A Amnistia Internacional prefere o preto-e-branco nos seus anúncios, podia-se dizer na sua "publicidade", a Benetton prefere as cores na sua "propaganda". É talvez já a diferença entre "seriedade" e o comércio. Mas é antes, para se poder chegar aí, a diferença entre um regime "ético" e um regime não-ético da imagem. Não se trata, como se supõe vulgarmente, de uma diferença no grau de realismo, as cores acrescentando ao preto-e-branco o toque final nessa direcção, aparentemente a única imaginável para tal mentalidade, a de um cada vez maior realismo, como se o preto-e-branco não passasse do momento "pré-histórico" do colorido. Ou não se trata ainda: pelo caminho que as coisas levam, talvez isso venha a ser o "evidente", mas para já a preferência da Amnistia Internacional não corre o risco de ser pura e simplesmente considerada retrógrada (ou mesmo absurda), uma escolha em favor da "Idade da Pedra" (ou talvez mais acertadamente da "Idade do Carvão", acertadamente de um ponto de vista histórico, uma vez que de um ponto de vista simbólico, o granito, ao menos ele, não estaria nada mal). Aliás é de Progresso que se trata para tal mentalidade, não tanto de realismo; ou então apenas de "realismo" na medida em que o Progresso é aí a única realidade, o único critério capaz de medir o maior ou menor grau de realismo das imagens: sem dúvida a imagem de um automóvel é assim mais realista que a imagem de um carro de bois. Mas para os que trabalham de perto com a imagem, a questão parece colocar-se de um modo dir-se-ia inverso, a maior parte dos fotógrafos importantes diz ainda hoje que o preto-e-branco é definitivamente mais realista. Talvez se trate então, e apenas, de uma outra Realidade: é aqui suposto o preto-e-branco concentrar melhor o olhar, permitir-lhe uma maior acuidade, fornecer-lhe as pistas decisivas, digamos introduzi-lo numa lógica da visão, não o deixando gastar-se completamente numa consumação orgástica, sem devir nem contiguidade, intransitiva, olhar "perdido" no mesmo gesto e no mesmo instante em que fora "achado".
Eis pois, já, a linha de separação: o preto-e-branco é "exigente", obriga a um esforço, a um trabalho, requer exercitação, aprendizagem, o "colorido" é sobretudo simbólico de um estado de civilização hedonista, de consumo fácil, imediato, sem reservas de qualquer espécie, e menos para ver que para confirmar, confirmar no seu gesto de "dar cor". Dalgum modo todo o "colorido" é "colorizado", como se diz dos filmes antigos a preto-e-branco a que os donos actuais resolveram "acrescentar cor" para os tornar mais rentáveis. Não quer isto dizer, evidentemente, que o preto-e-branco é primeiro ou primitivo, mas que ele é sentido, isso sim e sem qualquer dúvida, como "eticamente" primordial, coisa em que os dois pontos de vista concordam, um para o exaltar o outro para o mostrar como ultrapassado, tão ultrapassado como todas as coisas que de um modo ou de outro relevam de um regime ético. Esta concordância é assim aquilo que nos coloca na pista deste "facto de civilização".
A história desta singular dualidade de regimes de cor na imagem, exclusiva da chamada civilização ocidental, é bem recente: começa sem dúvida com a invenção da Imprensa e com a proliferação da Gravura (proporcionada por tal invenção), mas é, digamos assim, "oficializada" com a ruptura introduzida pela Reforma. O movimento reformador é costumeiramente designado como iconoclasta, mas é sem dúvida mais correcto defini-lo como cromoclasta, como faz Michel Pastoureau. São as cores mais que as imagens o alvo da fúria protestante. Eis então ao que se resume tal dicotomia de regime: à ruptura entre católicos e protestantes. Não é este o lugar para entrar nas minúcias de tal ruptura, nem nas razões que a fizeram coincidir com a separação entre o regime de preto-e-branco e o regime de cores. Importa apenas notar que é como efeito desta ruptura que o preto-e-branco surge como "sistema" de imagem mais sério, mais "ético", mais realista. Mesmo se por uma das habituais ironias da História é dos países protestantes (E.U.A. nomeadamente) que nos chega hoje a vontade desabrida de tudo "colorizar".
