos pós-graduação. Se não for possível fazer ambos, prefiro estudar informática porque, com qualificações em informática, é mais fácil arranjar emprego, não só na Suécia, mas também noutros países desenvolvidos e, em particular, nos países em vias de desenvolvimento"

Um somali de 30 anos, na Suécia, afirma:

"Eu quero continuar os meus estudos em teatro porque escrevo pequenas histórias de boa qualidade e gosto de ser actor. Eu não consigo fazer isso e não encontro trabalho, quero viajar para outros países e procurar emprego. Se a situação na Somália mudar, quero voltar."

Um artista curdo, na Holanda, é bastante eloquente ao falar dos seus sonhos para o futuro, não apenas em relação a ele próprio, mas a uma Europa multicultural:

"As minhas expectativas para o futuro têm de ser positivas ... Um dia quero voltar para a minha terra. Eu prefiro voltar. Eu gosto de lá, mas não posso fazer isso agora. Enquanto aqui estou a minha vida também continua, não me vou sentar e esperar, só para ver se as coisas na minha terra vão mudar ou não. Bem, isso não. Enquanto eu aqui estiver durante cinco, dez, vinte anos ou por quanto tempo for, eu vou aprender e ensinar a outras pessoas, mulheres e homens de modo idêntico. Por conseguinte, eu não posso perder a oportunidade de conhecer milhares como eu, como tu e outros. É difícil começar, mas a seu tempo irá crescer. Nós vamos mudar as coisas para o bem de todos nós. Esta é a forma como eu vejo o futuro com a participação de todas as culturas; isso vai avançar. Evidentemente, haverá algumas pessoas que não vão permitir que eu faça isso, mas estão feitas e já não me podem ignorar porque eu posso recorrer à lei, exercer os nossos direitos democráticos, e porque dominamos a língua. Nós tornamo-nos aptos a expressar as nossas opiniões e pensamentos e, deste modo, temos um papel participativo. Resultado, as pessoas menos avançadas começam a querer ouvir-nos. Vai levar alguns anos, naturalmente. Quando ando a passear em Roterdão, eu observo uma série de relacionamentos mistos e isso transmite-me um sentimento positivo muito bom porque é uma mistura de culturas, de personalidades e de tudo o mais o que significa aprender com outra cultura. No futuro haverá uma imensa e calorosa raça. Já não se podem esconder as diferenças, tu vês justamente que toda a gente se mistura com toda a gente e é uma coisa positiva e é o meu ponto de vista sobre o futuro."

Alguns artistas em particular estão aptos a funcionar onde quer que se encontrem e, na verdade, podem achar os países democráticos europeus, com a sua liberdade de expressão, os seus mercados mais alargados e indústrias culturais desenvolvidas de melhor índole para as suas vidas: Um congolês com instrução, na Holanda, diz que o que ele deseja é:

"Ser uma celebridade, eu sou um poeta, um escritor. No final deste ano vou publicar o meu livro de poesia. Eu também ganhei prémios. Este países tem imensas possibilidades e facilidades, mas tens de as utilizar bem. Eu possuo um talento, consigo escrever. Estou num bom sítio, comparado com o Zaire, eu tiro proveito disso.

Uma jornalista da Bósnia, com uma filha, na Bélgica, diz:

"Eu espero começar a trabalhar na universidade e creio que isso é bom para transmitir conhecimento à nova geração. Também é bom para mim apresentar-lhes a minha cultura. Tu ensinas gente jovem e manténs-te jovem. Eu espero que a minha filha acabe a universidade aqui e ensino-a a gozar a vida. Espero que um dia possa cuidar dos meus netos."

Um argelino, há quatro anos em Itália, declarou que se tinha assimilado e aprendido a língua e que estava a trabalhar, mas que o seu principal centro de interesse era coordenar um grupo de árabes do Mediterrâneo e escrever o seu novo livro, esperando incrementar essas relações.

"Eu penso que o futuro será resultado do que estamos a fazer agora."

