Dedicatória do Livro "Guerra e Política"

do general Kaúlza de Arriaga a sua Mulher

Kaúlza de Arriaga

 

DEDICATÓRIA

Ao apresentar todo o texto que se segue, não posso deixar de começar por referir a personalidade e a acção de minha Mulher, a quem o dedico.

Maria do Carmo que, aos 22 anos de idade, já suportava, afoita e brilhantemente, as não pequenas nem fáceis complicações da vida de um marido, membro activo do Governo, numa pasta militar e em época com frequência agitada. Que, então e posteriormente, sempre me acompanhou, apoiou, ajudou e estimulou, nos diversos cargos que exerci e nas várias situações que vivi, com a sua presença encantadora, a sua superior moral, a sua total dedicação, a sua grande coragem, a sua muita clarividência, o seu critério tão equilibrado, a sua imaginação, a sua iniciativa e o seu dinamismo. E que, assim, tem grande parte do mérito no que eu possa ter feito de bem e de bom, naqueles cargos e naquelas situações.

Mas não se limitou a actuar em relação às minhas funções. Realizou Obra própria e notável: na Acção Católica, onde seguiu o caminho da sua Mãe, Senhora também excepcional pelo seu carácter e pelos seus dotes espirituais e intelectuais; na Liga Portuguesa Contra o Cancro, onde foi presidente do Núcleo Regional do Sul; nas Associações de Pais, onde foi membro do Conselho Executivo; na Comissão Coordenadora de Reintegração Social dos Deficientes de Guerra, em Moçambique, de que foi presidente; etc …

Mas teria sido em Moçambique, durante os quatro anos do meu Comando, que minha Mulher mais evidenciou a altura das suas qualidades. Ali, além dos seus já naturais acompanhamento, apoio, ajuda e estímulo, esteve comigo, alheia ao cansaço e ao perigo, onde e quando uma presença feminina tinha valor, fosse em actos sociais ou públicos, fosse junto de doentes e feridos, particularmente dos mais graves, fosse nos momentos emotivos dos Natais vividos com as tropas em operações, fosse mesmo em estadas de não menor emoção no próprio campo da luta. Ali, coordenou, com acerto, e grande impulso e tenacidade, a obra maravilhosa da reintegração de tantos deficientes de guerra na vida e actividades normais, seguindo-os, com outras Senhoras, no hospital e a partir dele, e conseguindo-lhes, igualmente com outras Senhoras, as suas novas habitações e os seus novos postos de trabalho.

Também, evidenciou a mesma altura de qualidade durante os quase 16 meses da minha prisão, período no qual, além de se manter, sabe Deus com que esforço e sacrifício, bem acima da tormenta, lutou com fé, plena de certeza, cabeça erguida, argumentando e agindo perante quem convinha, insistente e desassombradamente, no sentido de ser posto termo à arbitrariedade, prepotência e iniquidade de que eu era objecto.

E soube conciliar tudo isto com a missão, de responsabilidade maior, de criar cinco filhos e de tratar, naturalmente com o mais elevado empenho, da sua apurada educação; e com a tarefa do governo exemplar de uma casa muito movimentada e frequentada.