Nesta situação de duplo regime o que desaparece é uma dimensão propriamente antropológica da cor. Nem o regime ético e "lógico" do preto-e-branco nem o regime comercial e orgástico do colorido são capazes de incluir tal dimensão, conhecida de outras culturas (e aqui designada de "antropológica" um pouco por facilidade, à falta de melhor termo e em referência à disciplina que a estuda). Ou por outras palavras, não conhecemos o regime unitário capaz de operar a partir das três cores "antropológicas" fundamentais: o preto, o vermelho e o branco. No regime preto-e-branco perdemos o vermelho, no regime colorido o preto e o branco. Não se trata, evidentemente, de pura adição, juntar agora o que se separou antes, e dar assim a questão por resolvida. Não só a evolução cultural exige tempo e reiteração, como também, num sistema dual, é na contraposição de um ao outro que percebemos as coisas, isto é, não vemos o preto-e-branco senão como uma exclusão das cores, o colorido como uma rejeição quase psicológica de um mundo sombrio, sem vida, "sem cor". Não vemos o que está lá , vemos o que queremos que lá não esteja. É no conflito entre os dois que nos situamos, incapazes de fazer circular as energias por toda a sua extensão, imobilizados em dois pólos de atracção rigidamente autocentrados. Como Freud distinguindo e opondo entre si, em conflito eterno e insuperável, o "princípio da realidade" e o "princípio de prazer", incomunicáveis e bloqueando toda a energia circulatória, imobilizando em torno de cada um desses "princípios" todo o processo de relação com o mundo. E bem que esta lição freudiana poderia passar por uma introdução ao duplo regime de cor do Ocidente! Dir-se-á talvez, no entanto, que as coisas não são já tão assim como eram, que com a predominância crescente do regime colorido e o recalcamento do preto-e-branco se acentua uma evolução tendente à uniformidade de regime, que os resíduos de preto-e-branco tenderão a surgir cada vez mais como modos alternativos, cada vez menos como opostos relativamente a essa predominância. Talvez. Parece-me no entanto que qualquer certeza relativamente a isso é ainda impossível, para além do facto de que não poderemos saber, antecipadamente, de que tipo de "uniformidade" se poderia tratar. De momento o que me parece certo é o regime colorido apresentar-se mais como apologético da "cultura de consumo" que como modo razoavelmente autónomo de "ver", da atenção ao que se vê, sendo o seu "recuo" e a sua perda de força e de presença vistos mais como sinal de um generalizado "recuo" dos valores éticos que como abertura a uma dissolução do conflito.
A predominância de um dos regimes não parece alterar em nada a natureza do conflito, como se pôde perceber pela "época do preto-e-branco" que apanhou praticamente todo o século XIX e a primeira metade do século XX. Mas é certo que a inversão da dominância é recente, o que não dá para perceber ainda grande coisa: data sensivelmente da passagem dos anos 70 aos anos 80, "oficializada" pela própria burocracia que tornou nessa altura obrigatório o uso da foto a cores no Bilhete de Identidade, quando até aí era a foto a preto-e-branco o obrigatório. Os anos 70 marcam sem dúvida o ponto extremo do militantismo político, que surgia no então chamado terrorismo (Brigadas Vermelhas e quejandos) como um extremismo mais de ordem ética que propriamente política, isto é, mais como resposta de consciências individuais incapazes de "pactuar" com o que elas reconheciam ser o cinismo crescente do Sistema, do que empenhadas em transformações políticas e sociais claras e precisas. A reacção do Sistema foi, passe o exagero da expressão, o recalcamento do preto-e-branco e a exaltação do colorido. Dum modo mais preciso tratou-se de desviar o olhar de um "mundo a preto-e-branco" para o qual tais terroristas apontavam, eles e os que, como se dizia na altura, lhes faziam o jogo expondo tal mundo aos