MISSA DE ACÇÃO DE GRAÇAS

PROMOVIDA PELA CAPELANIA-MOR

DAS FORÇAS ARMADAS EM MOÇAMBIQUE

 

QUANDO DO REGRESSO DO

GENERAL KAÚLZA DE ARRIAGA

À METRÓPOLE

 

NAMPULA, 20 DE JULHO DE 1973

 

HOMILIA NA MISSA DE ACÇÃO DE GRAÇAS

 

Senhor General Kaúlza de Arriaga

Senhora D. Maria do Carmo

Caríssimos Irmãos do Sacerdócio

Cristãos

 

Na hora em que Vªs Exªs, Senhor General e Minha Senhora, regressam à Metrópole, após quatro anos de uma total dádiva à missão que vos trouxe a Moçambique, quisesteis vir até junto deste altar, onde vos ajoelhasteis ao longo destes anos, para render graças ao Senhor Deus dos Exércitos.

 

Os vossos nomes não só ficam gravados na História de Moçambique, mas, também, na história de Portugal e da Civilização Ocidental e Cristã, a qual, nestas terras, trava uma batalha, cujas consequências, se a vitória fôr nossa, de incalculáveis benefícios para a difusão do Evangelho, caso contrário, a Igreja poderá voltar às catacumbas nesta África tão conturbada.

 

Senhor General

 

Não faltou a Vª. Exª. A visão clara dos grandes problemas que aqui se debatem. Sempre teve a coragem de alertar, os responsáveis pela condução dos povos, para essas gravíssimas questões.

 

Vª. Exª. Soube aliar às suas responsabilidades de prestigioso e competentíssimo Chefe Militar, as responsabilidades inerentes à sua vocação cristã.

 

Somos testemunhas, nós, os Capelães Militares, que tudo fez para harmonizar as exigências de uma guerra subversiva, que nos impõem, com a doutrina da Igreja. Se falhas houve, não lhe podem ser assacadas, Senhor General.

 

Somos testemunhas, nós, os Capelães Militares, do excepcional interesse e carinho que sempre lhe mereceram os problemas da Igreja e, muito particularmente, os que diziam respeito ao Vicariato Castrense.

 

Por isso, aqui nos encontramos, os capelães responsáveis pela assistência religiosa às Forças Armadas em Moçambique, para agradecermos a Deus-Pai, por Cristo e em Cristo, a compreensão, a generosidade e amizade, com que Vª. Exª., Senhor General, sempre envolveu, não apenas as nossas pessoas, mas sobretudo e principalmente, a missão dos Capelães Militares.

 

Senhora D. Maria do Carmo

Minha Senhora

 

Não é, também, sem a mais profunda admiração que, nós, capelães, lhe prestamos, neste tão solene momento, a nossa sentida homenagem.

 

Vª. Exª., numa compreensão total dos seus deveres de esposa de um General, que por força da sua missão, com frequência, tinha de se deslocar ao teatro das operações, também ali, inúmeras vezes, quis estar presente.

 

A presença de Vª. Exª. era bem o símbolo da mulher-esposa, mãe, noiva … daqueles militares que, longe dos seus entes queridos, como que reviam, em Vª. Exª., as virtudes extraordinárias da Mulher Portuguesa.

 

As suas palavras, as suas ofertas, o seu carinho eram motivo de alegria, de conforto e de estímulo para os nossos bravos e corajosos militares, os quais são, certamente, os melhores do mundo, pelo seu espírito de generosidade, de sacrifício, de humildade e de humanidade. Nas suas almas está bem impresso o espírito do Evangelho.

 

Mas a sua presença nestas terras, Senhora D. Maria do Carmo, foi principalmente notável na rectaguarda, nos Hospitais, nas Enfermarias, junto dos doentes, dos feridos, dos mutilados.

 

Levada pelo seu espírito profundamente cristão, pondo a render todas as admiráveis virtudes humanas e cristãs, de que é possuídora, dinamizou à sua volta um conjunto de Senhoras que, nos Hospitais Militares de Nampula e Lourenço Marques, estão a realizar uma assistência moral e material, a todos os títulos notável.

 

E para aqueles mutilados que precisam de amparo mais cuidado, não regateou sacrifícios e canseiras para que lhes fossem distribuídos empregos e casas de habitação e, até, carrinhos e outros aparelhos necessários para poderem ser úteis à sociedade e não se sentirem frustrados.

 

Foram quatro intensos anos de bem fazer.

 

Senhor General

Senhora D. Maria do Carmo

 

E o casal – Vªs. Exªs. – Senhor General e Senhora D. Maria do Carmo, quantos sacrifícios mútuos de ordem conjugal e familiar, para que aos filhos que Deus vos deu, nada faltasse, muito particularmente a presença da Mãe, que é a grande modeladora das almas dos filhos. Só de Deus são conhecidos.

 

Mas o somatório de todos os sacrifícios que vos foram pedidos ao longo destes anos, é francamente positivo e foram muitas as graças que o Senhor vos concedeu.

 

São misteriosos os caminhos que Deus nos vai deparando no decorrer da vida. Terminou a vossa presença em Terras Portuguesas de África. E, por isso, aqui nos encontramos, para convosco agradecer, ao Senhor Deus, estes anos aqui vividos, numa isenção e desinteresse totais ao serviço da Nação, como portugueses de excepção e cristãos-católicos.

 

Estamos a celebrar a Missa de acção de graças. A liturgia da Palavra exprimiu os vossos e os nossos sentimentos de reconhecimento e agradecimento ao Senhor.

 

Ele vai estar connosco. Com Ele, n’Ele e por Ele, sobe a Deus-Pai o nosso agradecimento.

 

E, como nunca estamos satisfeitos e queremos sempre mais, com o Senhor Jesus, vamos suplicar ao Pai do Céu que continue a enviar abundantes graças sobre Vªs. Exªs., vossos filhos e nossa Pátria, desta Pátria que tanto precisa que Deus lhe conceda a Paz.

 

Padre João Cabeçadas

Capelão-Mor das Forças Armadas

em Moçambique