Mudar a sociedade de acolhimento

Certo número de refugiados vê o seu futuro na sociedade de acolhimento na esperança que ela mude. Em particular, são condições vitais para a sua residência permanente a diminuição ou desaparecimento do racismo, o desenvolvimento de uma Europa multicultural, o respeito pelos direitos humanos e as diferenças. Um iraniano com instrução, na Holanda, conta-nos:

"Eu espero que a sociedade holandesa deixe de estigmatizar os refugiados e deixe de lhes chamar todos aqueles nomes (minorias, refugiados, estrangeiros, etc...) ... Ser refugiado é qualquer coisa que acontece uma vez na vida, não é um atributo do carácter ... Espero que comecem a ver-nos como seres humanos: "Tu és tão inteligente". O modo como ele olhava para mim era muito ofensivo. Toda a gente pode aprender, não importa de onde és nem de que cor é a tua pele."

Um outro homem, na Holanda, vindo do Afeganistão, médico no seu país de origem, conta-nos:

"Ouvem-se sempre coisas como "estrangeiros", "refugiados", "minorias", "caçadores de fortunas". Nós tentamos muito integrarmo-nos e participarmos. O meu sonho é que um dia não ouça estes termos. O meu sonho é uma sociedade igualitária, com um país e uma nacionalidade."

Um argelino em Itália, falando acerca da deficiente planificação visando os refugiados sugeriu que:

... "os refugiados têm de estar unidos porque, se fica cada um para o seu lado, não conseguimos fazer nada, mesmo se aqui ficarmos durante 50 anos. A unidade faz a força e quem disse isto não estava errado porque a união verdadeira é força. Um homem com uma mulher fazem um bebé e este bebé cria uma geração e a união entre homens e mulheres constitui uma força efectiva..."

A necessidade que se faz sentir em certos países do Sul da Europa de desenvolvimento de políticas de apoio a favor dos refugiados foi comentada por diversos refugiados: um tunisino, com instrução, em Itália, tem esperança numa legislação e direitos mais claros.

"Aqui tu tens de lutar por tudo, ter realmente muita paciência para se conseguir qualquer coisa, o que não acontece na Suíça, Alemanha, Holanda, Inglaterra e também em França, um pouco menos do que nos outros países, mas é melhor do que em Itália. A situação dos refugiados em Itália é tal que há necessidade de algumas leis de apoio aos refugiados e, se possível, imaginar outros métodos que garantam, que procurem integrar os refugiados na sociedade e a primeira etapa para integração é o trabalho e também a habitação, é muito difícil. Os dois problemas mais importantes que os refugiados têm em Itália são o emprego e a habitação. O problema da informação: o refugiado dirige-se a vários locais da administração, tem de procurar a informação, às vezes eu penso que há coisas que podem ajudar o refugiado, mas ele não as conhece."

Idênticos comentários foram feitos por um outro refugiado que vive em Itália, um albanês deficiente:

"O governo italiano devia fazer com que as pessoas compreendessem que um refugiado é completamente diferente de um imigrante. Um refugiado é como um italiano. Até devia ter mais direitos do que um italiano uma vez que ele não tem nada quando chega ... O governo devia criar um centro de integração gerido por refugiados experientes porque eles conheceriam os problemas dos outros refugiados/requerentes de asilo/pessoas deslocadas. Os refugiados são os únicos que podem fazer qualquer coisa pelos outros refugiados, mas, para fazer isso, teriam que ser apoiados pelo governo."

Definir a integração

Após o período inicial de adaptação, os refugiados têm uma perspectiva bastante diferente sobre a integração. Vários assinalam o facto de que a integração depende das atitudes dos países receptores, nomeadamente da sua orientação a favor do multiculturalismo. Como afirma um curdo, criativo, com 7 anos de experiência de vida na Holanda e com cidadania holandesa:

"Na minha opinião, para se tornar parte integrante de uma sociedade não é porque se está a viver nela, mas porque se vive como parte do sistema, tem que se ser aceite pela maioria do sistema como parte deste. Se não o és, sentir-te-ás sempre um intruso......Muitos refugiados encontram-se no limiar da sobrevivência. Eles querem sobreviver dia-a-dia. É só sobrevivência. Viver para sobreviver não é considerado vida. Ora, para se ter uma vida, é preciso ser parte da comunidade e, quando se está no nosso país, é a comunidade em geral com que se conta. Aqui, infelizmente, nós não temos essa possibilidade... O meu entendimento de uma sociedade multicultural é que cada cultura contribua para a criação de uma cultura mais ampla. Mas as pessoas não falam neste contexto. Na realidade, do que elas falam é da ocidentalização das outras culturas ... O que me preocupa é que em Roterdão, por exemplo, qualquer medida política ou decisão referente a matérias multiculturais são tomadas por holandeses, desde os políticos no topo até aos funcionários públicos, é só holandês."