olhos de todos, e passar a focar uma realidade diferente, feérica e colorida, que se apresentava como a do futuro e a única estimável. Foi uma "pedagogia" dura, na qual os aparelhos de Estado, nomeadamente o policial, tomaram parte activa e talvez decisiva. Mas o retorno do preto--e-branco nos punks e outros e muitos variados movimentos de "selvagens urbanos" da última década e meia dá bem a ideia de como o "retorno do recalcado" se mantém iminente. Os anos 80, que tal "pedagogia" gerou, dão bem a ideia, pelo seu lado, daquilo em torno do qual se cristalizou o referido "mundo colorido": video-clips, magazines luxuosamente ilustrados, noites de néon, fatos-de-treino e mochilas infantis de cores fluorescentes, canetas de feltro, Moda como espectáculo nº1... ou, e sobretudo, o culto da Publicidade, isto é, a institucionalização da publicidade como forma cultural essencial deste "mundo", o que sem dúvida revela sobre ele o essencial: a sua artificialidade, o seu assumido interesse pelo ilusório, o fantasioso, o fictício, a preferência pela "imagem" em detrimento da coisa,... gerando obviamente dependência deste regime artificialmente pacificado, e o crescimento patético da toxicodependência não lhe é muito provavelmente estranho.
Isto para dizer do meu cepticismo relativamente à dissolução do conflito do nosso duplo regime de cor. A Amnistia Internacional sabe que o uso da cor aumenta o perigo do espectador/leitor não fazer uso da conciência para ver/ler o que ela lhe mostra. A Benetton acredita que pode mostrar o que quer que seja desde que lhe acrescente a cor... Falta aqui decididamente alguma coisa, talvez o vermelho, perdido na separação dos regimes. O tal vermelho "antropológico", que na tríade formada com o preto e o branco fornecia sem dúvida a relação à Terra, numa tentativa de amenizar o áspero contraste entre a noite e o dia, realidades do espaço sideral (que as místicas dualístas, fascinadas pelo tudo-ou-nada, enfatizaram). Vermelho este que decididamente não entrou no "colorido", claramente orientado para os céus artificiais, cada vez mais afastados da Terra. Pode ser só impressão minha - como saber o que falta quando se vive desde sempre com tal falta? -, ou mais provavelmente maneira de dizer. Mas eu diria, assim mesmo, que é o "esquecimento da Terra" que se desenvolve, desde a Reforma, na nossa relação à cor. E o facto de desde então cor ser sinónimo de "superfície", superficial, elemento dispensável na definição das coisas, parece demonstrar isso, a profundidade, a espessura, sendo experiências especificamente terrenas, acessíveis apenas na nossa relação à Terra. Iluminados ou assombrados pelo preto-e-branco quisemos ser anjos, seres voláteis não mais sujeitos à difícil e desagradável lei da gravidade; reencontrávamos as cores apenas por brincadeira, como as crianças, colorindo espaços supostamente neutros, alterando-lhes o "efeito visual" não a essência. E assim fomos aligeirando o nosso olhar, a ponto de hoje podermos ver (?) 25 imagens por segundo horas e horas a fio, todos, todos os dias, sem contar as outras,... foi provavelmente a única maneira que conseguimos imaginar para "criar asas" e ser iguais aos anjos, que nunca pousam realmente na terra, mesmo quando parece estarem sobre ela a andar.
É claro, nem tudo terá sido assim na nossa História, na nossa cultura; o que posso pensar sobre estas coisas vem-me provavelmente disso, do que sinto perante esses lugares escassos de excepção, esses espaços que se abriram na Fenda, no Vazio, à procura duma qualquer terra firme, insatisfeitos e incapazes de se sujeitarem a um conflito que decididamente não compreendiam. Mas é ainda difícil falar deles, tão fácil é empurrá-los para um ou outro pólo. Que eles sejam por enquanto o nosso Segredo, como se tivéssemos algum, como se fosse ainda possível ter algum!

Vítor Martins
Licenciado em Filosofia. Professor na FBAUP.

anteriorpróximoíndice