WIRIAMU

 

SÍNTESE

 

1.

No deslocamento de trabalho que os Comandantes-Chefes Ultramarinos faziam anualmente a Lisboa, o General Kaúlza de Arriaga manteve-se, nesta cidade, as primeiras semanas de Dezembro de 1972, regressando a Moçambique nas vésperas do Natal, para o passar com as Tropas.

 

Neste período, exerceu interinamente o Comando-Chefe outro Oficial-General.

 

 

2.

Quando chegou a Nampula, o Brigadeiro Armindo Videira, Comandante da Zona Operacional de Tete, informou-o de que havia rumores de, numa operação realizada na área de uma aldeia chamada Wiriamu, entre 16 e 18 de Dezembro, durante a sua estada em Lisboa, as tropas terem tido comportamento incorrecto perante as populações. Logo ordenou que se efectuasse, por entidade do Serviço de Justiça Militar, o normal e devido inquérito. Foi o 1º inquérito de Wiriamu.

 

Neste inquérito concluiu-se – 1º, que, na referida operação, tinham morrido umas seis dezenas de pessoas, entre terroristas e outros que o não seriam ou que o não eram, e, 2º, que tudo tinha sido um incidente infeliz mas corrente de guerra, não havendo matéria de crime, nem motivo para maior procedimento. Em consequência despachou – arquive-se até melhor prova.

 

 

3.

E, durante 7 meses, ninguém de boa fé mais pensou em Wiriamu. Porém os Padres da Congregação de Burgos, actuante em Moçambique, para não "perderem o comboio", como eles próprios diziam, "alinhavam" com os terroristas, pelo menos dando-lhes refúgio nas suas missões e nelas escondendo material bélico. Teve, o General Kaúlza de Arriaga mesmo de ordenar o encerramento de algumas dessas missões.

 

Assim, instituindo-se inimigos da presença portuguesa em Moçambique, ou mesmo em África, e numa obcecação irracional e doentia, amoral, resolveram ir mais longe, promovendo, em ligação com a oposição interna ao regime de Lisboa, um golpe político contra Portugal, em Londres, quando da visita já programada, a esta cidade, do Presidente do Conselho de Ministros do Governo Português, Prof. Dr. Marcello Caetano. Neste sentido, convenceram um outro Padre, de nome Hastings, a escrever um artigo, falso e explosivo, e convenceram o conceituado jornal The Times a publicá-lo, em 10 de Julho de 1973, véspera da chegada de Marcello Caetano a Londres. No artigo, os acontecimentos de Wiriamu eram, com plena má fé, deturpados, ampliados, agudizados e mesmo forjados, por forma a torná-los num escândalo internacional, o que em parte foi conseguido. Tudo isto levou o General Kaúlza de Arriaga a ordenar, por descargo de consciência, a realização de outro inquérito sobre Wiriamu, por outra entidade do Serviço de Justiça Militar. Foi o 2º inquérito Wiriamu.

 

As suas conclusões foram iguais às do 1º inquérito – um incidente infeliz mas corrente de guerra, sem matéria de crime, nem motivo para maior procedimento. E, decorrentemente, o seu despacho foi o mesmo – arquive-se até melhor prova.

 

Também e além de lhe ter concedido uma entrevista completa, o General Kaúlza de Arriaga autorizou um representante qualificado do "The Times", enviado por este jornal a Moçambique para averiguação da verdade sobre Wiriamu – o que o "The Times" deveria ter feito antes e não depois da publicação do artigo -, a visitar livremente o que entendesse e a contactar, também livremente, com quem desejasse. O consequente artigo publicado pelo "The Times" foi muito positivo para Portugal.

 

 

4.

Já após o regresso definitivo do General Kaúlza de Arriaga a Lisboa e em face de diligências, ainda não explicitadas, do Engenheiro Jorge Jardim, o Presidente Marcello Caetano mandou, em fins de Agosto de 1973, que se fizesse um novo inquérito sobre Wiriamu, por entidade expressamente enviada de Lisboa, o Brigadeiro Henrique Nunes da Silva, com alguns auxiliares. E, antes deste inquérito finalizado, demitiu, inexplicávelmente e injustificadamente, o Comandante da Zona Operacional de Tete, o já citado Brigadeiro Armindo Videira. Foi o 3º inquérito Wiriamu e a destituição deste Brigadeiro.

 

O inquérito, como era de esperar, chegou a conclusões idênticas às dos 1º e 2º inquéritos, sendo, naturalmente, mandado arquivar pelo próprio Presidente Marcello Caetano. Contudo, em atitude, inexplicável e injustificada, errada e iníqua, foi mantida a exoneração do Brigadeiro Armindo Videira. Contra essa atitude se revoltou até o Engº Jorge Jardim.

 

 

5.

Perante três inquéritos com conclusões iguais, realizados por entidades diferentes, incluindo especialistas metropolitanos, nada mais havia a considerar e a proceder. Tudo estava, e por excesso, esclarecido.

 

Wiriamu foi, pois, um incidente infeliz mas corrente de guerra.

 

6.

E, se alguém, especialmente um oficial das Forças Armadas, aparece, hoje, auto-confessando ter, então, cometido, permitido ou presenceado crimes, deverá ser imediatamente julgado e, se verdadeira a sua confissão, condenado e punido por esses crimes e pelo de os ter conseguido ocultar nos inquéritos.

 

É assunto que compete ao Ministério da Defesa Nacional.