O debate sobre o que é multiculturalismo e integração é, implicitamente, um debate importante. Alguns refugiados alvitram a ideia de que a integração depende só deles e não da sociedade receptora. Como afirma um peruano especializado, de meia idade, que vive no Luxemburgo:

"Eu posso afirmar que estou muito bem integrado na sociedade ... Falando de adaptação, cabe-nos a nós, refugiados, adaptarmo-nos e integrarmo-nos. Para isso, é necessário dominar a língua e inserir-se na vida social. Por um lado, é difícil encontrar trabalho. De qualquer maneira, se se arranjar um emprego, tem de se ter interesse por ele."

Um cubano novo, com instrução, concorda com esta perspectiva sobre a integração:

"Eu creio que a integração depende da própria pessoa. É mais fácil para um estrangeiro se adaptar a quarenta milhões de espanhóis do que o contrário. Eu penso que nós próprios temos muito a fazer. "

Para alguns refugiados o facto de serem forçados a deixar o seu país de origem ainda é uma questão quente, levando-os a esperar que o país de acolhimento compreenda a sua situação e os apoie. Acham que não é da sua responsabilidade se integrarem e existe um sentimento de irritação e perda, sentindo-se traídos. Um homem do Burundi, de 30 e tal anos, possuindo um nível técnico de educação, conta ao entrevistador:

"Por que é que nós deixámos o nosso emprego e viemos para aqui? É porque gostamos da Grécia? Não. É porque há um problema, há guerra. Se hoje houver paz no meu país eu voltarei porque eu podia ser pobre, mas lá era feliz. Eu conheço o meu país."


 

Capítulo 15:
    OBSERVAÇÕES FINAIS


É extremamente difícil proceder a generalizações acerca das experiências de integração dos refugiados na Europa uma vez que são altamente pessoais e inerentes a contextos específicos, como revelou este relatório. O espaço de tempo que se vive num Estado-Membro, as experiências académicas e profissionais antes da chegada, tudo tem influência para o que é considerado importante em termos de integração. Os exemplos dados não devem ser interpretados como cumulativos, porém, cada caso apresenta uma experiência e uma situação que se verificam em outros países de acolhimento. Neste sentido, cada história tem algo que sugira ao leitor elementos que ajudem a integração, aquilo que designamos como "pontes" para a integração, bem como os obstáculos ou barreiras à integração, aqui designadas como "muralhas".

Ao analisarem as quase 150 entrevistas, os pesquisadores ficaram inevitavelmente com impressões acerca da integração que podem ser úteis no realinhamento das políticas e práticas destinadas aos refugiados. Todos os comentários seguintes resultam das observações feitas pelos refugiados - se bem que interpretadas pelos pesquisadores:

Os comentários dos refugiados espalhados pela União Europeia irão marcar os leitores deste relatório. As barreiras levantadas pela sociedade de acolhimento e pelos próprios refugiados contra a integração têm que ser substituídas por mais pontes, por formas de tornar a vida melhor, mais fácil, mais agradável e mais positiva nas sociedades de acolhimento europeias. Essas pontes enriquecem a vida, tanto dos refugiados como dos membros das sociedades de acolhimento.


