CARTA DIRIGIDA AO

JORNAL "PÚBLICO"

EM 30 DE SETEMBRO DE 1995

 

Lisboa, 30 de Setembro de 1995

REGISTADA COM AVISO DE RECEPÇÃO

 

Exmº. Senhor
Vicente Jorge Silva
Director do Jornal "Público"
Rua Amílcar Cabral, nº 25
Quinta do Lambert
1750 Lisboa

 

Exmº. Senhor Director,

Solicitamos que, como resposta ao artigo que a seguir se refere e ao abrigo da Lei de Imprensa, particularmente do seu artigo nº 16º do Decreto-Lei nº 85-C/75, alterado pela Lei nº 15/95, a presente carta seja publicada na íntegra no jornal "Público".

O ARTIGO DO "PÚBLICO"

O JORNAL "Público" inseriu, com grande destaque, no seu número de 10 de Setembro corrente, na primeira página e nas páginas 34 e 35, um artigo intitulado "ONU acusou Portugal de genocídio".

Este artigo contém essencialmente um relatório de 1974, de uma comissão da ONU, especialmente criada para averiguação das sevícias, que ela, ONU, supunha praticadas, pelas tropas portuguesas, sobre as populações moçambicanas. O relatório foi entregue ao presidente da "Comissão dos 24", dessa ONU, para exploração.

O relatório conclui: que Portugal preparava o genocídio dos moçambicanos ou qualquer coisa disso muito próxima; que empregava armas químicas e bacteriológicas. E descreve, ainda, a prática sistemática, pelas tropas portuguesas, de actos e massacres hediondos, da maior selvajaria.

A VERDADE

Para quem conhece:

a política ultramarina portuguesa de então e os consequentes objectivos de Portugal em África, que bem podem sintetizar-se na frase "podemos formar novos brasis mas não admitiremos que nos obriguem a lançar povos no caos";

a estratégia e a táctica portuguesas de contra-subversão, que, também, bem podem sintetizar-se na frase "convencer inteligências e conquistar corações";

o alto nível, em termos de moral em geral e de ética castrense, da quase totalidade dos Oficiais portugueses que exerceram comandos em Moçambique;

a índole do bom povo português;

a acção, extensa e intensa, de desenvolvimento das populações , executada em Moçambique, pelas tropas portuguesas, em termos de paridade, harmonia e dignificação étnicas, de coexistência de religiões e crenças e de conciliação de culturas e tradições, e em termos de educação, de assistência sanitária, de possibilidades económicas e de desempenho de cargos políticos, acção na qual se integravam os aldeamentos como polos eleitos de tal desenvolvimento;

a entrega da segurança de grande parte de Moçambique e dos moçambicanos a elementos africanos, quer através do regime de auto-defesa e de milícias, quer através de tropas regulares e de unidades especiais, como companhias de Comandos, GE e GEP;

etc…

Quem tudo isto conhece, logo considera o relatório uma falsidade monstruosa e uma calúnia miserável.

E para quem conhece:

que Moçambique estava sendo atacada pelo imperialismo comunista, em termos de infiltrações subversivas nas etnias cujos "habitat" se situavam de um e de outro lado das fronteiras;

que Portugal defendia, contra-subversivamente e com sucesso, o território e as populações moçambicanas, sem que nunca se tivessem empregado ou pensado sequer empregar armas químicas e bacteriológicas;

que, em consequência, defendia o conjunto da África Austral e o próprio Ocidente, ao evitar que esta África Austral, controlada pela URSS e pela China Continental, passasse a constituir grande, enorme, dificuldade para o Ocidente – falta de minérios e falta de petróleo – na confrontação Leste-Oeste, na época, no seu auge;

que os autores do relatório em causa eram pelo menos cripto-comunistas, espécie de satélites da URSS e da China Continental, e, necessariamente, vazios de escrúpulos;

etc…

Quem tudo isto conhece, logo entende as causas da falsidade monstruosa e da calúnia miserável.

Assim, o relatório é, em geral, asqueroso e abjecto, quer no relativo à acusação de genocídio e às armas empregadas, quer no referente aos actos e massacres sistemáticos e selvagens. E, especificamente, é anti-combatentes portugueses em Moçambique, anti-Forças Armadas Portuguesas, anti-Portugal e até anti-Ocidente.

A ATITUDE DE ALGUNS PORTUGUESES

Por outro lado, não se entende que um relatório, ocultado durante mais de 20 anos, por razões que escaparam à ONU de 1974, mas que parecem conhecidas das ONU que se seguiram - decerto a falsidade - , seja agora motivo de esforços estranhos de jornalistas portugueses no sentido de, com grande alarde, lhe ser dado conhecimento público.

Quanto aos dois militares portugueses, um Marechal e um Coronel, que apoiam o relatório, o caso atinge um cúmulo que só pode ser resolvido ao mais alto nível do Ministério da Defesa Nacional.

CONCLUSÃO

E, das muitas reacções que, nós que combatemos em Moçambique, poderíamos ter, perante o assunto em causa, sentimos, como a mais adequada e merecida, o desprezo, desprezo que nos conduzirá a procurar não mais a ele nos referirmos.

Os nossos cumprimentos.

Seguem-se as assinaturas dos Oficiais que subscrevem esta carta, que são:

General António Augusto dos Santos
General Kaúlza Oliveira de Arriaga
General Tomás Bastos Machado
General João Tiroa
General Silvino Silvério Marques
Brigadeiro António Eduardo Castro de Ascensão
Coronel António Patoilo Teles
Coronel João Craveiro Lopes
Coronel Jaime Neves
Coronel Rodrigo da Silveira
Então Capitão D. Francisco de Bragança Van Uden