MENSAGEM DIRIGIDA AO

GENERAL KAÚLZA DE ARRIAGA

PELAS FORÇAS DE TERRA, MAR E AR,

EM MOÇAMBIQUE,

 

QUANDO DO SEU REGRESSO À METRÓPOLE

 

NAMPULA, 24 DE JULHO DE 1973

 

DO COMBATENTE AO COMANDANTE

 

Combatentes que somos, cerca de quatro anos vivemos – a todos os níveis – o dia a dia do General Kaúlza de Arriaga. Porque combatentes que somos, lutámos a seu lado, sob o seu comando, em união de pensamento e de acção na guerra única que aprendemos a saber vencer. Guerra única – guerra total de todos quanto somos empenhadamente, pela manutenção da grandeza física do espaço português, pela justiça, humanidade e progressismo da solução social oferecida pela Nação Portuguesa, pela procura esforçada de uma paz justa de igual oportunidade para cada um e de ordem e progresso para todos.

 

Quatro anos dia a dia.

 

Com o nosso General Comandante-Chefe estivemos nas clareiras do planalto de Mueda ou nas savanas de Tete, vendo-o desembarcar do helicóptero em plena operação, na tensão do perigo, na segurança da vitória. Recebêmo-lo nos mais isolados estacionamentos de Cabo Delgado, Niassa e Tete, em horas de comunhão com tropas ou naquelas em que se tornava necessário uma palavra de estímulo ou de fé.

 

Observámo-lo na gravidade dos momentos de decisão, na sala-mestra do Quartel-General, frente aos mapas de situação, frente aos dados, frente à premência do tempo e dos problemas. Vimo-lo, em muitas madrugadas de cacimbo, candeeiro aceso sobre a mesa de trabalho, camisa aberta, na concentração de um despacho a proferir, de um relatório a preciar, de uma mensagem urgente a responder. Escutámo-lo no ensinamento da Palavra, no traçado das grandes linhas doutrinárias, no bosquejo das teses que depois iriam enformar comportamentos, atitudes, formas de ser e de estar. Lêmo-lo na mensagem escrita que até nós fez chegar em dezenas de entrevistas, contactos com os homens da informação, conferências de Imprensa. Estivemos nos mais reservados encontros que manteve com políticos, com diplomatas, com outros cabos-de-guerra, sempre que era oportuno o debate de ideias, sempre que foi preciso ser político para ser Comandante. E, com o General Kaúlza de Arriaga, bebemos o trago emotivo dos Natais de Pundanhar, de Tartibo, de Nangololo, do Fingoé. Vimos nascer alvoradas de ano novo, vimos desmatar cerros, surgirem aeródromos, levantarem-se pontes, serpentearem novas estradas, beirando fronteiras hostis, apetrecharem-se hospitais de guerra, construirem-se, um a um, aldeamentos e seus postos sanitários, suas escolas, seus centros de convívio, suas defesas, seus ambientes de paz na guerra.

 

Este General que nos deixa, este Comandante que ainda cedo parte, é, contudo, o Homem que fica. Na força de uma lembrança que é muito nossa, no prestígio de uma personalidade que perdura nas suas obras, na pujança de uma presença de comando que marcou fundos vincos de rara dignidade.

 

Há, em cada gesto recordado, um punhado de tónicas comuns, rasgo de visão, serenidade de decisão, requinte de humanismo – humanismo autêntico, generoso e lúcido.

 

Combatentes que fomos, sob as ordens deste Comandante que nos deixa, no dia a dia de cerca de quatro anos, o acompanhámos, o respeitámos – e o estimámos. À sua porta, sem portões nem sentinelas, cada um de nós teve a recepção quando precisou – e nunca foi de pressa a audiência, nunca foi de menos a atenção.

 

Talvez por isso – pela maneira de ser Chefe, pelo jeito de entender a alma de que somos alma e o sangue de que somos sangue, possa agora o General Kaúlza de Arriaga contar com um amigo em cada um dos que teve sob o seu comando. Talvez por isso – mas não só. É que não é impunemente que se é grande, de muito alto.

 

Do Combatente ao Comandante em respeitoso silêncio, numa hora de adeus.

 

O Combatente