 

Anexo 1
Entrevistadores dos refugiados e organizações envolvidas nos 15 Estados-Membros


ALEMANHA

Diakonisches Werkbayern, Pirckheimerstrasse 6, 90408 Nürnberg
Tel: + 499 119354395 / Fax: + 499 119354469
Entrevistador: Sugumar Kathirgamanayagi

 

ÁUSTRIA

Integrationshaus, Engerthstr. 161-163, 1020 Viena
Tel: + 43/1/212 35 20-31 / Fax: + 431 2123520-19
Entrevistador: Zouhair Hassan Jalil al Much

 

BÉLGICA

OCIV, Gaucheretstraat 164, B-1030, Bruxelas
Tel: + 322 2740020 / Fax: + 322 2010376
Entrevistador: Marie Christine Nyatanyi
 

DINAMARCA

Conselho Dinamarquês para os Refugiados, Borgergade 10, P.O. 53, 1002 Copenhaga K.
Tel: + 453 3735000 / Fax: + 453 3328448
Entrevistador: Vildana Kapo
 

ESPANHA

FEDORA, C/ Mar de Bering, 5-1 D, 28033 Madrid
Entrevistador: Bushra Abdul Razzak
 

FINLÂNDIA

Entrevistador: Alioune Malick Sene
 

FRANÇA

France Terre D’Asile, 25 rue Ganneron, 75018 Paris
Tel: + 331 53043999 / Fax: + 331 53040240
Entrevistadores: Yaele Aferiat / Ahmed Chtaibit
 

GRÉCIA

Conselho Grego para os Refugiados, 25 Solomou Str, 10682 Atenas
Tel: + 301 3802508 / Fax: + 301 3803774
Entrevistador: Anna Charapi
 

HOLANDA

Vluchtelingen Werk Nederland, P.O.Box 2894, 1000 CW Amsterdão
Tel: + 312 03467200 / Fax: + 312 06178155
Entrevistador: Haimonot Salvatore

IRLANDA

Conselho Britânico para os Refugiados, 3 Bondway, SW8 1SJ
Tel: + 0171 820 3070 / Fax: + 0171 582 9929 em cooperação com o projecto Access Ireland Refugee Social Integration, Richmond Business Campus, North Brunswick St, Dublin 7 . Tel: + 3531 8780589 / Fax: +3531 8780591
Entrevistador: Dr Luky Lubanziladio

ITÁLIA

Conselho Italiano para os Refugiados (CIR), Via del Velabro 5/A, 00186 Roma
Tel: + 3906 69200114 / Fax: + 3906 69200116
Entrevistador: Arif Oryakhail
 

LUXEMBURGO

Fundação Caritas Luxemburgo, B.P. 1721, L-1017 Luxemburgo
Tel: + 352 402131530 / Fax: + 352 402131409
Entrevistador: Amar Bounaira
 

PORTUGAL

Conselho Português para os Refugiados,
Bairro do Armador - Zona M - Chelas - Lt 764 Loja D/E, 1900 Lisboa
Tel: + 3511 8375070 / Fax: + 3511 8375072
Entrevistador: Francisco Xavier Fernandes
 

REINO UNIDO

World University Service, 14 Dufferin Street, EC 1 Y 8PD Londres
Tel: + 441714265800 / Fax: + 441712511314
Entrevistador: Farida Stanikzai

 

SUÉCIA

Entrevistador: Abdalla Gasim Elseed
 


 

Ane
xo 2
A INTEGRAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DOS REFUGIADOS
GUIÃO DE ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA


O objectivo das perguntas abertas é deixar cada refugiado respondente estruturar a sua resposta como queira, sublinhando os elementos que considera importantes. Neste sentido, estas perguntas têm carácter biográfico, se bem que nós salientamos a integração, não nos debruçando sobre a história do seu passado, ou seja, como é que se tornaram refugiados. É isso que torna este relatório diferente daqueles que já foram produzidos em muitos países sobre experiências dos refugiados.

A primeira questão é de interesse vital porque é inteiramente aberta - deixando o refugiado que está a ser entrevistado recordar e priorizar as suas respostas no que respeita à integração. Como é que definirão isso, também se irá ver. Há problemas que se levantam, já que para cada caso toda a gente estará a trabalhar numa língua estrangeira e é preciso discutir o que é que se entende por um termo como "integração". As suas experiências (em particular na sua condição de refugiado) no país onde vivem, o seu conhecimento local e a especificidade do refugiado e do contexto societal, constituirá a base que melhor nos ajudará a obter um relatório de cruzamentos culturais, sendo produzida informação idêntica em contextos muito diferentes.

Pergunta Aberta

1.

