Wired, Agosto de 1995, número 3.08, página 126: um artigo intitulado "Bespoke Type, The subtle art of Matthew Carter", algo acerca de um designer tipográfico, fundador da Bitstream e mais recentemente da Carter & Cone. O nome não me era de todo desconhecido, mas numa revista como a Wired, o que faria um artigo de dupla página dedicado a este indivíduo? Leio-o. O artigo não era dedicado, como eu supunha, a Matthew Carter, antes o era a um dos seus mais recentes trabalhos: um tipo intitulado Wiredbaum. A história é a seguinte: os directores artísticos da Wired, John Plunkett e Barbara Kuhr, estavam de um certo modo insatisfeitos com a escolha por eles feita para o tipo de texto (body copy) a usar na revista. Esta escolha tinha recaído sobre a Walbaum, um tipo de serifa recta (slab serif), bastante clássico e de boa leitura, que contudo se revelou demasiado contrastado nos corpos pequenos, característica que obviamente prejudica a leitura do texto. O que fazer, então, para resolver o problema? Mudar de tipo, comprar outro qualquer, e simplesmente substituir a Walbaum por, digamos, Times ou qualquer outra família com provas dadas de eficiência? Seria uma hipótese, mas a direcção artística da revista, tentando certamente não provocar nenhuma ruptura ao nível do design, optou por manter a Walbaum, mas encomendar a este designer tipográfico um redesenho do tipo, de forma a que os fortes contrastes entre finos e grossos existentes na versão original fossem suavizados. Isto sem, obviamente, descaracterizar a Walbaum original, e, como tal, sem descaracterizar o projecto gráfico original da Wired. Carter meteu mãos à obra, e, segundo o artigo, criou a nova variante usando o Fontographer e realizou exaustivos testes, chegando inclusivamente ao ponto de testar o novo tipo usando a impressora off-set e o papel usados pela revista, de forma a melhor testar o "ganho de tinta" aquando da impressão. O resultado é um subtil, quase invisível mas claramente eficaz redesenho de um tipo que se muito tinha a ganhar com este trabalho, nada perdeu.
Para a Wired, uma revista de cuja audiência não fazem parte número suficiente de designers ou profissionais do design, que a forcem a ter uma tal atenção a estes aspectos (geralmente menosprezados por uma grande maioria de publicações), são devidos os maiores cumprimentos, pelo exemplo que deu de uma atitude séria face à tipografia, raiz, no fundo, do design gráfico e também sua alma. Para Matthew Carter, não foi certamente mais do que mais um trabalho, mas a seriedade com que o enfrentou é louvável.
Para nós, interessará reflectir sobre o cuidado que esta publicação, entre outras, investe no "pormenor" tipográfico. Ou seja, é de facto tão importante para um trabalho gráfico - qualquer que ele seja, mas sobretudo projectos editoriais - o cuidado e a atenção que se tem ao desenvolver grelhas de paginação, ao escolher ilustradores ou cores a usar (ou seja, aspectos gráficos mais facilmente notados quer por leigos quer por pessoas ligadas ao design), como é sobremaneira essencial o cuidado na escolha ou selecção do tipo a usar, seu espacejamento, entrelinha, corpo(s) e demais características.
Infelizmente, e pelo que me é permitido observar, tal cuidado é muitas, e de mais, vezes menosprezado e/ou esquecido. Não vou citar exemplos, mas o que quero frisar é sobretudo a importância que para o projecto gráfico de uma publicação, qualquer que ela seja, tem a escolha e o uso de uma boa e original tipografia. No fundo, acaba por ser tão importante para a personalidade gráfica de uma publicação o tipo escolhido como a marca ou logotipo desenhados. Parece-me, aliás, que o exemplo apresentado como tema deste texto, a Wired, será um dos mais indicados, porque se por um lado não é uma publicação especializada de design, embora o possa ser de comunicação, também alia a um projecto gráfico de algum arrojo formal um cuidado e um trabalho tipográfico de alto nível. Coisa rara, infelizmente.

Miguel Carvalhais
1974 - aluno da FBAUP @ Design de Comunicação

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