Podia falar-nos acerca das suas experiências, desde que chegou a este país até agora, sobre a adaptação, a vida e a integração nesta sociedade. Nós estamos interessados nas suas experiências no domínio da educação, emprego, formação profissional, saúde, habitação, vida social, relações com os vizinhos, etc. Pode começar por aquilo que quiser. Eu não o vou interromper. Quando acabar, talvez lhe faça algumas perguntas adicionais. Fale-me de tudo o que considera importante.

 

(esperavam-se respostas que iriam dos 5 aos 40 minutos; porém, instigadas com algumas perguntas direccionadas [p.d.], as respostas poderiam ser ainda mais longas a fim de contemplar algumas áreas específicas de nosso interesse.)

Educação

1.

Podia dizer-me alguma coisa acerca dos seus antecedentes educativos, no seu país e aqui?

1.a

[p.d.] As suas qualificações foram reconhecidas neste país?

2.

Como é que aprendeu a língua deste país?

2.a

[p.d.] Como é que sabe o que se passa neste país e no mundo? Consegue seguir as notícias?

3.

Tem alguma experiência com o sistema educativo local? (família e parentes também?)

Emprego

1.

Pode falar-nos sobre as suas experiências relacionadas com trabalho/emprego neste país. (abrangendo assuntos como o desemprego, as dificuldades em encontrar trabalho, a não aceitação das qualificações / experiência anterior, preconceitos)

1.a.

[p.d.]Como é que procura trabalho?

1.b.

O que é que mais o/a ajudou a encontrar trabalho? (anteriormente, agora)

1.c.

[p.d.] Sentiu discriminação ao procurar trabalho ou no local de trabalho?

2.

Como que é que se orienta economicamente aqui? ([p.d.] - se não tem emprego remunerado adequado estável/a tempo inteiro, redes de apoio; parentes, amigos, trabalhos ocasionais, filantropia, etc.)

2.a.

(Se depende da segurança social) Vê algum modo de sair desta situação?

3.

Quais são as suas esperanças / expectativas em relação ao emprego quando chegou a este país e quais são agora?

Formação Profissional

1.

Já tentou frequentar formação profissional neste país? (se sim) Fale-nos disso? (boa, má, satisfez as suas necessidades) (se não) Porque não?

2.

Como é que soube do sistema local de orientação e aconselhamento profissional, de formação profissional e colocação em estágio? Teve acesso a isso?

3.

Achou isso útil para conseguir um emprego? (se não - explicar porquê)

Habitação

1.

Fale-nos das suas experiências no que respeita a habitação, por exemplo, como é que arranjou alojamento, das suas relações com os vizinhos, se a habitação é adequada?

1.a.

(se não se referir a discriminação) Pensa que teve mais dificuldades com o alojamento do que a população local?

2.

Vive perto de outros refugiados da mesma nacionalidade? Foi uma opção sua?

Saúde

1.

Fale-nos de qualquer experiência que possa ter tido com o sistema de saúde neste país? (esta pergunta também abrange experiências com membros da família)

1.a.

([p.d.]- se nenhuma. Confirme perguntando - Isso deve-se a não ter problemas de saúde?)

1.b.

[p.d.] Tem informação sobre onde se dirigir e quais os serviços disponíveis?

1.c.

[p.d.] Consegue identificar algumas dificuldades com que se deparou, no passado e agora, para aceder aos serviços de saúde?

2.

Como é que descreveria o seu estado geral de saúde (mental e física), primeiro, quando chegou a este país e agora?

3.

Há algum serviço de saúde que lhe faça falta em particular ou que gostaria de ter tido acesso como refugiado?

Integração Sócio-Cultural

1.

Pode dizer-nos alguma coisa acerca da sua vida social neste país? (achega) actividades e eventos, amigos, pertença a organizações locais, etc.

1.a.

As pessoas daqui convidam-no(a) para sair, ir às suas casas, para casamentos, etc.

2.

É membro ou participa activamente em qualquer organização de refugiados? Essa qualidade ajudou-o (a) a adaptar-se à vida deste país?

3.

Interessa-se pela política local, movimentos religiosos ou sociais? p.ex. gostaria de votar?

ONGs (se não estiverem incluídas nas respostas já dadas)

1.

Teve alguma experiência com as ONGs nacionais para refugiados? Fale-nos da sua experiência.

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